| Eu tinha um paciente com intensa
fobia de sair à rua. Tanta que, atendi-o algumas vezes em sua casa,
antes de atendê-lo em minha clínica, para a qual ele vinha
sempre acompanhado. Após cerca de quatro meses de atendimento,
à razão de duas vezes por semana, chego na recepção
e vejo que ele está sozinho. Subimos e transcorre o seguinte diálogo:
LC: — Não vi ninguém com você hoje na recepção.
CARLOS: — É, hoje eu vim sozinho.
LC: — E a fobia.
CARLOS: — Ué, passou. Desde depois da última sessão,
na quinta-feira, até hoje, terça, que eu estou saindo pra
todo canto, sozinho, sem sentir fobia nenhuma. Fiquei bom.
LC: — Ah, pode ficar doente outra vez.
CARLOS: — O quê?
LC: — Pode ficar doente outra vez. Em uma terapia que não
é apenas paliativa, é reconstrutora, como a que fazemos
aqui, existe uma correlação palpável entre a quantidade
de trabalho feito – de associações, sonhos, lembraças
produzidos – e o nível de melhoria. Esse desaparecimento
radical e súbito de um sintoma intenso como era a sua fobia está
totalmente desproporcional à quantidade de trabalho analítico
que fizemos até agora. Esse tipo de melhoria ocorre quando estamos
chegando perto de algo com que o paciente tem particular dificuldade de
lidar. O sintoma desaparece, o paciente sai da análise e volta
algum tempo depois porque o sintoma retornou, por vezes intensificado.
Claro que eu dizer para você “ficar doente outra vez”
não passou de uma maneira dramática de chamar sua atenção
para isso. A conduta correta, no momento, é ficarmos quietos, esperando
o que vai acontecer e nos prepararmos para uma série de sessões
sem sonhos e sem lembranças e em que só virão à
tona assuntos banais. Logo veremos se tenho ou não razão.
Li, uma vez, que um hospital canadense para pacientes com paraplegias
de origem neurológica de origem neurológica pegou fogo.
Algo como 5% dos pacientes ficaram subitamente curados e saíram
correndo. Uma vez postos a salvo, a paraplegia voltou outra vez. O diagnóstico
diferencial estava feito: a paralisia daqueles 5% era de origem histérica,
não neurológica.
Esse tipo de mecanismo psicológico é a explicação
para o comportamento de pessoas que “deixam tudo para a última
hora”. Quando fica claro que não há alternativa: ou
fazem o que têm o que fazer ou o prejuízo será, de
fato, grande e inevitável, o MEDO de que isso ocorra faz entrar
em ação forças defensivas que estavam quiescentes
que bloqueiam as vias sintomáticas e desviam as energia psicológicas
para o canais de uma ação adequada. Terminada a “emergência”,
o sintoma volta outra vez.
É óbvio que, se o desaparecimento de um sintoma está
baseado no medo (como, em nosso exemplo, o medo de morrer em um incêndio)
basta passar o medo, que o sintoma volta outra vez. Como vimos no caso
de Carlos, isso também acontece como resultado do próprio
processo analítico: ao aproximar-se de recuperar fragmentos de
sua experiência vital que provocam medo, o paciente fica subitamente
curado e sai da análise. Passado o “perígo analítico”,
o sintoma volta outra vez. Cabe ao terapeuta alertar seu paciente para
isso.
SERVIÇO
Primeira aula gratuita do curso de Formação de Psicanalistas
de Orientação Loganalítica
Reservas por tel: (21) 2523 5315
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