|
Este é o último texto da série sobre síndrome
do pânico. Para ler os quatro primeiros clique
aqui
"O tratamento medicamentoso da síndrome do pânico
sem se levar em conta o transtorno em que essa síndrome aparece,
é meramente paliativo, podendo, em alguns casos, ser perfeitamente
dispensável"
No texto anterior (clique
aqui), apresentei os sintomas da síndrome do pânico.
Desses sintomas, Emmet, logo ao entrar em terapia comigo, reconheceu os
seguintes como seus:
1. ataques paroxísticos de angústia;
3. taquicardia
7. sentimentos de irrealidade
7.2. ou ao ambiente (desrealização)
8. medo de
8.1. morrer
8.2. perder o controle
9. tremores
12. dispnéia (dificuldade de respirar)
13. problemas digestivos (azia)
14. suor excessivo (hiperidrose) ou ataques de suor
14.1. frio
15. mãos e pés frios
20. necessidade frequente de urinar
21. prisão de ventre
27. insônia,
28. agorafobia (medo de ficar em lugares onde seria difícil receber
ajuda, no caso de um ataque de pânico).
Destes sintomas, apenas os tremores não me foram relatados, mas
o contato com Emmet me fez ver que estavam presentes. Os *ataques paroxísticos
de angústia, a taquicardia, o medo de morrer e de perder
o controle, a dispnéia e a agorafobia eram extremamente intensos,
capazes de produzir um nível de incômodo suficiente para
PARALISAR A VIDA de Emmet, levando-o, por exemplo, a ter que ser acompanhado
por alguma pessoa – preferencialmente a mãe – em suas
tentativas de ir à rua.
Estamos com três meses de psicoterapia. Meu contato com ele sugeriu
que sua SP (= Síndrome de Pânico) era devida a um Transtorno
Fóbico-Ansioso, seja, a uma
descarga de ***hipertonia simpática devida a um alerta
ciberneticamente produzido (= produzido por INFORMAÇÃO).
Cabia, portanto, tentarmos chegar ao tipo de estímulo que, desencadeava
a Síndrome do Pânico.
Aparentemente, conseguimos. Isso ocorreu a partir da investigação
do desencadeante de seu primeiro ataque de angústia, ocorrido cerca
de cinco anos atrás, quando tinha dezoito anos e estava em seu
segundo ano de uma terapia que durou cinco.
O primeiro ataque de pânico de Emmet ocorreu após ele haver
assistido a um filme cujo conteúdo essencial era a luta de seu
protagonista para reverter a ação sobre ele próprio
de um novo processo científico, a que espontaneamente se submetera,
que o faria esquecer de tudo que dizia respeito a uma sua relação
amorosa, traumaticamente encerrada.
O eixo essencial de conflito do protagonista era, portanto, entre (1)
MANTER-SE LIGADO e (2) DESLIGAR-SE e ver o filme ativou fortemente o mesmo
conflito em Emmet, o que desencadeou o ataque.
Um detalhe. Emmet nasceu de cesariana. Esse tipo de parto, em que a passagem
do útero para o mundo externo é, por vezes, feito de forma
extremamente inesperada e abrupta, deixa em seu rastro uma matriz agorafóbica,
que pode atingir, ao longo da história do sujeito, níveis
mórbidos ou não.
Pois bem, em Emmet, esse nível mórbido foi atingido e DESLIGAR-SE
tende a provocar agorafobia, o que ativa, em contrapartida, um forte impulso
reativo de LIGAR-SE de forma excessivamente radical, o que lhe deixa claustrofóbico.
Quando algum evento (= **momento traumático
secundário) ativa, para além de certo nível,
o conflito entre essas duas tendências, desencadeia-se o ataque
de pânico.
Levantada essa hipótese, pedi-lhe que, entre uma sessão
e outra (à razão de duas vezes por semana até meados
de março presente, e à de uma vez por semana a partir de
então), voltasse sua atenção para situações
em que reconhecesse a presença desse conflito. Logo começaram
a jorrar lembranças, sonhos e associações.
Um dos materiais mais significativos dentre os que ele, a partir dali,
produziu dizia respeito a um anel (= símbolo de compromisso), que
havia comprado para si e para uma ex-namorada, a de quem se separara de
forma traumática, analogamente ao que ocorrera com o protagonista
do filme.
Transcrevo, a seguir, palavras do próprio Emmet sobre o episódio
do anel.
“Oi, Ebraico, lembrei-me de outro fator que pode ser interessante.
... Lembro que na época em que namorei com X. Eu comprei o tal
do anel de compromisso ... [Quando passei a usá-lo,] comecei a
me sentir mal e preso com ele. Acredito mesmo que a sensação
de sufocamento produzida pelo uso do anel foi um dos motivos que me fizeram
terminar o relacionamento com ela.
Mas tem um detalhe ... interessante, eu mesmo depois que tinha terminado,
fiquei com o anel no dedo, mas, em vez deixá-lo no anelar, passei
o anel para o dedo indicador e comecei a sair com outra mulher por um
bom tempo, com o anel no dedo indicador. Eu gostava daquilo,
Não sei por que diabos eu não me lembrei disso antes.”
Como não se trata, aqui, de fazer relato de caso, a referência
ao episódio do anel foi aduzida apenas para ilustrar o tipo de
material que passou a vir para a consciência de Emmet, após
havermos voltado nossa atenção para o eixo LIGAÇÃO-DESLIGAMENTO
e para as correlações desse eixo com
(a) claustrofobia;
(b) agorafobia; e
c) pânico.
Vale notar como, no episódio relatado, Emmet “conciliou”
as tendências a ligar-se e desligar-se, continuando a usar, não
no “dedo de compromisso”, o “anel de compromisso”...
Do relatado, para nossos atuais propósitos, interessa fundamentalmente
o seguinte:
Emmet começou terapia comigo no início de dezembro, quando:
(1) tomava 3mg de Lexotan (bromazepan) ao acordar e mais 3mg antes de
deitar e
(2) os ataques de pânico ocorriam à razão aproximada
de duas vezes por semana.
Conforme foi voltando sua atenção para o eixo conflitual
mencionado:
(1) o ritmo de ocorrência dos ataques se foi reduzindo e, desde
o INÍCIO DE MARÇO que NÃO SOFREU MAIS NENHUM, isso
a despeito de
(2) haver por iniciativa própria reduzido a dosagem de ingestão
de bromazepan ao deitar para 1,5mg.
VI
Os casos de Pedro e de Emmet, por mim trazidos à baila, ilustram
o conteúdo da ladainha relativa à Síndrome de
Pânico, que, até que me convençam de que estou
errado, não me canso de repetir:
O tratamento medicamentoso da síndrome do pânico sem se levar
em conta o transtorno em que essa síndrome aparece, é meramente
paliativo, podendo, em alguns casos, ser perfeitamente dispensável.
*Ataques paroxísticos de angústia: Refere ao clímax
de qualquer experiência psicológica. Um ataque "paroxístico"
de angústia significa que ela chegou a um ápice em que todos
seus sintomas - angústia, taquicardia, sudorese, expectativa de
morte, etc. - atingiram um nível máximo. Ou seja, "intensos
surtos de angústia", por exemplo.
** Momento traumático secundário: Se uma mulher, por exemplo,
é estuprada por um grupo de homens vestidos de camisa vermelha,
a visão posterior de pessoas com camisas vermelhas ativa a lembrança
da experiência do estupro (evento traumático primário)
e a isso chamamos de "momento traumático secundário".
*** Hhipertonia simpática: O sistema nervoso - isso, a maior parte
das pessoas sabe - se divide em voluntário (o que, por exemplo,
me permite comandar minha mão para digitar o que estou digitanto)
e involuntário (o que comanda, por exemplo, o ritmo de meus batimentos
cardíacos e a quantidade de suco gástrico liberada em meu
estômago). Esse último ramo do sistema nervoso, o involuntário,
se subdivide em simpático e parassimpático. O parassimpático
é o sistema que deve comandar, por assim dizer, em "situações
normais de temperatura e pressão"; o simpático é
o que deve tomar comando em situações emergência.
Quando há uma "hipertonia simpática" o sujeito
vive em clima de emergência, mesmo quando não há emergência
real. Não é, certamente, o melhor dos mundos.
Artigos relacionados - clique no título
|