| PEDRO (em um supermercado, visivelmente
irritado, reclamando de uma falha na entrega de mercadorias): - Blá,
blá, blá! Blá, blá, blá! Blá,
blá, blá! ...
FUNCIONÁRIO DO SUPERMERCADO: - Mas doutor, o senhor NÃO
PRECISA ficar chateado assim!
PEDRO: - Mas, SE EU QUISER, eu posso?
FUNCIONÁRIO DO SUPERMERCADO: - Claro! Claro!
PEDRO: - Então, EU QUERO! Blá, blá, blá! Blá,
blá, blá! Blá, blá, blá! ...
É fundamental que defendamos o DIREITO INCONDICIONAL de nos aborrecermos.
Um dos maiores cânceres culturais da atualidade é o tipo
de literatura de auto-ajuda - aliás, o mais difundido dentre eles
- que manda você estar sempre OK! Um conhecimento mínimo
das descobertas da Psicanálise é capaz de nos fazer entender
como a obrigação de estar sempre OK é a origem de
um sem-número de sintomas, entre os quais se alinham - ao lado
de úlceras, infartos, insônia, depressão, impotência
sexual, distúrbios da aprendizagem etc. - os assassinatos em massa
do tipo abordado em "Tiros em Columbine", típicos dos
EUA, país do OK!
Assassinatos em massa são um fenômeno que, de fato, merece
análise. O perfil desse tipo de crime é absolutamente singular.
A maior parte dos crimes é cometida à noite, os assassinatos
em massa são cometidos de dia; a maior parte dos crimes são
vendetas pessoais ou tem por objetivo o lucro material, os assassinatos
em massa são grandemente impessoais e não geram lucro material;
a maior parte dos crimes é cometida pela população
de baixa renda, a maior parte dos assassinatos em massa é cometida
por membros de uma população de renda bem mais alta (a família
de um dos dois meninos assassinos de Columbine tinha sete carros em sua
garagem!); cometido o crime, a maior parte dos infratores tenta escapar
das mãos da justiça, os que perpetram assassinatos em massa
ou se entregam (alguns com uma expressão claramente radiante) ou
se suicidam!
Acrescente-se que parentes, vizinhos e amigos costumam expressar grande
espanto quando tomam conhecimento do massacre, pois são unânimes
em afirmar: "Mas ele era um menino tão educado, tão
bonzinho!"
Pois é! Esse menino "tão educado, tão bonzinho"
não se permitia expressar seu aborrecimento em um supermercado!
Estava sempre OK! Até que um dia...
Os episódios de assassinato em massa - assim como as já
mencionadas úlceras, infartos, distúrbios da sexualidade,
da capacidade de aprendizagem etc. - são rebentos perversos da
obrigação de estar OK.
Acho bom protegermos nosso direito de ficar aborrecidos. Estaremos protegendo
não apenas a nós mesmos; estaremos protegendo também
aos outros.
Esta coluna se propõe a relatar experiências
sobre o poder da palavra em nossas vidas. Aqui serão relatados
dezenas de fragmentos de diálogo - reais ou fictícios -
segundo os pontos de vista da Loganálise, mostrando onde e como
esses diálogos apresentam elementos favoráveis ou desfavoráveis
ao estabelecimento de uma comunicação sadia. *A Loganálise
é um filhote da Psicanálise: pretende mostrar como o cidadão
comum, em seu dia-a-dia, pode tirar proveito de conceitos como repressão,
fixação, trauma e outros para promover sua própria
saúde psicológica e a daqueles com quem se relaciona.
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