| Após haver lido meu livro
“A Nova Conversa”, em que eu mostro como alguns princípios
fundamentais da Psicanálise – da qual a Loganálise
não é mais do que uma variação – podem
ser empregados em nossa fala cotidiana para promover nossa saúde
psicológica e a daqueles que nos cercam, Paula (óbvio que
se trata de um pseudônimo) entrou em contato comigo perguntando
– ela mora em outro estado - se eu não poderia orientá-la
via Internet no que diz respeito à melhor forma de se comunicar
com seu marido.
Curioso, aceitei o desafio, mas eu não tinha certeza sobre o quanto
esse tipo de mídia se prestaria para instrumentar uma orientação
loganalítica, disse que não iria cobrar pela orientação,
pelo menos enquanto não tivéssemos certeza de que ela poderia
ser eficaz.
Enviei-lhe, então, o seguinte e-mail:
Primeiro e-mail
Paula, estar fora de rota é a pior das derROTAS. Qual a nossa
rota? Treinar você a empregar a Nova Conversa (NC) em seu cotidiano
para promover sua saúde mental e a dos próximos a você.
Isso se faz mediante o emprego de frases autológicas (enunciadas
em primeira pessoa), microscópicas (referidas a situações
específicas), expressando emoções e desejos e com
DIREITO INCONDICIONAL de serem enunciadas.
“Nossa cultura, infelizmente, é alérgica à
NC, remédio de que necessita desesperadamente para superar suas
fixações e ingressar em uma nova era. Para combater a NC,
ela aplica, contra quem tenta empregá-la, essencialmente QUATRO
ARGUMENTOS. É preciso que saibamos deles nos defender. Exemplifico:
| "Desses argumentos,
empregados para ilegitimar a fala do próximo, o mais freqüentemente
empregado pelos homens na relação com as mulheres é
o da “irracionalidade”, o de que ela NÃO TEM RAZÃO
e, para que se possa instalar uma NC, é fundamental que a mulher
saiba lidar com esse tipo de ilegitimação" |
O argumento da “irracionalidade”:
FULANO: — QUANDO você fala isso (= microscopia),
EU (=autologia) me sinto CULPADO (expressão de sentimento)!
BELTRANO: — Você NÃO TEM RAZÃO (= argumento
da irracionalidade) de se sentir culpado .
FULANO: — Eu não disse que eu tenho RAZÃO em
me sentir culpado, eu disse que ME SINTO CULPADO (= direito incondicional
de expressar verbalmente as próprias emoções,
sentimentos e desejos).
|
O argumento da “inutilidade”:
FULANO: — QUANDO você fala isso (= microscopia), EU (=autologia)
me sinto CULPADO (expressão de sentimento)!
BELTRANO: — Pode tirar o cavalinho da chuva, porque eu NÃO
VOU PARAR DE FALAR ISSO (= argumento da inutilidade) só porque
você se sente culpado.
FULANO: — Eu não me lembro de haver dito para você
PARAR DE FALAR ISSO, eu me lembro de ter dito que, quando você fala,
EU ME SINTO CULPADO (= direito incondicional de expressar verbalmente
as próprias emoções, sentimentos e desejos).
O argumento da “irrelevância”:
FULANO: — QUANDO você fala isso (= microscopia), EU (=autologia)
me sinto CULPADO (expressão de sentimento)!
BELTRANO: — Esse negócio de você se sentir culpado
ou não NÃO TEM A MENOR IMPORTÂNCIA (= argumento da
irrelevância).
FULANO: — Se tem importância ou não eu me sentir culpado,
não tenho a mínima idéia. Mas que tem importância
eu poder falar que estou me sentindo culpado, quando estiver sentindo
culpa, disso eu tenho toda a certeza (= direito incondicional de expressar
verbalmente as próprias emoções, sentimentos e desejos).
O argumento do “desprazer”:
FULANO: — QUANDO você fala isso (= microscopia), EU (=autologia)
me sinto CULPADO (expressão de sentimento)!
BELTRANO: —. Para mim, é muito DESAGRADÁVEL (= argumento
do desprazer) você ficar dizendo que se sente culpado, quando eu
digo que você não gosta de mim porque optou por fazer um
doutorado fora, sabendo que eu não posso acompanhar você.
FULANO: — Lamento, mas para mim também seria extremamente
desagradável NÃO PODER DIZER isso.
Desses argumentos, empregados para ilegitimar a fala do próximo,
o mais freqüentemente empregado pelos homens na relação
com as mulheres é o da “irracionalidade”, o de que
ela NÃO TEM RAZÃO e, para que se possa instalar uma NC,
é fundamental que a mulher saiba lidar com esse tipo de ilegitimação.
Note-se que, à medida que se vai instalando a NC, tendem a vir
à tona sonhos, lembranças de infância e, com eles,
a remissão de sintomas.
Dito isso, quero que você passe a me enviar fragmentos de diálogos
que você considerou malsucedidos, ocorridos entre você e seu
marido, para que eu possa comentá-los.
Este texto continua, é o primeiro de uma série de quatro.
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O segredo do bom diálogo |