| "Para responder a questão
sobre qual o talento da pessoa, não é preciso, necessariamente,
recorrer a testes que apontem, de maneira genérica, a diferentes
caminhos. É importante observar, na historicidade da pessoa,
que tipo de atividade é compatível com seus modos de
ser, pensar, sentir; o que é condizente com suas crenças,
sonhos, desejos e intenções; quais as habilidades desenvolvidas,
ou que necessitam de desenvolvimento, para o exercício de certas
atividades e, principalmente, quais as disposições e
possibilidades dessa pessoa em desenvolvê-las" |
Alguns jovens leitores escreveram relatando
sua dificuldade em escolher seu caminho profissional, ou em situar-se
no mundo do trabalho. Entre as questões levantadas: como escolher
uma profissão diante de tantas alternativas? Como saber se
a escolha é a mais adequada, considerando as necessidades de
realização pessoal, profissional e financeira? |
Como conciliar seus interesses, desejos e expectativas aos
interesses, desejos e expectativas familiares ou sociais? Essas mesmas
questões são, para alguns jovens, questões clínicas,
que os movem a uma terapia.
“Quero fazer artes cênicas, mas meus pais querem
que eu faça engenharia. Fico pensando se não têm razão.
Será possível sobreviver no teatro hoje?”, questiona
um partilhante (paciente). “Sou apaixonada por filosofia, mas não
me vejo como professora. Mas também não me vejo fazendo
outra coisa além de estudar. Acho que não há lugar
para mim nesta sociedade.” – afirma outra partilhante. “Já
comecei cinco faculdades diferentes e não consegui terminar nenhuma
delas. Fico pensando: será que a vida é isso mesmo? Escolher
qualquer coisa para sobreviver e passar a vida fazendo o que não
gosta. Talvez encontrar algum prazer em atividades paralelas, se sobrar
tempo para elas? Muita gente vive assim, mas acho que eu não consigo!
Queria descobrir qual é o meu talento” – diz um terceiro
partilhante.
Como um filósofo clínico aborda tais questões?
Em primeiro lugar, nosso trabalho consiste em identificar o que se passa
com a pessoa. Supondo que o partilhante chegue ao consultório com
a questão citada acima: “Já comecei cinco faculdades
diferentes e não consegui terminar nenhuma delas. Fico pensando:
será que a vida é isso mesmo? Escolher qualquer coisa para
sobreviver e passar a vida fazendo o que não gosta. Talvez encontrar
algum prazer em atividades paralelas, se sobrar tempo para elas? Muita
gente vive assim, mas acho que eu não consigo! Queria descobrir
qual é o meu talento”, iniciaremos com uma conversa sobre
a questão. Em seguida, para contextualizá-la num campo maior
da vida da pessoa, solicitaremos sua historicidade, ou seja, a forma como
vivenciou os vários acontecimentos de sua história de vida.
Assim como quando encontramos uma questão proposta por um filósofo,
isoladamente, separada de seu contexto, corremos o risco de compreendê-la
inadequadamente; da mesma maneira, quando o partilhante traz sua questão,
se não a contextualizamos no todo de sua historicidade, corremos
o risco de interpretá-la equivocadamente.
| Em filosofia, um problema tratado isoladamente,
sem o cuidadoso estudo de sua gênese, é um problema tratado
superficialmente, levianamente. Em filosofia clínica, da mesma
maneira, se trabalhássemos a questão do partilhante
sem estudar sua historicidade, nossa abordagem seria superficial e
leviana, e qualquer encaminhamento derivado disso teria o mesmo valor
que a mera opinião de um total desconhecido sobre as questões
fundamentais de nossas vidas. |
Ocorre que algumas pessoas consideram severamente tais
opiniões, sendo capazes de definir suas escolhas através
delas. Você já ouviu alguém dizendo que uma pessoa,
que viu uma única vez em sua vida, disse-lhe algo que modificou
completamente seu caminho? Ou que uma frase, lida num livro, ou citada
em uma conversa, transformou sua existência?
Que isto se dê naturalmente em nossas relações, é
compreensível; mas que um profissional, imbuído de uma fundamentação
para seu trabalho, restrinja-se a meras e levianas opiniões acerca
dos rumos da vida alheia, é, minimamente, temeroso e inaceitável.
Assim, enquanto o partilhante relata sua historicidade, o filósofo
clínico acompanha atentamente, com um mínimo de interferências,
e com uma postura fenomenológica (suspendendo seus juízos
sobre a questão), a historicidade do partilhante. Seu objetivo,
com esse procedimento inicial, é contextualizar a questão,
compreender sua gênese, o que implica numa espécie de “visita”
ao universo existencial do partilhante.
Ao mesmo tempo, o filósofo clínico observa os movimentos
existentes nesse universo, sua composição, suas relações
com o entorno, com os outros, suas maneiras de lidar com os problemas,
suas formas de se posicionar no mundo... Enfim, todos os aspectos que
se mostrarem relevantes. Além disso, entende o “jogo de linguagem”
utilizado, o significado de cada afirmação, de cada termo,
dentro do todo do discurso e deste nos diferentes contextos.
Com base nessa leitura, o filósofo clínico pontua algumas
questões, levando a pessoa a observar aspectos importantes para
seu processo, escolhidos a partir de critérios de relevância
observados na historicidade daquela pessoa em especial. Não são
esquecidas, obviamente, características dos contextos nos quais
a pessoa esteja inserida, a fim de examinar, juntamente com ela, as condições
de satisfação de suas crenças, desejos e intenções.
Assim, para compreender os motivos pelos quais o citado jovem iniciou
cinco diferentes cursos e não conseguiu concluir nenhum deles,
não é possível partir de teorias generalizadas, apontando
para respostas universais. Faz-se necessário estudar, no caso dessa
pessoa em especial, o que ocorreu. Para responder a questão sobre
qual o talento da pessoa, não é preciso, necessariamente,
recorrer a testes que apontem, de maneira genérica, a diferentes
caminhos. É importante observar, na historicidade da pessoa, que
tipo de atividade é compatível com seus modos de ser, pensar,
sentir; o que é condizente com suas crenças, sonhos, desejos
e intenções; quais as habilidades desenvolvidas, ou que
necessitam de desenvolvimento, para o exercício de certas atividades
e, principalmente, quais as disposições e possibilidades
dessa pessoa em desenvolvê-las.
É preciso também examinar se o contexto do partilhante possui
as condições para a realização de tais sonhos,
desejos e intenções. Se essas não existirem, quais
as possibilidades de intervenções em tais contextos para
que elas possam ser construídas. Caso não existam tais possibilidades,
haveria outros contextos nos quais ele poderia realizar suas buscas? Ou
haveria a possibilidade de transformar suas buscas em algo possível
sem seu contexto?
Esse exercício parece fácil de ser realizado. Contudo, exige
profundos estudos e reflexões acerca de nossas questões
e da organização do universo no qual estamos inseridos.
É preciso também, e principalmente, o exercício de
suspender nossos juízos, para que possamos pensar, junto com o
outro, em possibilidades que talvez fossem inimagináveis a nós.
De que maneira você avalia as condições de realização
de seus sonhos, desejos e intenções?
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