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Para compreender como deve ser uma dieta verdadeiramente saudável,
é necessário, primeiro, conscientizar-se da existência
das Gunas, ou três qualidades essenciais da natureza, e prestar
bastante atenção aos preciosos ensinamentos que os grandes
sábios yogues da antiga Índia nos legaram.
| "A dieta sáttva confere saúde,
boa memória, atenção, moderação,
concentração, senso de justiça, devoção,
honestidade, conhecimento, serenidade, harmonia, generosidade, pureza,
luz, discernimento, razão, entendimento, inteligência,
sabedoria, pensamentos sublimes, insights, eloquência, compaixão
e intuição" |
A palavra sânscrita “Guna” significa
“qualidade”. O Yoga, o Samkhya, o Ayurveda e
algumas escolas do Vedanta consideram que guna seja uma das três
qualidades essenciais ou primárias da natureza (prákriti)
e que todo o universo seja constituído e regido por elas. O
Yoga, o Samkhya e o Vedanta são três das seis
escolas clássicas de pensamento ou filosóficas –
Dárshanas – mais importantes da antiga Índia.
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Já o Ayurveda é a tradicional e milenar medicina
da Índia.
As gunas são:
(1) Sattva (pureza, a mais elevada das qualidades, princípio do
equilíbrio e da lucidez, impulso inato de evolução)
é a mais sutil densidade da natureza.
(2) Rajas (paixões, apego, princípio do movimento e dinamismo)
é a média densidade da ignorância
(3) Tamas (princípio da inércia, estagnação,
impulso inato de continuar igual) é o aspecto mais denso e escuro
da ignorância. Da interação das três gunas nascem
os cinco elementos da natureza: espaço (akasha), ar (vayu), fogo
(tejas), água (jala) e terra (prithivi) e, consequentemente, o
universo. As gunas encontram-se numa constante interação
dinâmica. Raramente se vê um puro tamas, ou um puro rajas
e/ou ainda um puro sattva. As gunas tendem também a preservar suas
particularidades naturais por um certo período de regência
ou domínio.
O Yoga e o Ayurveda enfatizam o desenvolvimento de sattva.
No Yoga, sattva é a mais elevada das qualidades que conduz
ao crescimento espiritual. No Ayurveda, sattva é o estado de equilíbrio
que permite a cura se manifestar.
Dieta yogue
Entre os fatores que mais influem na saúde integral, os hábitos
alimentares são os principais. Os alimentos determinam a natureza
do homem. O termo “Anna”, em sânscrito, significa “alimento”.
Portanto, Anna-Yoga é o yoga da alimentação.
A dieta vegetariana e sattva é essencial para aquele que deseja
obter uma elevada consciência espiritual. A dieta de um yogue deve
ser vegetariana e basicamente constituída de alimentos sattvicos,
de natureza pura e que favoreça o desenvolvimento da saúde,
do equilíbrio e da consciência. Para o Yoga e o
Ayurveda, sattva é a mais elevada das três qualidades
(gunas), favorece equilíbrio tanto para o desenvolvimento de uma
consciência espiritualizada quanto da saúde.
Preparo dos alimentos
Os alimentos devem ser preparados num ambiente limpo, com higiene, tranquilidade,
reverência e contentamento, e servidos com amor e generosidade.
Não se deve assistir à televisão, a noticiários,
a filmes, conversar ou discutir problemas durante as principais refeições
e, muito menos, alimentar-se com raiva. Assim como não se deve
beber água, refrigerantes ou suco de frutas durante as principais
refeições e consumir frutas e/ou sobremesas doces e geladas
antes ou logo após, pois todos esses hábitos errôneos
muito prejudicam a digestão. Todo alimento mal digerido transforma-se
em toxina (ama), e o seu acúmulo no organismo pode predispor a
diversas doenças.
Durante as refeições, deve-se cultivar a tranquilidade e
a concentração, e não se deve esquecer de mastigar
bem os alimentos antes de engoli-los.
Preferencialmente, os vegetais devem ser consumidos pré-cozidos,
cozidos ou refogados, com o cuidado de não se destruir a energia
vital (prana) neles contida.
Os hábitos alimentares e a forma de preparar os alimentos devem
adequar-se às estações do ano. No inverno, quando
há predominância do frio, os alimentos devem ser cozidos
e/ou refogados e consumidos quentes. Já no verão, quando
há maior predominância de luz e calor, os alimentos devem
ser leves, de fácil digestão e frescos, preparados, de modo
que seu frescor seja preservado; é a época em que se pode
fazer uso de vegetais e hortaliças cruas na forma de salada. Não
se deve consumir mais do que o conteúdo de duas mãos cheias
de alimentos sólidos (grãos e outros vegetais). Todo alimento
consumido quente é mais facilmente digerido.
É sabido que certos alimentos podem auxiliar a mente e o corpo
a se tornarem mais refinados, entretanto outros podem conduzir a consciência
ao nível de um animal. O yogue tem compaixão e respeito
por todas as formas de vida.
| Segundo o Bhagavad Gita: “Todo grande
sábio, pela virtude de seus conhecimentos, enxerga de forma
equiparada um brâmane (sacerdote), uma vaca, um elefante e um
cachorro.” |
Pode-se dizer que a prática yogue tem dois estágios:
(1) desenvolvimento de sattva;
(2) transcendência de sattva.
O desenvolvimento de sattva compreende purificar o corpo e a mente. E
a sua transcendência significa ir além do corpo e da mente
e alcançar o verdadeiro self, atman ou purusha (o Si mesmo,
a consciência). Se não se cultiva sattva na mente, nas emoções
e no corpo, não se pode alcançar um elevado estado de iluminação.
O desenvolvimento de sattva se dá pela associação
(sat-sanga) com o puro, o sábio, o justo, o verdadeiro e com pessoas
sattvas, através de uma dieta apropriada, da purificação
corporal, do controle dos sentidos e da mente, de estudos filosóficos
e religiosos, de orações, de repetições de
mantras e/ou kiirtans, da prática de yoga e meditação,
da devoção e do contato com a natureza. A transcendência
de sattva se dá através de constantes e elevadas práticas
de yoga e meditação.
Talvez, o ponto ideal para a manifestação da cura e o desenvolvimento
da espiritualidade seja quando rajas tende para sattva. O aspecto inferior
de rajas é quando essa guna tende a se transformar em tamas.
Dieta Sattva
Os alimentos sáttvicos são os mais abundantes na natureza.
A dieta sáttivica deve ser adotada não apenas por yogues,
mas por todas as pessoas. Cerca de 65% ou mais dos alimentos de uma refeição
devem ser de natureza sáttivica. Tal dieta é composta de
alimentos frescos, naturais e orgânicos, apresentam um efeito puro
e revitalizante; compreende: frutas, verduras, leguminosas (vagens, favas,
feijão, lentilha, ervilha, soja, grão-de-bico), brotos de
feijões, cereais (arroz, milho, centeio, trigo, aveia), grãos
integrais, todos os vegetais que crescem acima do solo (com exceção
os tubérculos), nozes (amêndoas, castanha-do-pará,
castanha de caju), sementes (de girassol, gergelim e linhaça),
leite e derivados, pólen, mel, óleos vegetais, cana-de-açúcar,
leite de vaca e materno, coalhada fresca, soro do leite, manteiga, ghee
(manteiga purificada), leite de soja fresco e uso moderado de ervas e
temperos.
Os alimentos sáttvicos encontram-se relacionados com o sabor doce
(madhura), estimulam a criatividade, a intuição e os elementos
ar (vayu) e espaço (akasha), e favorecem o controle emocional e
mental. Essa dieta é considerada a “Comida dos Deuses”.
Tudo o que contribui para elevar a consciência e promover a saúde
é sattva.
Quando sattva se encontra predominante na natureza humana, experimenta-se
equilíbrio e há uma maior probabilidade de se alcançar
o samádhi (a meta final do Yoga: a iluminação da
consciência). A dieta sáttva confere saúde, boa memória,
atenção, moderação, concentração,
senso de justiça, devoção, honestidade, conhecimento,
serenidade, harmonia, generosidade, pureza, luz, discernimento, razão,
entendimento, inteligência, sabedoria, pensamentos sublimes, insights,
eloquência, compaixão e intuição. O puro sattva
(shuddha sattva) é a mais elevada manifestação desse
guna. É o ponto central (ekagra chitta) da mente de um elevado
yogue. Tanto o Yoga quanto o Ayurveda procuram reduzir
rajas e tamas.
Alimentos Rajásicos
Cerca de 25% dos alimentos de uma refeição devem ser de
natureza rajásica. Compreendem: todos os alimentos estimulantes,
quentes e picantes por natureza: frutas em calda, abacate, tâmaras
secas, goiaba, limão, manga verde, suco engarrafados de frutas
(**), lêvedo de cerveja, berinjela, ervilha seca, rabanete, ruibarbo,
tomate, alimentos fermentados (**), flores comestíveis de sabor
picante, frutose, sorvete (pode tornar-se tamásico em grandes quantidades)
(**), xarope de malte, lentilha seca, azeitonas (pretas e verdes), amendoim,
bebidas a base de cafeína (café, chá, coca-cola),
bebidas alcoólicas (*), chocolate, tubérculos, condimentos
(cebola crua, cebolinha, alho, pimenta, chilly, gengibre, sal, vinagre),
pistache salgado, semente de abóbora, coalhada azeda, iogurte não
fresco, leite de soja engarrafado ou em caixa, kefir (não fresco),
ricota, queijos, cottage, açúcar (refinado, branco ou mascavo)
(**), caldo de cana, melado, rapadura, ovos, cigarro (*), medicamentos
(***) e drogas (*). Encontra-se relacionada com os sabores (rasas): salgado
e picante. Estimulam os sentidos e o elemento fogo (tejas), o que produz
movimento e calor. A sociedade moderna é predominantemente rajásica,
tendendo para tamas.
Rajas induz ao sentimento passional; paixões; atividades; distração;
agitação; instabilidade emocional; inquietude; estresse;
ganância; ambição; apego a ações; sede
de poder, de riqueza, de prestígio, de posição social,
de nome e fama; e desejos por prazeres sensoriais. Tudo o que contribuir
para agitação, instabilidade e paixão é rajas.
Alimentos Tamásicos
São em menor quantidade na natureza, no entanto são mais
produzidos industrialmente pelo homem. Alguns alimentos tamásicos
devem ser consumidos com muita moderação, esporadicamente
e/ou em situações especiais; outros, absolutamente abolidos,
pois esgotam a energia, causam estagnação, embotamento físico
e mental, preguiça e predispõem a diversas doenças.
Os alimentos tamásicos não devem ultrapassar os 10% dos
alimentos de uma refeição. Compreendem: fast food (**);
proteína vegetal texturizada (carne de soja); carnes em geral (**);
carne suína e derivados (*); frutos do mar; frituras (**); gorduras
(*); alimentos congelados, curados (**), fermentados, rançosos
(*), requentados, aquecidos no micro-ondas e processados; sucos congelados
de fruta; leite (homogeneizado, pasteurizado e em pó), sorvete
(em grandes quantidades) (**), margarina (**), fungos e cogumelos de todos
os tipos (champinhom); lêvedo; banana (em grandes quantidades e
à noite); álcool (*); cebola; alho; picles (**); queijos
maturados por fungos (do tipo roque fort e camembert) (**); embutidos
(salsicha, linguiça, salame e mortadela) (**); enlatados (**);
uso de medicamentos (***); cigarro (*) e drogas (*).
Os alimentos tamásicos, relacionam-se aos sentimentos destrutivos
e coléricos, encontram-se relacionados aos sabores amargo e adstringente;
esses estimulam os elementos água (jala) e terra (prithivi), predispondo
à formação de muco (catarro), gordura e aumento de
peso corporal. Tamas induz a atitudes materialistas em relação
à vida. Os alimentos tamásicos ocasionam: inércia;
embotamento; falta de conhecimento; ignorância; estagnação;
letargia; apego; indolência; desleixo; preguiça; incapacidade
de discernir e de julgar corretamente; insensatez; imprevidência;
incapacidade para trabalhar e de mudar o comportamento; e as ações
não são conduzidas pela razão. Tamas é a causa
de todas as misérias humanas. Tudo o que contribui para uma pessoa
se sentir enfraquecida, mal e doente é tamas.
(*) Devem ser abolidos.
(**) Quando utilizá-los, fazê-lo, esporadicamente, com cautela
e moderação.
(***) Somente por prescrição terapêutica.
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