| Marília,
após uns vinte minutos de sessão em completo silêncio, levanta-se
para ir embora:
LC: - O que aconteceu?
MARÍLIA: - Ué,
não tenho nada para dizer!
LC: - E daí? MARÍLIA:
- Ué, aqui não é pra falar? Eu não tenho nada para
falar, então é melhor eu ir embora.
LC: - Eu disse para você
que nosso objetivo aqui é o de que você fale?
MARÍLIA:
- Não, não disse, mas todo mundo sabe que o objetivo de uma análise
é a pessoa falar.
LC: - Desculpe, não compartilho desse ponto
de vista.
MARÍLIA (indicando surpresa e sentando-se no divã,
onde estivera anteriormente deitada): - Não?!
LC: - Não.
MARÍLIA
: - E qual é, então, o objetivo da análise?
LC: -
É fazer a pessoa entrar em contato com coisas que são difíceis
para ela.
MARÍLIA : - !!!
LC: - E, pelo que você demonstrou
até agora, é muito mais difícil para você ficar calada
do que falar sem parar. Aliás, a impressão que me dá é
que as palavras jorram de você como uma cortina protetora para que nem eu
nem você entremos em contato com o que verdadeiramente lhe perturba.
MARÍLIA
: - Você está dizendo que eu uso a palavra para me defender?
LC:
- Parece. Aliás, embora eu ache que ele estava generalizando algo que é
possível, mas não necessário, Voltaire dizia que a palavra
é "o instrumento mediante o qual a pessoa esconde o próprio
pensamento".
MARÍLIA : - Que exagero!
LC: - Também
acho, mas, muitas vezes, você me deu a impressão de que estava fazendo
exatamente isso.
MARÍLIA : - E por que diabos eu faria uma coisa
dessas? O que é que eu estaria tentando esconder?
LC: - Bem, Marília,
não posso ter certeza, porque ainda não exploramos isso juntos,
mas, o que vem à minha mente são as inúmeras vezes em que
você mencionou sentir-se aquém do que os outros esperam de você.
Se você acha que o que um psicanalista espera de você são palavras,
imagino que não as ter para fornecê-las a mim seja uma situação
desproporcionalmente incômoda para você e, na verdade, degustar esse
incômodo e encontrar a raiz dele seria nossa melhor tarefa, o que vai ficar
difícil se você for embora.
MARÍLIA : - Bem, na verdade,
blá, blá, blá, blá, blá, blá... Disse,
em outro destes "DIÁLOGOS", que toda a Psicanálise bem
sucedida é um tratamento de logofobias, o que - esse fragmento de sessão
nos permite melhor esclarecer isso - pode ser tanto a fobia de falar quanto a
de calar.
Conclusão: se o paciente provier de um ambiente familiar
que o impediu de falar e cair nas mãos de um psicanalista que o proibe
de calar, não fez mais do que sair da frigideira para cair no fogo...
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