| Mergulhando meus leitores, com estes
escritos, em um ambiente loganalítico (psicanalítico), arrisco
fazê-los esquecer que, em determinadas circunstâncias de nossas
vidas, a questão central são as próprias OCORRÊNCIAS
com que nos defrontamos e, não, seu PROCESSAMENTO psicológico,
cujo objetivo precípuo é evitar que nossas vivências
internas se tornem traumáticas, produzindo doença psicológica.
Um e-mail que recebi recentemente ilustra bem isso. Passo a transcrevê-lo
:
“Numa escola pública, estava ocorrendo uma situação
inusitada: uma turma de meninas de 12 anos que usava batom todos os dias
removia o excesso beijando o espelho do banheiro. O diretor andava bastante
aborrecido, porque o zelador tinha um trabalho enorme para limpar o espelho
ao final de cada dia. Mas – como sempre! – na tarde seguinte,
lá estavam as marcas de batom.
Cansou-se a chamar a atenção delas por quase dois meses,
e nada mudou: todo dia, a mesma coisa.
Tomou, portanto, uma decisão. Um dia, juntou-se no banheiro com
o bando de pestinhas e o zelador, descrevendo pacientemente como era trabalhoso
limpar todo dia todas aquelas marcas de batom que elas faziam no espelho.
Depois de laboriosa explicação – a que elas escutaram
com cara de deboche – o diretor resolveu demonstrar concretamente
o que tinha sido exposto em discurso e pediu ao zelador que demonstrasse
às meninas ''a dificuldade do trabalho''.
O zelador – óbvio que previamente instruído –
imediatamente pegou um pano, molhou NO VASO SANITÁRIO e passou
no espelho.
As marcas de batom desapareceram dali!”
Há problemas que demandam solução PRÁTICA
IMEDIATA e, nem sempre a solução para eles pode ser loganalítica.
Lembro-me de ter sido procurado para tratamento, apenas DOIS MESES ANTES
de um concurso para um serviço público que particularmente
a interessava e que era raramente realizado, por uma advogada de seus
trinta anos com fobia de exames. Traduzindo: precisava de uma SOLUÇÃO
PRÁTICA IMEDIATA para sua fobia. Não me pareceu prático
que inciasse um tratamento loganalítico. Aconselhei-a, portanto:
primeiro, a procurar um ALÍVIO SINTOMÁTICO de sua fobia
mediante HIPNOSE e, após ter feito o concurso, tendo passado ou
não, procurar-me para podermos diagnosticar e tratar dos elementos
de sua personalidade que estavam na raiz de seu sintoma - queixa e de
outros que, certamente presentes, estariam naquele momento com sua importância
eclipsada pela iminência do concurso.
Acho que aplicar modelo idêntico à situação
escolar descrita seria provavelmente o ideal. Prestemos atenção
a um detalhe: a mensagem que me chegou por e-mail não menciona
simplesmente “uma escola”, menciona “uma escola PÚBLICA”.
Ora, nossa experiência no Brasil mostra que, entre os que servem
o público, o “servidor PÚBLICO” é o que
mais o DESRESPEITA e menos o serve. Não seriam as marcas de baton
no espelho apenas um protesto transverso de alunas que sabiam não
serem levadas a sério se protestasse pelas vias “legais”?
Fosse assim, o que me parece bem possível, além de empregar
uma PRIVADA, que resolveu O SINTOMA, seria interessante que o corpo administrativo
e o docente empregassem uma comunicação de tipo loganalítico
para curarem A DOENÇA.
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