| A
memória foi por muito tempo considerada um depósito, um arquivo,
um tipo de biblioteca, uma realidade acessível para que os conteúdos
fossem recordados. Na verdade a memória está associada a um conjunto
de funções psíquicas. Ela é um fenômeno em constante
mudança em que esquecimento, lembranças, recordações,
amnésia, lapsos fazem parte da vida e de preocupações advindas
de práticas sociais e culturais.
Com o passar dos séculos,
os auxílios à memória forneceram os termos e os conceitos
com os quais raciocinamos sobre nossa própria memória.
Com
o aparecimento da escrita houve uma profunda transformação da memória
coletiva. A escrita permitiu à memória coletiva um duplo progresso.
Primeiro, seria o ato de comemorar, que significa tornar os acontecimentos memoráveis,
ou seja, imortalizar os seus "feitos" através das representações
figuradas. A comemoração é a perpetuação de
uma memória, significa perpetuar uma lembrança. E segundo o documento,
o arquivo, que é uma forma de memória escrita, refere-se ao armazenamento
de informações, que nos permite recordar, reexaminar e reordenar
conteúdos. Todo documento tem em si um caráter de monumento.
A
evolução da memória ligada à difusão da escrita
depende essencialmente da evolução social e cultural. Assim, a memória
é uma construção ativa de conhecimentos e experiências
e não um mero registro passivo de informações e acontecimentos.
E as lembranças nos ajudam a atualizarmos o que foi memorável. Por
isso que rememorar é dar vida ao que foi vivido. Nós damos vitalidade
aos fatos e eventos conforme sua relevância. A "essência"
das coisas é aquilo que garante sua permanência. E o esquecimento
é uma força de ocultação e encobrimento. Aquilo que
não se percebe, não está presente, está oculto, no
senso do esquecimento.
| Saúde
da memória na vida do idoso possibilita: autoconhecimento, auto-avaliação,
melhoria da auto-estima, cumprimento de papéis sociais, diminuição
da ansiedade e uma série de outros benefícios | Além
da função de armazenamento de conhecimentos, de fatos e eventos,
a memória também é responsável por outras funções
que envolvem fatores psicológicos que são as reminiscências,
a revisão de vida, a história oral, as autobiografias, narrativas
pessoais e manutenção da cultura e identidade individual e coletiva.
Esses fatores significam lembrar de eventos históricos individuais e de
uma sociedade. Assim temos as chamadas memórias, esse termo é utilizado
para recuperar dados da experiência passada individual ou coletiva e são
referenciados por crenças e valores culturais. |
A
acumulação de elementos na memória faz parte da vida cotidiana.
Através das práticas sociais, culturais, simbólicas e históricas
é que as pessoas se tornam pessoas. Nossas experiências com o mundo
real, nosso contato com ele, nossa interação social permite nossa
construção intersubjetiva. Subjetividade significa uma permanente
constituição do sujeito pelo reconhecimento do outro. Então
fala-se de intersubjetividade quando um interlocutor, uma pessoa, tem consciência
da existência do outro e focaliza em conjunto com o outro, um mesmo fato,
evento ou situação.
Por isso é que somos heterogêneos
na nossa constituição. Nossas experiências são estabilizadas
na memória episódica (de fatos e eventos), em forma de modelos culturais,
quadros mentais, esquemas e scripts mentais, que estão sempre prontos para
atender às necessidades comunicativas e de resolução de problemas.
Cultura é conhecimento distribuído. A filosofia existe mais para
guiar e conduzir reflexões do que para responder perguntas. A maneira como
pensamos sobre as coisas, é a maneira como vivemos. As divergências
não estão nos livros, estão nas pessoas.
As reminiscências
são a recuperação de eventos passados, a lembrança
de algo que ocorreu no passado. Já a revisão de vida envolve a reconstrução
do passado mais a interpretação e análise de conteúdos
que são reconstruídos. A lembrança é intencional,
existe um envolvimento ativo da pessoa que está revisando a vida, há
uma necessidade interna de autoconhecimento por parte do indivíduo. A revisão
de vida tem uma função evolutiva em busca do equilíbrio psicológico.
Significa recontextualizar os significados das experiências pessoais passadas
e reconstruir esses significados.
A história oral é um método
que consiste construir conhecimentos que pode ser utilizado por diferentes disciplinas.
Na história oral os relatos de recordações são de
fatos e eventos históricos e sociais. Tem função transmissiva
e informativa com pontos de vistas pessoais sobre princípios e valores
de uma época. A história oral leva os idosos a desempenharem papéis
de testemunhos do passado. Segundo Olga von Simson, socióloga e pesquisadora
do centro de memória da Unicamp, a história oral é a arte
de recriar o passado.
Autobiografia significa o resgate de experiências
pessoais ou profissionais. São memórias que podem abranger desde
o crescimento ao amadurecimento com grandes temas sobre as fases da vida que são
organizadas para compartilhar com um grupo. O acúmulo de experiências
e de informações permite aos idosos alcançar elevado grau
de especialização e domínio em vários campos das atividades
humanas.
As narrativas pessoais referem-se à contagem de histórias
por iniciativa do narrador ou por necessidade do interlocutor. Significa transmitir
informações diversas, que podem ser contadas e recontadas e são
estruturadas e moldadas. Cabem às narrativas pessoais relatos de marcos
importantes da história de vida do narrador e tem como referência
períodos históricos e sociais vivenciado por um grupo. Exemplo:
Pessoas que vivenciaram um atentado terrorista e narram suas experiências
durante esse acontecimento.
Existem funções psicológicas,
sociais e culturais que se evidenciam nas memórias. São cinco as
freqüentemente descritas:
Funções integrativas:
tem o objetivo de construir o senso de integridade do ego, senso de significado
pessoal, recordação de experiências que fizerem bem, envolve
o saber lidar com perdas e a aceitação do passado sem arrependimentos.
Funções instrumentais: referem-se às lembranças
de planos e de atividades com objetivos estruturados com o aproveitamento de experiências
passadas para resolução de problemas atuais. É relembrar
estratégias do passado para enfrentar desafios no presente.
Funções
transmissivas: envolve as narrativas pessoais e a história.
Funções
escapistas: incluem lembranças de cunho adaptativo, refere-se a dificuldade
em reconstruir, reinterpretar e aceitar o passado, funcionam como mecanismos de
defesa ou estratégias de enfrentamento de dificuldades atuais ou do passado.
Funções
obsessivas: correspondem na excessiva reconstrução do passado
em detrimento do presente e do futuro, geralmente acompanhados de sentimentos
de culpa, vergonha, desapontamentos e ressentimentos.
Existem ainda
outras sete funções das memórias na vida dos idosos
1-) Transmissão da herança cultural; 2-) Melhora
da auto-estima; 3-) Cumprimento de papéis sociais e de tarefas
etárias, como por exemplo, de conselheiro e mentor; 4-) Aumento
das oportunidades de contato, integração e reconhecimento social;
5-) Diminuição da ansiedade, culpa, vergonha, ressentimento
e outros sentimentos negativos; 6-) Melhora no autoconhecimento e na
auto-avaliação; 7-) Perspectiva de futuro e consciência
da finitude - fim da vida. Por
fim, podemos dizer que o conhecimento é sempre uma modificação
de conhecimentos anteriores. Conhecimentos são experiências guardadas
na memória. Constantemente lembramos dos nossos scripts mentais. Estamos
sempre invadindo esse tempo vivido. Lembrar é um processo de várias
modalidades e é muito importante num mundo que está em constante
mudança. E o esquecer não é o primo pobre do lembrar, não
é fragilidade da memória, mas um processo de reelaboração
imaginativa, isto é um labirinto de imagens que se projetam e estão
em constante mutação, que ora recordações ocultas
vêm à tona, ora ficam escondidas como se estivessem nas profundezas
do mar. O esquecimento às vezes também ajuda a diminuir o peso do
passado. Quando lembramos de coisas do passado deixamos outras menos iluminadas.
Então o esquecimento faz parte da lembrança.
A imaginação
tem um papel fundamental na reconstrução da memória. A experiência
não importa tanto, ou seja, o que aconteceu no passado, mas sim como o
futuro poderá ser reconstruído a partir do passado. A vida não
é uma questão de tempo e relógio, o que importa é
que por meio das funções psicológicas e sociais da memória,
trajetórias alternativas de vida podem ser realizadas e refeitas. Valores
são reconstruídos num presente. Estamos sempre preenchendo lacunas
com o esforço da imaginação em busca de significados. Não
existe o que está esquecido, haverá oportunidade de lembrar em outro
contexto, em outro momento de outra forma, porque os restantes dos significados
estão escondidos em nós.
|