"O reconhecimento das emoções
positivas e negativas nos relatos dos idosos funciona como forma de
prevenção de riscos de depressão. Portanto, as
narrativas são instrumentos valiosos para revelar importantes
aspectos do mundo social e psicológico dos indivíduos" |
Pesquisas sobre análise de narrativas podem
revelar importantes aspectos do mundo social e psicológico
dos indivíduos. Estudos qualitativos do discurso de pessoas
idosas mostram que eles podem manter bom desempenho verbal e de memória
mesmo na presença de alterações. |
Exemplos dessas alterações são:
- Velocidade da fala e de seu tempo de reação;
- Alterações em processos sensoriais e em déficits
na produção e compreensão de narrativas, associadas
ao avanço da idade, ao nível educacional, a déficits
em algumas funções mentais e a fatores ambientais.
No entanto, esse desempenho verbal e de memória depende da manutenção
de estímulos de suas habilidades e da utilização
de estratégias sóciocognitivas de compensação
para adequar a linguagem e o discurso ao contexto de produção
- à sua circunstância.
A linguagem é importante indicador de adaptação dos
idosos, tanto em termos cognitivos quanto psicossociais. Analisar a linguagem
dá pistas para a compreensão dos fenômenos do envelhecimento
normal e patológico em idosos que vivem em ambientes ricos e empobrecidos,
que mantêm a motivação e a atividade ou que as perderam
por motivo de debilidade física ou psicológica e por falta
de apoio social. As narrativas dos idosos permitem identificar como as
pessoas usam as palavras para descrever seus pensamentos, situações,
eventos e sentimentos. O contexto narrativo revela importantes informações
sobre o agir, o pensar e o sentir e sobre o grau de adaptação
psicológica dos indivíduos.
Com o envelhecimento, normalmente ocorrem mudanças nas funções
linguísticas do nível semântico-lexical (relacionada
ao vocabulário) caracterizadas pelas dificuldades em lembrar palavras
na conversação, em nomear os objetos e em fluência
verbal. Porém, muitos idosos podem manter preservadas as suas habilidades
linguísticas, mantendo bom desempenho verbal por estimulação
proveniente do ambiente.
Os idosos podem apresentar alto grau de especialização cognitiva,
derivada da influência da cultura, que lhes permite superar as limitações
biológicas dependentes da idade, bem como compensar déficits
educacionais e desestruturações ambientais. Alguns fatores
demográficos são identificados como preditivos da manutenção
do funcionamento cognitivo. Entre eles, incluem-se alto nível de
escolaridade e de renda, altos índices de satisfação
pessoal e existência de maior rede de vínculos sociais.
Uma narrativa ou um relato coerente é uma tarefa cognitiva complexa
que requer uma boa organização e planejamento da linguagem
que incluem a ordem das palavras, a ordem das sentenças, o uso
de artigos e pronomes, as conjunções, a concordância
e a conjugação de tempos verbais. Esses elementos constituem
o mecanismo de coesão do discurso oral, para que o relato tenha
relevância com o tema proposto.
Pesquisas que compararam narrativas de idosos e jovens sugerem que há
diferenças na ênfase das narrativas, demonstrando que os
jovens preferem relatar fatos e ações objetivas, ao passo
que os idosos encadeiam os fatos de forma subjetiva, expressam mais sentimentos,
emoções e julgamentos afetivos em seus relatos e fazem mais
uso das informações da memória episódica (memória
para fatos vivenciados no passado).
Não só as mudanças das funções cognitivas
como também as do estado afetivo em idosos podem refletir-se na
recuperação das informações de natureza objetiva
e subjetiva que possam relatar em seus discursos orais. A afetividade
tem papel fundamental nos processos de memória que formam a base
do conhecimento.
Os relatos e interpretações subjetivas dependem de fatores
contextuais, de motivações pessoais, de interesses e de
eventos sociais que determinarão quais significados devem receber
mais atenção. Os estados afetivos e motivacionais modulam
a intencionalidade dos relatos pessoais. Podem influenciar a maneira como
os processos emocionais dificultam ou facilitam a recuperação
dos eventos passados para uso na sua vida atual.
Por exemplo, três pesquisadores americanos Atchley, Ilardi e Enloe
(2003), investigaram o conteúdo emocional contido nas emissões
verbais de pessoas com depressão. Os autores verificaram maior
número de conteúdos de julgamentos afetivos negativos nos
participantes deprimidos do que nos *indivíduos-controle. Os julgamentos
afetivos negativos foram demonstrados pelo uso de adjetivos. Concluíram
que a sensibilidade ocasiona diferenças na organização
semântica (organização de palavras) de indivíduos
que têm diferentes experiências afetivas.
Como o conteúdo do discurso é profundamente afetado pela
emoção, pelos desejos e pelo afeto, os relatos pessoais
nos permitem avaliar o bem-estar subjetivo dos idosos. As emoções
denominadas “afetos positivos” ou “bem-estar emocional”
constituem fatores preditivos da independência funcional e da manutenção
da função cognitiva em idosos.
O reconhecimento das emoções positivas e negativas nos relatos
dos idosos funciona como forma de prevenção de riscos de
depressão. Portanto, as narrativas são instrumentos valiosos
para revelar importantes aspectos do mundo social e psicológico
dos indivíduos.
A mesma coisa acontece na identificação de sintomas de falhas
de memória e de linguagem em pessoas que podem estar desenvolvendo
uma demência. A experiência de vida, as práticas sociais,
os conhecimentos gerais e específicos sobre as condições
de vida, as estratégias de julgamento e aconselhamento, a capacidade
de relatar fatos históricos, o desempenho em tarefas e metas evolutivas,
o uso de estratégias socioculturalmente estabelecidas ao longo
da vida do sujeito narradas de forma espontânea auxilia os familiares
e profissionais a identificar como está o desempenho da memória
e de outras funções mentais.
Uma abordagem psicossocial da velhice e numa abordagem enunciativa e sociocognitiva
da linguagem nos ajudam a compreender o discurso como uma forma de ação
social, uma prática situada em um contexto histórico-social,
em que as normas que regem a vida em sociedade, a utilização
da linguagem estão inseridas.
*Indivíduos-controle: grupo de indivíduos saudáveis
para comparação
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