| "Não somos donos do mundo
e não possuímos condições plenas para
decidir o que deve ou não acontecer. Devemos nos concentrar
em fazer boas escolhas, escolhas que estejam em sincronismo com a
nossa essência e com metas espirituais elevadas, exercendo a
aceitação com respeito aos aspectos que fogem à
nossa competência de decisão" |
A imensa maioria das pessoas deseja realizar mudanças
em suas vidas. Nem todas possuem o mesmo grau de consciência
sobre as mudanças que desejam realizar. E, ao contrário
do que possamos imaginar, nossos desejos não são todos
favoráveis. Muitos deles, se realizados, trarão mais
sofrimento que felicidade. |
Sábio é aquele que aprende a querer o que deve querer.
Uma antiga oração diz “Deus, não me dê
o que te peço, mas o que de fato preciso”. Esta oração
é uma demonstração de profunda sabedoria.
Muitas vezes somos atraídos para armadilhas existenciais disfarçadas
em desejos aparentemente maravilhosos, cuja realização pareceria
nos trazer um grau máximo de felicidade.
O desejo é o caminho mais fácil para iludir o Homem
e, por isso, ele é assunto de todas as práticas espirituais
que visam restabelecer uma ligação mais profunda com Deus;
a palavra religião vem de religare – que significa
ligar de novo. O pressuposto é que, em essência, somos todos
ligados ao Criador, e que a vida cotidiana cria ilusões
de separação que acabam gerando sofrimento. Este é
um aspecto fundamental na maioria das expressões de religiosidade
no mundo, todas advertem sobre a necessidade de vencer nossos desejos
oriundos do ego para reorientarmos nossa vontade para aquilo que vale
a pena querer...
Esta breve reflexão sobre a inadequação de muitos
desejos e do quanto eles expressam aspectos patológicos do ego,
já é suficiente para que tomemos todo o cuidado com propostas
como as contidas em livros que prometem “segredos” e “leis
de atração”. Querer que o mundo se submeta aos nossos
desejos é inverter as coisas e tentar brincar de Deus.
Felizmente, nossos desejos não são todos atendidos. Quem
já não teve um desejo inconsequente em um momento de raiva
e descontrole emocional? A simples manifestação dessa energia
negativa já trouxe, simultânea e inevitavelmente, algumas
consequências menos felizes para o seu autor, já que o desequilíbrio
emocional, por si só, já é uma forma de autoagressão.
Devemos nos concentrar em descobrir as características que compõe
a nossa essência, conhecendo a natureza do ego e vencendo suas “inconsequências”.
Substituir a vontade que nossos desejos sejam realizados pela vontade
que aconteça “o melhor” é o começo do
caminho da sabedoria e da sanidade. Não somos donos do mundo e
não possuímos condições plenas para decidir
o que deve ou não acontecer. Devemos nos concentrar em fazer boas
escolhas, escolhas que estejam em sincronismo com a nossa essência
e com metas espirituais elevadas, exercendo a aceitação
com respeito aos aspectos que fogem à nossa competência de
decisão.
Querer fazer por métodos “mágicos” que o mundo
realize nossos desejos é uma infantilidade da alma. Claro que o
pensamento é uma poderosa força motriz; claro que ele é
matéria-prima das nossas exteriorizações e realizações;
é evidente que um pensamento focado e disciplinado favorece a possibilidade
de vitórias nos desafios da existência, mas daí a
querermos moldar o mundo ao feitio de nossos inconseqüentes desejos,
é coisa bem diferente.
Reconhecer que existe um princípio de atração na
esfera mental e que devemos orientar nossos pensamentos de maneira “positiva”
é apenas a ponta do iceberg e não garante a felicidade.
Todas as vezes que condicionarmos a nossa felicidade à realização
de nossos desejos infantis estaremos na contramão de sermos felizes.
A busca da felicidade é uma busca de auto-realização,
de essência, e não pode depender de nada, objeto, pessoa
ou acontecimento que esteja fora de nós. Pessoas, objetos e acontecimentos
podem fazer parte do cenário onde aprendemos a ser felizes, mas
não podem ser a causa da nossa felicidade, ou não teremos
felicidade, teremos dependência. E se um destes fatores vier a faltar
despencaremos daquilo que chamávamos felicidade para o abismo profundo
da depressão e da angústia.
A felicidade é um estado que convive estreitamente com a interdependência,
mas prescinde da dependência.
A pior coisa que poderia acontecer à maioria das pessoas seria
que todos os seus desejos se realizassem. Onde ainda não há
consciência, os desejos agirão sempre contra nossas necessidades
mais legítimas... É raro pedirmos o que realmente precisamos...
Busque a Verdade, não o desejo. Busque o Amor, não a dependência.
Não possuir é a liberdade suprema e não desejar é
a condição para que a atração verdadeira se
processe. Não conheço outro segredo...
Cuidado com aquilo que você deseja, alguns de seus desejos podem
“se realizar” para ensiná-lo que não valiam
a pena. Embora o aprendizado seja útil e bem-vindo, tenho certeza
de que nestas condições, você preferiria não
ter desejado...
Nas histórias sobre gênios e lâmpadas, eles concedem
apenas três desejos – isso é para evitar que as pessoas
na lenda compliquem demais seus destinos com desejos inconsequentes e
aprendam a escolher o que vale a pena pedir!
Essas lendas ensinam muito sobre a vida porque são oriundas da
sabedoria milenar de povos antiquissimos. Acredite mais na competência
de fazer escolhas que na possibilidade de ter os desejos “magicamente”
realizados. Se você escolher corretamente, o que deve acontecer,
acontecerá. E o resultado será muito melhor que o “desejado”!
Cuidado com o que você deseja, seus desejos expressam mais suas
fraquezas que suas forças...
Vença os desejos infantis, vença o ego e você terá
um encontro face a face com a felicidade que você tanto busca. Ela
não está em outro lugar senão dentro de você!
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