Eu
Autoconhecimento para o bem-estar

Por que a falta de respeito e de comprometimento é tolerada?
por Patricia Gebrim

Prometer e não cumprir, mania de brasileiro?

Se um de vocês já fez reformas, mudou de casa ou precisou contratar vários tipos de prestadores de serviços ao mesmo tempo, vai entender o que vou dizer: passar por isso é simplesmente enlouquecedor!!! É uma pequena amostra do que acontece em várias outras esferas no nosso País.

"Como nos portamos com falta de respeito para com o próximo, acabamos achando, lá no fundo, que não somos “tão bacanas” assim. E se não somos bacanas, não merecemos ser tratados como tal... Assim, quando alguém falta com o respeito conosco, aceitamos, como se fosse uma justa punição por nossa própria atitude de descomprometimento. E começa tudo de novo..." Promessas não cumpridas, serviços pela metade, prazos prorrogados... e prorrogados... e prorrogados uma vez mais. A palavra “comprometimento” parece ter sido permanentemente abduzida de nosso planeta! Talvez esteja lá perto de Marte, ou de Plutão... ou em outra galáxia talvez!

E tem mais! Se você for daqueles que costuma fazer tudo corretamente e por isso se sentir injustiçado e decidir reclamar, a sensação será pior ainda.

Será olhado como se fosse algum tipo lunático vindo de um outro planeta, ou um coitado e ingênuo que ainda “não sabe que assim é que funcionam as coisas por aqui”. Esse pensamento virá acompanhado de um risinho malicioso, se você prestar atenção, perceberá.

Passei por tudo isso recentemente, o que me fez pensar: quais serão as raízes desse comportamento? Por que será que nós, brasileiros, pecamos tanto quando se trata de comprometimento, responsabilidade e respeito? Por que será que a nossa palavra vale cada vez menos? Por que somos capazes de mentir sem nem ao menos ficar com as bochechas vermelhas? (Nem ao menos levemente rosadas, eu diria).

Ah... como falta ética nos dias de hoje...

Será que isso acontece em função de uma ênfase no crescimento, sem que as bases sejam fortalecidas e estruturadas para suportar o aumento de demanda?

Será que nos sentimos tão pequenos a ponto de acreditar que só conseguiremos seguir em frente às custas de iludir o próximo?

Será que se deve a uma enorme falta de auto-estima coletiva?

Por mais que tenha pensado, confesso não ter chegado a nenhuma conclusão definitiva, a não ser a de que não estamos “nem aí” para as outras pessoas. Parece existir uma plaquinha pendurada lá no “teto” do Brasil onde está escrito : “Salve-se quem puder!”. A lógica parece ser a seguinte: se para me salvar eu precisar mentir, iludir, enganar, prometer... eu mentirei, iludirei, enganarei e prometerei; sem culpa, afinal a plaquinha me dá a permissão para agir assim.

Além disso... todos já sabem que “é assim que funciona”.

Para piorar a situação, enquanto povo, somos conformistas, aceitamos tudo sem reclamar, o que permite que esse modelo de desrespeito se perpetue. Recebemos um produto com atraso, pela metade, imperfeito e ainda agradecemos com um irritante sorriso em nossa face. Quanto muito nos calamos. Por que somos assim?

Vejo um círculo vicioso nessa questão que funcionaria mais ou menos assim:

1. Alguém nos desrespeita.

2. Nos sentimos lesados e acreditamos que temos o direito de revidar.

Então desrespeitamos o outro.

Como nos portamos com falta de respeito para com o próximo, acabamos achando, lá no fundo, que não somos “tão bacanas” assim. E se não somos bacanas, não merecemos ser tratados como tal... Assim, quando alguém falta com o respeito conosco, aceitamos, como se fosse uma justa punição por nossa própria atitude de descomprometimento. E começa tudo de novo...

Me parece que para sair disso precisamos fazer uma escolha difícil. Precisamos resgatar nossa auto-estima agindo de maneira que nos sintamos orgulhosos de quem somos. Precisamos agir de maneira tão respeitosa que, lá no fundo de nossa alma, um letreiro gigante comece a emanar uma nova frase, em um neon pink “supermega brilhante”:

“Eu sou bacana e mereço ser respeitado!”

Só quando nos sentirmos dignos, é que seremos capazes de nos indignar com a falta de respeito alheia a ponto de tomar alguma atitude, lutar por nossos direitos, manifestar a nossa insatisfação, exigir mais respeito nas relações!

São muitas as formas de se fazer isso, nem vou entrar nessa questão. Hoje o que me importa é tocar aquele ponto lá dentro de você que sabe que ninguém merece o que anda acontecendo por aqui!!! Precisamos mudar, e precisamos mudar logo! E temos que começar por nós mesmos.

É claro que para isso precisaremos ter autoconfiança o suficiente para encarar aqueles que nos chamarão de bobos, de idiotas talvez, por estarmos agindo eticamente quando “ninguém o faz”.

Eu lhe digo... não importa o que os outros pensem ou digam, não traia os seus princípios, procure agir respeitosamente, faça com que suas palavras tenham valor, paute suas atitudes por valores como verdade e comprometimento. Não jogue sua credibilidade fora. Nunca. Ela é um de seus bens mais preciosos, acredite.

Mesmo que algumas vezes você se decepcione com as pessoas, existe uma pessoa que nunca o decepcionará: você mesmo.

E tenha certeza: quando nos sentimos bem a nosso próprio respeito, quando acreditamos que somos pessoas “bacanas”, inconscientemente abrimos as portas para que as boas coisas da vida venham até nós.

Não podemos mudar o mundo, é uma verdade. Mas podemos heroicamente resistir, manter nossa chama acesa mesmo em meio à escuridão. Podemos continuar sendo o melhor que existe em nós ao resistir, ao não nos permitir ser tragados por essa onda coletiva de absoluta falta de consideração.

A meu ver esse é o maior desafio pelo qual passamos e talvez uma das maiores formas de fazer diferença nos dias de hoje.

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Patricia Gebrim
é psicóloga e escritora
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