| "O castigo é inevitável,
pois é moralmente impossível que as crianças
não cometam alguma falta que o requeira: "Sem castigo
não há educação possível",
afirma um dos mais célebres pedagogos da nossa época,
Foerster. Mas ao castigar é necessário evitar sempre
a violência corporal" |
Frequentemente pais me perguntam sobre a conveniência
e o acerto de se usar castigos corporais com seus filhos e quais os
tipos de castigos adequados, se é que eles existem. Segundo
um importante relatório do Laboratório de Investigações
Familiares da Universidade de Hampshire (EUA), os castigos corporais
às crianças poderão causar-lhes problemas sexuais
na adolescência e na idade adulta. |
| A análise de quatro relatórios
sobre castigos corporais de pais a filhos revelou uma vinculação
entre sofrer castigos corporais e o surgimento, na adolescência
ou na idade madura, de três problemas sexuais: violência
física nas relações sexuais, sexo sem preservativo
e sexo masoquista. Esses resultados, juntamente com mais de 100 outros
estudos, sugerem que o castigo corporal origina relações
sexuais violentas e problemas de saúde mental. |
Os investigadores afirmam que a prevenção da relação
sexual violenta é fundamental e dizem que os problemas de saúde
mental e a violência nas relações sexuais podem ser
prevenidos através de uma recomendação de que nunca
se aplique castigos corporais às crianças.
A educação é de uma importância transcendental
e de grande responsabilidade para os pais. Há no mundo muitos homens
que se lamentam de desgraças devidas a faltas e descuidos dos seus
pais. Em educação, como em tudo na vida, recolhe-se aquilo
se semeou. É necessário inculcar nas crianças –
gradualmente, à medida que elas vão sendo capazes de assimilar
– a limpeza, a ordem, a obediência, o sacrifício, a
lealdade, o espírito de serviço, a honradez, o saber renunciar,
etc. E habituá-los a portarem-se bem em todos os lugares, a praticarem
o bem embora seja penoso, a fugirem do mal ainda que seja sedutor, espontaneamente
e por iniciativa própria, mesmo que ninguém vigie nem castigue.
Quando forem mais velhos, será muito difícil que adquiram
virtudes que não foram semeadas neles quando eram pequenos. As
crianças, para seu bom desenvolvimento, precisam de carícias
desde a primeira hora. Fizeram-se estudos e verificou-se que crianças
atendidas perfeitamente nas suas necessidades vitais, em centros especializados,
mas com falta de carinho, mostraram anormalidades características.
Crianças mimadas
A alegação de que é preciso evitar que as crianças
sejam mimadas é correta. A criança mimada torna-se caprichosa
e pouco sociável. Isso virá lhe trazer problemas de aceitação
entre os companheiros na escola, e irá dificultar a sua maturidade
psicológica. Está comprovado que a criança que é
bem aceita pelos companheiros, pelas suas qualidades pessoais, tem uma
grande percentagem de probabilidade de um bom amadurecimento psicológico
no futuro. Os filhos não devem ser mimados, mas também não
os devemos castigar sem razão.
Castigo é inevitável
O castigo é inevitável, pois é moralmente impossível
que as crianças não cometam alguma falta que o requeira:
"Sem castigo não há educação possível",
afirma um dos mais célebres pedagogos da nossa época, Foerster.
Mas ao castigar é necessário evitar sempre a violência
corporal. Outras formas de castigo são mais educativas e eficazes.
E devem ser sempre:
a) Oportunas: escolhendo o momento mais propício
para ser imposto, depois de passada a ira em pais e filhos.
b) Justas: sem exceder os limites do que é razoável.
c) Prudentes: sem nos deixarmos levar pela ira.
d) Carinhosas na forma: para que a criança compreenda
que o castigo lhe é dado para seu bem. Não somos eficazmente
castigados senão por aqueles que nos amam e a quem nós amamos.
O castigo corporal gera revolta, rancor, diminuição do sentimento
de honra. Nas meninas, o castigo corporal debilita o sentimento da intocabilidade
corporal, tão precioso para o recato da sua vida futura. Mais eficazes
do que o castigo corporal são atitudes como pôr a criança
para comer sozinha numa mesinha, virada para a parede, ou privá-la
de uma manifestação de carinho habitual, ou de um doce que
lhe agrade, ou do dinheiro que se lhe costuma dar. Depende de idades e
de circunstâncias.
O castigo deve facilitar à criança o caminho da honradez,
da obediência, da aplicação, etc., para fazer dela
um homem moral. O castigo, mais do que para pagar pela falta
cometida, deve servir para a correção. Para que assim seja,
não é necessário que a criança reconheça
a falta e a justiça do castigo. O castigo tem muito mais valor
quando a criança o aceita voluntariamente, ou quando é ela
mesma quem o impõe. Depois de aplicado o castigo, se deve fazer
as pazes com a criança logo que possível. É preciso
ter tato para corrigir com eficácia. Pouco se consegue com apenas
ferir e humilhar. É preciso animar. Despertar o sentido da própria
estima.
Uma correção eficaz deve deixar sempre aberta uma porta
à esperança de superação. A autoestima é
fundamental para a saúde mental e devemos proteger ao máximo
a criança das lesões na mesma. É preciso ter cuidado
para que o castigo não corresponda ao nosso mau humor, mas sim
à gravidade da falta e à responsabilidade da criança.
Depois de a criança ter reconhecido a culpa, e de o castigo ter
sido aceito, é muito pedagógico diminuir esse com a promessa
de emenda.
Em meu próximo artigo, voltarei a tratar desta questão.
Vamos tratar do problema examinando o ponto de vista das autoridades e
governos pelo mundo todo.
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