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todo local é local de trabalho; eles não se encontram
apenas nos limites do horário de trabalho, porque todo horário
é horário de trabalho. E trabalho, que na origem da
palavra – tripalium – era um instrumento de tortura,
tornou-se prazer? Ou ficamos torturados todo o tempo, em todo lugar?"
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Insatisfações com o trabalho
são questões comuns no consultório de filosofia
clínica. |
De imediato podemos imaginar tratar-se de
alguém que não conseguiu a colocação desejada
no mercado de trabalho, ou que não atingiu as metas traçadas.
Casos assim surgem, mas não é deles que desejo tratar aqui.
Quero abordar casos de pessoas “bem-sucedidas” em seus objetivos
iniciais, que alcançaram exatamente aquilo que planejaram ou até
mais, porém, encontram-se totalmente insatisfeitas com a vida que
levam, sem ver sentido em seu existir.
Diante da pergunta sobre o sentido da existência, poderíamos
traçar inúmeras respostas – algumas contraditórias
entre si, outras coincidentes – mas não temos uma resposta
única à questão. Poderíamos afirmar que temos
um número de respostas equivalente ao número de seres existentes
no universo, em outras palavras, cada qual traça para si o sentido
de seu existir, seja ele atribuído a um ser absoluto, seja ele
atribuído a um determinismo natural, seja ele fruto das determinações
sociais, seja ele construído singularmente no decorrer da própria
existência.
Mas a pergunta é considerada “impertinente” quando
trazida às questões cotidianas: “De que você
está reclamando? Você está de ‘barriga cheia’!
Tem seu trabalho, seu sustento, trabalha numa excelente empresa, tem seus
bens, pode oferecer conforto à sua família...”. São
muitos os motivos apontados para considerar a questão “impertinente”,
afinal, o sentido da vida é este: nascer, crescer, trabalhar, constituir
patrimônio, procriar, morrer. Será?
“Tudo tem seu preço”, dizem alguns. Para conquistarmos
um grau de empregabilidade, adquirirmos segurança, constituirmos
um patrimônio, é preciso abrir mão de uma série
de coisas, é preciso “deixar de viver” uma série
de coisas, é preciso abdicar, por vezes, da própria existência
e das coisas que amamos. O prêmio para isso? O patrimônio
constituído! E o que faremos com tal patrimônio? Você
já se questionou sobre o sentido do patrimônio? Sobre o sentido
de seu trabalho? Sobre o sentido de sua vida cotidiana? Quantas coisas
fazemos diariamente que, se analisadas com um pouco mais de profundidade,
deixaríamos de lado? Você consegue fazer uma lista delas?
Mas nossa educação, há tempo, pauta seus processos
em preparar o educando para o mundo do trabalho, em formar para o mercado
de trabalho, ensinando os elementos fundamentais para o ingresso e a permanência,
e em alguns casos até mesmo para o sucesso dentro do mercado e
de seus padrões instituídos.
Mas em que consiste o mercado? Que padrões são esses?
Boltanski e Chiapello, no livro “O novo espírito do capitalismo”,
mostram como o capitalismo absorveu as críticas das décadas
de 60 e 70, incorporando à sua estrutura as reivindicações
do movimento de 68, sem perder o que lhe é característico,
ou seja, os mecanismos de exclusão. Com base nos manuais de management
os autores demonstram a formação de um “capitalismo
em rede”, de um “capitalismo conexionista”.
O mundo do trabalho, antes pautado na rigidez; no respeito e na valorização
da hierarquia; na forte burocracia; nos padrões fixos e repetitivos
das atividades e dos modos de administração; no papel de
administradores centralizadores, frios, calculistas que mandam, ordenam,
passa, no capitalismo conexionista a ser fundamentado na flexibilidade,
na autonomia, na liberdade e na criatividade. Ao invés de acumular,
de centralizar, o administrador desloca-se mais; ao invés de mandar,
motiva; ao invés de ser frio e calculista, é um visionário
humanista. Em outras palavras, os autores apresentam um modelo de capitalismo
enxuto, leve, com máximo de informações, móvel,
com conexões úteis e capacidade de inventar sempre projetos
interessantes.
As empresas que constituem este mercado, ainda segundo os autores, são
magras, formadas por equipes multidisciplinares que trabalham por projetos,
autônomas, sem uma escala hierárquica tradicional. As equipes
são auto-organizadas e o trabalho ocorre em rede. A função
do líder é catalisar e animar a equipe, inspirar confiança,
comunicar-se com todos, ser intuitivo e criativo: é o homem da
rede, que tem mobilidade para atravessar fronteiras. Como não há
um controle rígido, tudo gira em torno do prazer e da satisfação
do cliente, e ao trabalhador é necessário um autocontrole.
O perfil do administrador de empresas é de um ser afetivo, amigável,
uma pessoa! Ele deve saber escutar, ser presente, trocar... está
sempre a serviço do bem comum. É o conector, o animador
das redes de conexão.
Todas as diferenças são deixadas de lado em prol de um projeto,
e a vida é uma sucessão de projetos. Mais do que o capital
econômico, o capital social, o capital humano, o capital de informação
é que tem valor.
Tudo parece tão bonito, tão humanista, tão digno...
Por que as pessoas não se satisfazem com um mundo do trabalho constituído
de modo tão admirável? O que se dá na prática?
Não é preciso ir muito longe, basta olhar para o que se
dá à nossa volta. Pensemos na famosa flexibilidade de horários.
Você não precisa cumprir oito horas no seu trabalho, precisa
ficar lá o tempo suficiente para atender à demanda. Quanto
tempo, de fato, você fica? Quanto tempo de seu dia é dedicado
ao trabalho? Não há mais distinção entre trabalho,
casa, diversão, estudo, é o ócio criativo proposto
por Domenico de Masi. O que aconteceu com isso, de fato?
Você ingressa em um trabalho e recebe um celular, computador ou
tablet da empresa. E agora você precisa estar conectado à
empresa e aos clientes 24 horas por dia. Mas não há quem
lhe obrigue a fazer isso. Contudo, se você não fizer, perderá
a eficiência no atendimento ao cliente, e consequentemente, não
perderá apenas o emprego, mas sua capacidade de empregabilidade.
Está externalizado o custo de manutenção de um espaço,
pois a empresa economiza enquanto você trabalha em casa, mas estará
externalizado também o controle. Ele é seu, é um
autocontrole. É possível insubordinar-se contra si mesmo?
Observe como a responsabilidade pelo controle “deixa de ser”
do empregador e passa a ser do empregado, que precisa cuidar não
apenas da manutenção de seu emprego, mas da manutenção
de sua capacidade de empregar-se futuramente, de situar-se no mercado.
Isso traz implicações fortes na vida cotidiana. Tornamo-nos
cada vez mais workaholics. O que antes era um problema, o vício
em trabalhar, agora é uma qualidade. Quanto mais workaholic for,
maior seu grau de empregabilidade. Trata-se de vício, prazer ou
obrigação? O que você pensa a respeito?
Outra implicação: não vamos mais a festas ou a encontros
com amigos, fazemos network. Como ficam nossas relações?
Atendo pessoas que abdicam de sua espontaneidade em festas porque isso
poderá prejudicar sua imagem profissional. Outras ficam inseguras
ao contar algo de si para os amigos, com receio de suas confidências
pessoais gerarem uma imagem negativa no mercado.
Sutilmente, há toda uma articulação para que nos
sintamos livres, criativos, inventivos, em relações amigáveis,
prazerosas, mas a obrigação, a cobrança e o controle
são cada vez maiores. Agora eles não permanecem apenas nos
limites do local de trabalho, porque todo local é local de trabalho;
eles não se encontram apenas nos limites do horário de trabalho,
porque todo horário é horário de trabalho. E trabalho,
que na origem da palavra – tripalium –era um instrumento de
tortura, tornou-se prazer? Ou ficamos torturados todo o tempo, em todo
lugar?
Mais do que isso, qual o sentido do que fazemos ao trabalhar? Atendo pessoas
que trabalham com bens intangíveis, com mercado financeiro. Ao
mesmo tempo em que elas observam as movimentações econômicas
se perguntam: a que ou a quem isto serve? Qual a lógica da especulação?
São estas algumas das questões que geram insatisfação
a pessoas muito bem “sucedidas” no mercado de trabalho, e
que podem nos fazer pensar...
Estará correto educarmos nossas crianças e jovens para o
mercado de trabalho?
Será o melhor caminho buscar formas de adaptação
ao mercado de trabalho?
Haveria possibilidades diferentes para construir a vida cotidiana? E muitas
outras questões...
Referências Bibliográficas:
AIUB, M. Como ler a filosofia clínica: Prática da autonomia
do pensamento. São Paulo: Paulus,2010.
BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O novo espírito do capitalismo. São
Paulo: Martins Fontes, 2009.
MASI, D. O ócio criativo. São Paulo: Sextante, 2000.
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