"O grande
equívoco está na falta de percepção
de que cada pessoa enxerga o mundo de acordo com as lentes de
sua história de vida, assim sendo, o mundo enquanto realidade
objetiva é a ilusão que alimenta a maioria dos atos
de desrespeito e agressão" |
- De onde foi que tiramos essa ideia
de que precisamos chegar a um consenso em tudo? Me peguei pensando,
após uma semana na qual, aqui e ali, presenciei várias
discussões absolutamente desnecessárias entre as pessoas.
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Foi como se um filme estivesse sendo exibido bem diante de meus olhos,
repetidas vezes, quase como se alguém sussurrasse:
- Veja isso! Escreva sobre isso!
É incrível a enorme quantidade de energia que as pessoas
desperdiçam em discussões absolutamente supérfluas
onde o que parece estar em jogo é provar ao outro que “eu
sei mais”, “eu sou melhor”, “eu entendo das coisas”.
É uma batalha a favor do ego, com o único intuito de provar
que uma pessoa é melhor do que a outra, ou ainda, de provar que
o outro é pior ou inferior.
É claro que os conflitos são necessários, eu mesma
já escrevi sobre isso, aqui mesmo no Vya Estelar.
Em certas situações, visando o bem do todo, é preciso
que lutemos pelo que acreditamos, para defender algo precioso, para seguir
na direção mais saudável para a maioria. É
saudável que uma mãe enfrente seus filhos que só
querem comer batatinhas fritas, esse é um tipo de conflito guiado
pelo amor. O mesmo eu diria de um pai que impede que seu filho saia dirigindo
se esse ingeriu bebidas alcoólicas. Ou de um funcionário
que enfrenta um colega de trabalho para evitar que uma injustiça
seja feita. Isso não tem nada a ver com provar a si mesmo, com
enaltecer o ego, ganhar status ou melhorar a autoestima à custa
de diminuir o outro.
Mas se vocês prestarem atenção, perceberão
que não é disso que se trata a maioria dos conflitos. No
íntimo de nossos lares, desde muito cedo, as crianças brigam
para decidir quem sentará na poltrona maior, os pais brigam enquanto
dirigem seus carros porque cada um acha que o seu caminho é o melhor,
amigos discutem porque acham injusto o juiz de futebol ter dado aquela
falta naquele momento do jogo.
- Arf... Quanta energia jogada fora!
- Será que essas coisas são assim tão importantes
a ponto de justificar a destruição da harmonia de um momento,
ou de um relacionamento? Para quê? Para provar que "EU"
estou certo e você errado?
O pior é que isso não acontece apenas no contexto dos nossos
lares. Socialmente criamos conflitos e até mesmo guerras porque
queremos que todos aceitem nosso Deus, obedeçam nossas ordens,
concordem com nossas ideias, como se existisse algo como a “verdade
única”.
O grande equívoco está na falta de percepção
de que cada pessoa enxerga o mundo de acordo com as lentes de sua história
de vida, assim sendo, o mundo enquanto realidade objetiva é a ilusão
que alimenta a maioria dos atos de desrespeito e agressão.
Se pudéssemos compreender que é possível discordarmos
em harmonia, se compreendêssemos a sabedoria que existe em permitir
a diferença, sem classificá-la como uma ameaça, a
paz nos abraçaria na maior parte dos momentos de nossa vida. A
diferença torna nosso mundo maior, mais amplo, mais rico. Por que
temos que concordar em tudo? Isso nos torna muito menos do que podemos
ser. Por que não podemos aceitar que o outro pense diferente de
nós? Por que não podemos concordar em fazer um caminho diferente?
Em comer algo diferente? Em visitar um lugar diferente? Por que não
podemos aprender também a ceder?
- De vez em quando eu faço do seu jeito, de vez em quando você
faz do meu, e celebramos juntos o nosso vínculo de respeito e crescimento
mútuo - me parece tão mais simples e respeitoso agir assim.
O grande desafio, a meu ver, é aprendermos a identificar as “batalhas
do bem”, as batalhas lícitas, pelo bem maior, as batalhas
que valem a pena ser travadas. E aí sim, vale lutarmos com todas
as forças, sabendo que o bem maior virá junto com a nossa
vitória, e que a nossa vitória será a vitória
de todos.
Precisamos nos abster de entrar em batalhas absurdas cuja única
intenção é tornar nosso ego um pouco mais brilhante.
Não temos que, como Dom Quixote, lutar contra qualquer moinho de
vento. É preciso que reservemos nossas forças para lutar
contra os dragões reais da separatividade que nos dizem que uma
pessoa possa ser feliz à custa da dor ou prejuízo alheio.
A alma, sábia que é, nunca entraria em uma batalha desse
tipo. As batalhas da alma são aquelas em que não há
perdedores e vencedores. Nas batalhas da alma todos ganham.
Pense nisso na próxima vez em que for lutar por algo e pergunte-se:
- Quem em mim quer lutar? A alma ou o ego? - e escolha, conscientemente,
para quem você irá entregar suas armas.
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