Coluna Reflexões - Reflexão e entretenimento sobre o cotidiano

A real noção de flexibilidade

Por Angelina Garcia

A conversa era amena. Atravessavam um bairro nobre, quando uma delas tocou no assunto sobre uma nova linha de ônibus que passaria por ali.

- Os moradores estão indignados. Dizem que aqui não é lugar de ônibus.
- Eu sei. Conheço uma senhora que está sofrendo muito com a situação.
- Sofrendo? Rico sofre com cada coisa!
Claro que sofre, e na mesma medida em que o pobre por outra.

O motivo do sofrimento da senhora pode nos parecer mesmo banal. - Que egoísmo, diríamos. Ela não pensa na pobre empregada que levanta de madrugada para tomar dois ônibus, atravessar uma cidade tão grande e, ainda, fazer o resto do trajeto a pé? Nem no trabalhador que cortaria caminho depois de um dia extenuante carregando tijolos?

Não pensa, porque o pavor chega antes, pois ficará mais exposta a rostos desconhecidos; será perturbada no seu sono matinal, ou no cochilo da tarde. Não só perderá o que considerava viver em paz, mas o controle sobre esta paz. Tantos anos ali e daquele jeito, nem saberia viver em outro lugar.

O que nos incomoda ou nos causa dor parece sempre justificável pelas condições aparentes em que ocorre. Se gastei tudo que me restava na compra de ovos e eles se espatifam no chão a caminho de casa, o incômodo será mais perturbador que se puder voltar ao supermercado e pegar outros. A orfandade de filho único pode ter um peso maior para este do que para aquele que acompanha o enterro dos pais de braços com os irmãos. Entretanto, em nenhum dos casos posso afirmar que o incômodo, ou a dor, é maior ou menor.

É freqüente associarmos o direito ao sofrimento à pobreza, como se aquilo que vemos fosse suficiente para nos revelar o que o outro sente; como se a dor estivesse estampada na capa de que se serve, ou se pudesse ficar para trás numa viagem ao país dos sonhos. Não é bem assim. As expectativas diferem de pessoa para pessoa de acordo com sua necessidade; por isso nossas frustrações também não ocorrem pelos mesmos motivos. Muitas vezes nem conseguimos identificar o que as mobilizou. O nosso sofrimento só parece maior que o dos outros, porque só nós sabemos justificá-lo, quando sabemos. Como reconhecer, então, a necessidade da senhora do bairro nobre?

A noção de flexibilidade deve ser repensada não só por ela que se sentira tão incomodada com a nova linha de ônibus, mas por todos nós que a vimos como insensível. Não dispomos de todas as condições que cercam um incômodo ou uma dor. Compreender que não podemos ocupar o lugar do outro para saber o que ele sente, como sente, quanto sente, pode nos tornar mais flexíveis em nossos julgamentos e capazes de acolher a dor do outro, seja ela qual for.

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Angelina Garcia é professora de português e Mestre em Artes Cênicas
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