|
Este é o segundo artigo da série sobre síndrome
do pãnico, para ler a primeira parte - clique
aqui. Vamos agora à segunda parte deste tema.
A descarga *paroxística de angústia é uma das possíveis
expressões do que se chama “reação ergotrófica”,
ou seja, uma produção extra de energia, patrocinada por
nosso sistema nervoso autônomo. Esse tipo de reação
é desencadeada toda vez que um animal se percebe em situação
de perigo, pois tal “energia extra” deverá servir-lhe
para fugir ou para lutar (“ergon = trabalho, em grego). Ocorre que,
se tal “reação ergotrófica” ocorre na
AUSÊNCIA DE UM PERIGO REAL, o sujeito não tem onde empregar
de forma funcional o excesso de energia produzida e torna-se vítima
da reação que, em situações de real perigo,
deveria servir-lhe de apoio. A reação ergotrófica
pode ser desencadeada por dois tipos de fatores: (a) tóxicos e
(b) cibernéticos (relativos a informação).
O desencadeante é cibernético toda vez que percebo um estímulo
que considero perigoso. Se estou calmamente sentado em uma sala de cinema
e ouço gritarem “Fogo!”, essa INFORMAÇÃO
desencadeia em mim esse tipo de reação, pondo a minha disposição
uma quantidade extra de energia para que eu possa colocar minhas pernas
a correr. Ocorre, entretanto, que a mesma quantidade extra de energia
pode ser liberada se eu, que tenho fobia de baratas, vejo uma. Aqui, não
há razão objetiva para produção de uma reação
ergotrófica e o ataque (= síndrome) de pânico que
ela produz é expressão do que o Código Internacional
de Doenças (CID-10) classifica como Transtorno Fóbico-Ansioso,
que deve ser tratado psicoterapicamente. A medicação,
nesses casos, só tem sentido se for claramente entendida pelo profissional
e por seu paciente como uma medida paliativa, que objetiva “alívio”
e não “cura”. O estímulo fóbico –
em nosso exemplo, a barata – nem sempre é óbvio e
pode levar meses até que terapeuta e paciente sejam capazes de
descobri-lo, mas, quando descoberto e devidamente tratado, a reação
de pânico deixa de ocorrer.
Penso usar o caso de Emmet, atualmente trabalhando psicoterapicamente
comigo, para exemplificar esse processo.
Para falar das possíveis causas tóxicas da Síndrome
do Pânico, vale rever o conceito de “toxidade”.
“Toxidade”, embora muitos não se deem conta disso,
é uma relação. É a relação com
um ser vivo de um elemento - químico ou, mais raramente, físico
– capaz de produzir distúrbios funcionais ou, até
mesmo, a morte. Desde Paracelso (1493-1541), reconheceu-se que, se, por
vezes, para uma espécie, um elemento é tóxico por
si só (o cianureto, por exemplo, para nós humanos), boa
parte deles, todavia, depende, para apresentar toxidade, de que se preencham
exigências relativas à dosagem (o que, segundo o citado Paracelso,
fazia a diferença entre remédio e veneno) e às condições
do organismo (sua natureza, sexo, idade, peso, estado hormonal, psicológico,
de nutrição, etc.). Entende-se, portanto, que, segundo as
condições do organismo, a mesma dosagem de um certo elemento
pode ser tóxica ou não. Essa “relação
tóxica” pode ser estabelecida entre um organismo e um elemento
exógeno (= proveniente do ambiente, por exemplo, o tal cianureto)
ou entre ele e um elemento endógeno (= por exemplo, um hormônio).
Síndrome do Pânico poderia ter uma origem tóxica?
Voltemos, então, à Síndrome de Pânico. Poderia
ela ter origem tóxica? Sem dúvida. Comecemos pela toxidade
“exógena”. A ingestão de cocaína pode
provocar um ataque de pânico. Nesse caso, a Síndrome do Pânico
seria classificada pelo Código Internacional de Doenças
como F14 (Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso
de cocaína). Como se vê, a “toxidade” da
cocaína está oficialmente contemplada entre os possíveis
causadores da Síndrome do Pânico.
A toxidade “endógena” é também possível?
Em sendo, também é oficialmente contemplada?
Vejamos.
Em 1895, Freud escreveu um artigo – “Dos fundamentos de
se separar da Neurastenia um Complexo de Sintomas sob o nome de Neurose
de Angústia – em que afirma que, se os elementos químicos
produzidos pela excitação sexual não são devidamente
processados – entenda-se, proporcionalmente transformados em prazer
– o resíduo não processado desses elementos pode –
segundo as condições, estruturais ou conjunturais, em que
se encontra o organismo – ADQUIRIR STATUS TÓXICO e PROVOCAR
ATAQUES DE ANGÚSTIA.
Essa, entretanto, é uma descoberta “politicamente problemática”.
Vejamos.
Uma mulher, dependente financeiramente do marido, que apresenta ejaculação
precoce, apresenta ataques de pânico. Segundo a hipótese
freudiana – que minha experiência clínica confirma
- ela, que começa a excitar-se na relação, mas, visto
o problema do marido, jamais chega ao orgasmo, apresenta ataques de pânico,
em geral no espaço máximo de dois dias após a ocorrência
daquela relação. Sugerir-lhe o quê (particularmente
nas condições de mercado do século XIX)? Que pare
de acolher os desejos sexuais do marido? Que procure um amante capaz de
sustentar mais longamente uma ereção? Como um psiquiatra
com ejaculação precoce orientaria sua esposa em tal matéria?
O século XX descobriu a solução: medicá-la
com Alprazolam, inicialmente comercializado sob o nome de Frontal...
(Ao tempo de Freud, opuseram-se a esse seu entendimento, dizendo que tais
ataques de pânico eram devido ao que hoje chamamos de estresse,
já que, enviada para um spa, a vítima da Síndrome
do Pânico cessava de sofrer ataques. Freud, que era bem espertinho,
respondeu: “Só quando vai para o spa SEM O MARIDO!)
Este texto continua...
*Paroxismo: 1 espasmo agudo ou convulsão; 2 momento de maior intensidade
de uma dor ou de um acesso; 3 recorrência ou intensificação
súbita dos sintomas de uma afecção paroxismos - Fonte
Dicionário Houaiss
Artigos relacionados - clique no título
|