| "Quando a experiência
competitiva gera excessiva ansiedade, saturação psicofísica,
restrição ao lazer e ao convívio familiar, pressão
exacerbada dos adultos e outras, o esporte competitivo se tornará
um empecilho ao bem-estar do jovem" |
O esporte pode ser considerado um valioso instrumento
para o desenvolvimento dos jovens. Como tantas coisas na vida o esporte
por si só não tem o “poder” de promover
benefícios, sejam psíquicos, físicos ou sociais.
Tais benefícios serão possíveis se determinada
prática esportiva for desenvolvida através de uma excelente
qualidade profissional e pessoal daqueles que orientam e influenciam
o jovem, especialmente pais e profissionais do esporte. |
Abordarei apenas dois pontos, mas que são suficientes
para muitas discussões: O primeiro é a respeito dos fatores
influenciadores para a escolha do esporte a ser praticado pela criança
e o segundo diz respeito à competição infanto-juvenil
(especialmente a partir dos 12 anos de idade).
Para os pais um dilema natural é saber qual esporte o (a) filho
(a) deve praticar. Essa questão é sempre polêmica,
mas não muito difícil de resolver quando pensamos com tranqüilidade.
Escolha do esporte depende de cinco fatores
O primeiro fator é diagnosticar se o (a) jovem
tem algum problema de saúde que o impeça de praticar esportes.
Resolvido essa questão devemos considerar que os pais podem influenciar
seu filho (a) a praticar um ou outro esporte. Afinal de contas não
só o esporte, mas muitas coisas na vida são “apresentadas”
às crianças e jovens pelos pais. O que deve ser feito a
seguir é avaliar, depois de um período de prática
(definido pelo profissional em conjunto com os pais), se o filho (a) está
feliz com o esporte em questão, isso se estenderá até
o período de treinamento e competições típicos
da adolescência.
O segundo fator é com relação
às possibilidades sócio cultural do local onde se vive.
É óbvio que é difícil escolher praticar saltos
ornamentais em uma cidade que não há piscina para saltos
e profissionais para ensinar e treinar tal modalidade.
O terceiro fator é a condição econômica
e cultural dos pais, ou seja, há uma tendência em escolher
um ou outro esporte que a família tenha acesso ou possibilidade
financeira e que tenha ao menos um sentido cultural em suas vidas. Em
outras palavras, é difícil pais incentivarem o filho ou
filha a jogar handebol se eles mal sabem o que seja, ou então praticar
automobilismo, (por exemplo, Kart) se não há nenhuma possibilidade
financeira.
O quarto fator esta relacionada à escolha pelo
filho depois de algumas vivências novas e/ou inimagináveis,
nesse caso a estrutura da escola, de clubes, da mídia e do poder
público é que vão propiciar essa determinada possibilidade.
Neste caso, os pais devem estar abertos, apoiarem os filhos e se envolverem
com aquilo que será novo para eles.
O quinto fator está relacionado à tendência
da coerência entre a estrutura psicofísica da criança
ou jovem e o esporte a ser praticado, em outras palavras a coerência
da altura, velocidade, comportamento emocional, cognição
e outros com as características específicas de um determinado
esporte. É por isso que meninos muito grandes por volta dos 12
anos procuram praticar esportes como o vôlei e o basquete. Em resumo,
a partir do início da prática esportiva e das competições
o que mais importa é se a criança e posteriormente o jovem
está feliz e se sua saúde psicofísica está
assegurada.
Brincar ou competir?
| "Tudo é lúdico quando
atende os requisitos da espontaneidade (auto-expressão), funcionalidade
(eficácia) e da satisfação (alegria, bem- estar).
Quando uma atividade atende tais quesitos, aí sim ela pode
ser considerada uma atividade lúdica. Nesse sentido até
mesmo o trabalho pode ser lúdico" |
Outro dilema que muitos adultos enfrentam é
sobre as questões relativas à competição
e à ludicidade. Muitos enxergam esses dois fenômenos
conflitantes, embora não sejam. Explico: Não existe
garantia que uma atividade seja lúdica ou não. A ludicidade
de uma atividade depende da avaliação subjetiva daquele
que a vivencia. |
Aquilo que é lúdico para alguns pode ser
visto por outras pessoas como algo aborrecedor e vice-versa.
Então, o que é lúdico? Tudo é
lúdico quando atende os requisitos da espontaneidade (auto-expressão),
funcionalidade (eficácia) e da satisfação (alegria,
bem- estar). Quando uma atividade atende tais quesitos, aí sim
ela pode ser considerada uma atividade lúdica. Nesse sentido até
mesmo o trabalho pode ser lúdico. Acontece que existem atividades
que carregam consigo uma tendência natural para o lúdico
muito grande, como a música, as artes e o esporte. Assim como todas
essas atividades, portanto, a competição poderá ser
lúdica ou não.
Quando a experiência competitiva gera excessiva ansiedade, saturação
psicofísica, restrição ao lazer e ao convívio
familiar, pressão exacerbada dos adultos e outras, o esporte competitivo
se tornará um empecilho ao bem-estar do jovem. No entanto, quando
a competição é encarada como divertimento, providencia
o hábito de competir positivamente, proporciona participação
efetiva, incentiva à auto-realização e a auto-superação
do jovem, a experiência lúdica estará presente e o
bem-estar do jovem providenciado.
A influência do esporte na vida dos jovens (notadamente entre 12
e 18 anos) poderá ser positiva para tanto, algumas qualidades devem
ser promovidas pelo processo aprendizado-treinamento e competições:
desenvolvimento de habilidades psicofísicas gerais, experiências
de diferentes emoções, melhor auto-estima, melhoria dos
níveis de aptidão física, socialização
e coragem diante desafios. Ao adquirir consciência dessas possibilidades,
pais e profissionais envolvidos no processo competitivo infanto-juvenil
terão como objetivo básico o bem-estar e o desenvolvimento
pessoal do jovem atleta. O desenvolvimento pessoal e as vitórias
serão particularidades advindas de uma experiência prazerosa
e duradoura.
Competição, diversão e espetáculo
Vários pais de atletas quando me procuram para algum tipo de consultoria,
e a princípio, escutam coisas relativas ao que está exposto
acima, ficam desconfiados por acreditarem que o esporte competitivo se
resume em perder ou ganhar, vivenciar frustração ou glória.
Mas na verdade, esse impulso emocional de desconfiança é
resultado de uma ansiedade causada pela expectativa de sucesso do filho
e, por conseguinte da família. Nesse instante, proponho a eles
(os pais) que reflitam sobre a finalidade do esporte competitivo em qualquer
nível (da iniciação ao alto nível!) e favoreço
a conclusão que o valor do esporte competitivo está no divertimento.
Ou seja, a competição existe para preencher uma lacuna de
lazer para todas as pessoas (público em geral), para fazer bem
às suas almas e tornar o mundo um pouco mais alegre, assim como
as artes plásticas, a fotografia, o cinema, o teatro e a música.
| "Aquilo que é
lúdico para alguns pode ser visto por outras pessoas como algo
aborrecedor e vice-versa" |
Nesse contexto, profissionais, atletas e outras pessoas
envolvidas na “produção” desse espetáculo
– competição - precisam de muito esforço
e dedicação e fazem disso o seu “ganha-pão”.
Mas observem mesmo os grandes campeões que vivem do esporte,
acabam por se divertir e muito. |
É o caso de atletas que arriscam suas vidas nas
pistas de automobilismo pelo mundo afora e, no entanto não param
de competir, mesmo sendo ricos e sem necessidade da competição
para viverem.
Com isso, tento convencer as pessoas envolvidas no esporte infanto-juvenil,
que o sucesso no esporte é uma possibilidade que repercute não
apenas a vitória em si ou a expectativa de se tornar um atleta
profissional, mas é sucesso também utilizar o esporte para
a formação de um adulto saudável, otimista, ético,
sociável e modelo de cidadão. O que os jovens necessitam
é de uma orientação de qualidade a respeito do treinamento
e da competição. Competição não é
problema, o problema é como os adultos à “apresentam”
aos jovens.
Atitudes positivas dos pais
Além disso, proponho aos pais que exercitem influências
positivas para com os filhos que estão em prática esportiva
através de suas atitudes, aliás, mais valiosas do que as
palavras. E no rol dessas atitudes positivas destaco:
a) Motivação em fornecer oportunidades
e condições para a prática esportiva;
b) Mostrar que acredita nos valores positivos do esporte;
c) Ser ativo frente ao esporte atual (procurar ter conhecimento,
freqüentar, ser expectador e outros);
d) Reconhecer algum tipo de experiência positiva
esportiva em suas vidas que lhes ajudou de alguma forma (saúde,
auto-estima, por exemplo);
e) Participar, em algum momento, de atividades esportivas
junto com o (s) filho(s).
Por outro lado, profissionais que trabalham com jovens no esporte competitivo
precisam exercitar as funções de serem criativos, otimistas,
conhecer bem o esporte, transmitir valores educativos e morais, mostrar
que a competição é apenas mais uma etapa na vida,
valorizar o jovem e ser um líder de alta qualidade profissional
e pessoal.
Para finalizar, gostaria de dizer que o esporte competitivo pode proporcionar
valores positivos ou negativos aos jovens. Honestidade, confiança,
espiritualidade, humildade, esperança, liberdade, desonestidade,
insensibilidade, vaidade, desrespeito, individualismo e opressão.
Todos esses valores estão lado a lado no esporte, cabe aos adultos
mostrarem e exemplificarem aos jovens qual a melhor escolha.
|