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Pais deixam filho se drogar em casa por que acham mais 'seguro'
por Danilo Baltieri

Comportamentos que a família deve evitar ao lidar com o dependente químico - clique aqui

Meu namorado sempre volta ao vício. Sei que brigar não é a solução, mas também não posso aceitar que essa situação se estenda. Ele não se droga na rua, mas em casa com o conhecimento dos pais

Resposta: Indivíduos dependentes de substâncias psicoativas devem ter em mente que, apesar de algum tempo vivido de abstinência, o risco de voltar a consumir a substância da mesma forma que na época anterior à cessação do uso, é alto. Basta voltar a “re-experimentar”. Tecnicamente, chamamos isso de “reinstalação” do quadro.

Os pais que permitem ao filho usar dentro de casa, porque “é mais seguro do que usar na rua” devem estar cientes de que esta postura apenas reforçará o comportamento relacionado ao consumo, mantendo e recrudescendo o quadro. Extrema condescendência e extremo autoritarismo devem ser sempre evitados.
Os pais precisam de orientação. Na grande parte das vezes, eles conhecem os problemas advindos do uso inadequado das drogas, mas não conhecem as formas mais adequadas para lidar com o problema. Muitas vezes, são os próprios pais que “financiam” o consumo de drogas pelos filhos, fornecendo dinheiro e outros recursos, que são utilizados pelos mesmos usuários para a obtenção das substâncias.

Muitos membros familiares do dependente comportam-se de uma determinada maneira que, direta ou indiretamente, apóiam, facilitam ou perpetuam o uso inadequado de substâncias pelos filhos. Membros familiares que consciente ou inconscientemente recusam-se a confrontar ou, até mesmo, reconhecer o problema da dependência química, apenas aumentarão os problemas futuros. Alguns desses comportamentos indesejáveis dos familiares são apontados abaixo:

a) Minimização – os familiares ignoram, racionalizam ou tentam explicar o uso de drogas, atribuindo-o a uma fase passageira, já que “muitas pessoas usam drogas hoje em dia”, ou “ele (o usuário) está passando por uma fase difícil e a droga lhe dá algum alívio”, ou “ele teve uma vida difícil, com vários traumas. Ele precisa melhorar de vida antes de conseguir parar de usar drogas”;

b) Controle – tentar controlar ou manipular o uso de drogas pelo dependente; fazer barganhas com o usuário. Por exemplo, propor ao usuário “consumir apenas um baseado por dia”, ou “usar somente à noite, antes de dormir”, ou propondo “usar aos finais de semana apenas”;

c) Proteção inadequada – tentar proteger o usuário das conseqüências negativas do uso. Por exemplo, desculpando o usuário, negando a responsabilidade do mesmo pelos seus próprios atos;

d) Assumir responsabilidades do usuário – pagar contas do usuário; desempenhar as tarefas domésticas atribuídas ao membro familiar dependente, sem cobrá-lo; defendendo-o de problemas externos e assumindo a responsabilidade por eles;

e) Conluio – ajudar o usuário a obter as drogas, já que “ele sente falta e pode passar muito mal sem elas ou ficar violento sem o uso delas”.

Alguns familiares acabam por organizar suas vidas ao redor do dependente, tentando controlar ou manejar os comportamentos e problemas do usuário. Outras vezes, os familiares tentam esconder o problema de outros membros da família que moram na mesma casa. O segredo não deve ser mantido. O problema deve ser encarado e confrontado de forma clara, transparente e objetiva.

Não há qualquer problema em querer ajudar um membro da família ou amigo em dificuldades, enfrentando as mais variadas situações adversas. O comportamento de ajuda deve ser constantemente estimulado, tendo em vista a sociedade individualista em que nós vivemos. No entanto, “ajudar” requer SABER como “ajudar”. A pessoa que insiste em “ajudar” através de formas erradas, acaba por afetar negativamente tanto o usuário quanto ela própria engajando-se ambos em um processo devastadoramente patológico.

Sempre reitero: a família do dependente precisa também estar inserida no tratamento.

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Atenção!
As respostas do profissional desta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um profissional de psiquiatria e não se caracterizam como sendo um atendimento

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Danilo Baltieri
Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas
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