| "Precisamos
ser capazes de conviver com o sofrimento e com todas as dificuldades
de nossa vida sem perder o rumo da felicidade" |
A maior
parte dos problemas emocionais que embaraçam a vida das pessoas
se origina de princípios e conceitos mal compreendidos ou mal
ensinados. Por exemplo, quantas vezes as pessoas brigam umas com as
outras por se sentirem ofendidas por gestos ou palavras. |
Provavelmente
a idéia sobre o que seja ofensivo está mal aplicada, na
maioria dos casos.
Presenciei,
certa vez, um motorista de táxi, em Portugal, ficar transtornado
de raiva por ter sido chamado de "urso" por um colega. Como
eu não sabia qual era o significado que eles davam à palavra
urso, pude me dar conta de como era ridículo alguém se ofender
por tão pouco. Na verdade ser insultado é apenas uma convenção.
Quando eu era criança, o desafio para uma briga vinha através
de pisar no chão cuspido pelo adversário.
Isso nos leva a pensar sobre o que vem de fato a ser a honra e a dignidade
pelas quais muitos estão dispostos a matar e a morrer. Nossos valores
estão baseados em crenças que desenvolvemos desde a infância.
E não são somente crenças religiosas, mas culturais.
Somos ensinados a acreditar que determinadas coisas são certas
e belas e outras erradas e feias. Ao nos tornarmos adultos devemos revisar
nossas crenças éticas, morais e estéticas e determinar,
pelo raciocínio, quais os valores que nos são realmente
importantes.
Certezas absolutas e verdades inabaláveis fazem parte do repertório
das mentes infantis e juvenis. As lições de vida costumam
ser oferecidas às crianças de uma forma muito autoritária
e radical. Pais e educadores formulam conceitos prontos, idéias
preconcebidas e os apresentam aos jovens como sendo verdades absolutas
e inquestionáveis. Na puberdade, em um movimento natural e espontâneo,
os adolescentes começam a desenvolver uma saudável desconfiança
sobre o que lhes foi dito e o que aprenderam ao longo dos primeiros anos
de vida. Questionam e tentam refutar os conceitos que lhes são
apresentados e iniciam um processo de revisão de conhecimentos
e de códigos, éticos e estéticos.
É lamentável que na maioria das pessoas este processo de
questionamento e revisão perca o fôlego na medida em que
os jovens vão se tornando adultos e novas preocupações
invadem suas vidas. No começo da idade adulta vai ocorrendo um
processo de cristalização de conhecimentos e conceitos.
Tal processo ajuda as pessoas a solidificarem seus pensamentos o que nessa
fase da vida contribui para um melhor posicionamento frente às
novas dificuldades existenciais que se apresentam. É desejável
que, indo em direção à maturidade e à sabedoria,
cada um de nós recupere a capacidade de mudar de opinião
e aprender com as novas experiências.
Ofereço a seguir algumas idéias sobre o questionamento de
valores. Esta primeira diz respeito à seguinte fábula recebida
através da Internet
Fábula
Um cientista colocou quatro macacos numa jaula onde havia uma escada com
um cacho de bananas no topo. Quando um macaco subia a escada para apanhar
as bananas, um mecanismo dava choques elétricos nos que estavam
no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada
os outros o impediam com pancadas. Passado algum tempo, nenhum macaco
subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então,
o cientista substituiu um dos macacos. A primeira coisa que ele fez foi
subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram.
Depois de apanhar, o novo integrante do grupo desistiu de pegar as bananas.
Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro
substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Finalmente,
um terceiro e o último foram trocados, repetindo-se os fatos. Sobrou,
então, um grupo de macacos que, embora nunca tivesse tomado choque
elétrico, continuava batendo em quem tentasse pegar as bananas.
Se fosse possível perguntar a eles porque espancavam quem subia
a escada, a resposta seria: "Não sei, foi assim que eu aprendi
que devia se fazer". Vale a pena refletir sobre quantas vezes na
vida nos comportamos como os macacos desta fábula, repetindo comportamentos
ensinados sem saber a razão deles.
Meu filho de quatro anos recebeu a visita de um amiguinho, acompanhado
da mãe. Enquanto eles brincavam, a mãe do amiguinho tentava
tomar conta dos dois e se afligia com as travessuras dos meninos. Num
determinado momento eles começaram a experimentar subir dois degraus
de uma escada e pular. Depois de eles terem repetido várias vezes
a proeza, ela não se agüentou e reclamou: "Vocês
vão acabar se machucando!". Meu filho olhou-a espantado e
comentou com o colega: "Como é que ela quer que a gente não
se machuque?" Acho que essa realista observação de
uma criança, na ingenuidade de seus quatro anos, situa com aguda
precisão o problema de como se vive a vida.
Como viver sem se machucar? Para evitar dores e ferimentos somente renunciando
à emocionante aventura da vida. Quantas e quantas vezes vemos pessoas
se acovardando e fugindo de enfrentar seus desafios pelo medo do sofrimento?
Quantas vezes cada um de nós se esquivou de correr um risco em
busca de algo mais para ser feliz simplesmente por estar assustado com
a possibilidade de fracassar e por não se sentir capaz de suportar
a agonia do insucesso? Fico contente ao ver que meu filho compreende que
em todos os momentos da vida, nas brincadeiras e travessuras também,
existe a probabilidade de um acidente e que isto nos ensina a ter cuidado,
mas não deve nos paralisar.
Sentimento
de culpa X condição de culpado
Quero assinalar a diferença existente entre o sentimento de culpa
e a condição de ser culpado. Sentir-se culpado é
um fenômeno freqüente, comum em nossa cultura. Qualquer pessoa
pode ter sentimentos de culpa por tudo o que faz e pelo que deixa de fazer
também. Esses sentimentos se originam de um elemento cultural que
cresceu em nossa Civilização através do Cristianismo,
a partir do Judaísmo. Costumamos chamar nossa Civilização
de Judaico-Cristã Ocidental porque o elemento religioso é
uma de suas determinantes fundamentais. Herdamos uma religião que
supervaloriza o pecado e acredita em sua implacável punição
vinda do julgamento de um Deus severo. O conceito de pecado, na maioria
das outras religiões, é vago e encarado de forma leve.
Nossa Civilização está imersa em um sentimento de
culpabilidade relacionado com a crença de que somos responsáveis
por nós mesmos como se fôssemos autores de nós e não
meras criaturas. Tal sentimento é estimulado pela influência
da religião e também por uma idéia arrogante a respeito
do nosso poder sobre quem somos e como nos formamos. Na verdade nós
não nos escolhemos, apenas existimos e devemos tentar ser o melhor
que pudermos. Por outro lado, culpa é um conceito bem mais definido,
relacionado com nossa responsabilidade social e legal sobre quem somos
e o que fazemos.
Muitas pessoas gostam de nos dar palpites a respeito de nós, de
nosso comportamento. Existem duas formas radicais de nos posicionarmos
em relação às opiniões alheias sobre nós.
Uma é descartá-las como pouco importantes; outra é
se deixar oprimir por elas, segui-las e obedecer ao que os outros acham
sobre o que somos ou sobre o que fazemos. Ambas alternativas pecam pelo
extremismo. Podemos encontrar uma forma de nos relacionar com a visão
que os outros têm de nós sem nos deixarmos reprimir e tampouco
sem desprezarmos a contribuição que nos esteja sendo oferecida.
A opinião alheia serve como uma referência que nos permite
saber como estamos sendo percebidos, da mesma forma que um espelho nos
ensina como é a imagem que as pessoas têm de nós.
Quando ouvimos com atenção, com isenção e
sem preconceitos o que as pessoas têm a dizer sobre nós,
aprendemos coisas que ainda não sabemos e recebemos preciosas informações
sobre como nos mostramos para o mundo. Comparar diversas opiniões
nos ajuda a não ficarmos presos apenas a uma visão particular
que pode estar destorcida, e nos permite chegar a ter um conjunto de observações
que podem nos guiar em um processo de auto-aprimoramento. Outro elemento
fundamental para o bom uso das observações alheias consiste
em avaliar cuidadosamente a qualidade das opiniões e a confiabilidade
de quem as formula.
Precisamos ser capazes de conviver com o sofrimento e com todas as dificuldades
de nossa vida sem perder o rumo da felicidade. Ser feliz é conseqüência
da possibilidade de se superar os padecimentos e os fracassos e manter
o coração intacto. A felicidade depende de nossa capacidade
de suportar o infortúnio e manter a fé na vida e na natureza,
sem nos deixarmos abalar por dificuldades pessoais.
Aqui vai uma reflexão e uma receita para nos ajudar a melhor viver.
Conseguimos o máximo de relaxamento para nossos olhos quando os
focalizamos em paisagens distantes, principalmente as mais ligadas à
natureza. Quando os olhos estão relaxados, a gente começa
também a se relaxar. Este fato pode nos estimular a aprender a
olhar para nossos problemas como se eles estivessem distantes. Assim,
podemos apreciá-los em sua totalidade, ver a relação
que têm com outros aspectos da vida e, ficando com uma perspectiva
suficientemente afastada, eles nos afetarão com menor intensidade.
Para sermos felizes convém nos despreocuparmos com a própria
felicidade, amar os outros e nos dedicarmos a ajudá-los a serem
felizes. Ser feliz com a felicidade dos outros é mais fácil
- as pequenas coisas que os incomodam são vistas por nós
dentro de uma perspectiva mais realista e adequada.
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