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| "Pais mandam
e filhos obedecem – é um saber popular que faz sentido.
Na adolescência, pais mandam e filhos argumentam, pois ganham
o direito a réplicas e tréplicas... " |
Criancinhas superpoderosas se transformam
em adolescentes presunçosos e depois em adultos fúteis
e incapazes. Essa pode ser a história de alguns de nossos jovens
adultos na atualidade. |
Foco aqui um trajeto de desenvolvimento infeliz, que está sendo
frequente nos nossos dias.
Cumpre salientar que existem trajetos felizes de desenvolvimento. Existem
famílias funcionais, onde os filhos crescem sob o olhar coruja
de seus pais, filhos que se sentem amados, valorizados, mas recebem os
limites adequados ao seu comportamento e aprendem a viver civilizadamente
na coletividade, respeitando os outros e se fazendo ser respeitados.
Entretanto, existem aqueles filhos que foram criados de forma superprotegida,
sobre os quais já escrevemos algumas vezes nessa coluna - veja
textos anteriores. É um tema recorrente e tão importante
que merece ser revisitado.
A Psicologia e a Pedagogia do meio do século anterior, talvez tenham
sido as principais responsáveis pela retirada das interdições
às condutas das crianças. Postulava-se que uma educação
restritiva demais impediria o desabrochar das potencialidades da criança.
Isso pode ser mesmo verdade, porém, da tese se partiu para a antítese.
O “não” foi abolido como execrável, passando
a ser proibido. As crianças ganharam o mando nas famílias
e os pais se submeteram a elas, possivelmente acreditando que assim iriam
formar pessoas com “personalidade forte” e criativas.
Ledo engano, a história provou o contrário. Crianças
que foram criadas sem limites, não adquiriram o controle necessário
sobre seus impulsos, não aprenderam a entreter tensão interna,
a tolerar esperas e não foram ensinadas a lidar com frustração.
Como resultante, crianças criadas dessa forma tiveram prejuízos
na capacidade para elaboração mental e prejuízos
também no fortalecimento do ego. Não atualizaram portanto
seus potenciais para o desenvolvimento, ao contrário, os desperdiçaram.
As crianças que viveram sem os “nãos”, buscaram
sempre o prazer imediato e se acostumaram a exigir a satisfação
pronta de suas necessidades e desejos. Não aprenderam a levar as
necessidades e desejos do outro em consideração, pois, centradas
em si mesmas e egoístas, tornaram seus pais reféns de suas
exigências. Assim os pais, modelos primários de identidade,
foram desvalorizados e despontencializados. Elas se acreditaram superpoderosas
e donas do mundo. Assustadoras, por sua postura arrogante e agressiva,
internamente se constituíram como fracas e assustadiças,
pois não tinham quem as protegessem até delas mesmas.
Esses filhos cresceram desperdiçando suas energias para manter
a ilusão de sua onipotência. Usaram de birra, negativismo
e oposição na crença de que poderiam manter suas
famílias e seus professores sob seu jugo. Alguns tiveram a felicidade
de encontrar pessoas psicologicamente mais fortes e íntegras que
os confrontaram, os ajudaram a sair dessa situação de “bebês
eternos” e os ensinaram a considerar as pessoas e a fazer trocas
afetivas e de conhecimento com elas. Outros, entretanto, cresceram como
centro de atenções patológicas dos pais, jamais contrariados
e se transformaram em adolescentes difíceis de trato, cheios da
presunção de serem únicos, sempre exigentes e insatisfeitos.
Com constante dificuldade para lidar com frustração e para
controlar seus impulsos, esses adolescentes se transformaram em adultos
pouco criativos, com problemas na conduta interativa e na conduta social.
Consequentemente, tenderam a falhar nas atividades profissionais. Mudanças
de emprego, de trabalho frequentes demais caracterizam essas pessoas,
pois elas não adquiriram a possibilidade de aceitar comandos e
não sabem usar inteligentemente de argumentações
e negociações.
São adultos também incapacitados para relacionamentos interpessoais
que sejam nutridores, por não terem sido preparados para assumir
qualquer responsabilidade sobre o outro. Querem apenas receber e pouco
sabem dar alguma coisa em troca.
Existe uma corrente que ainda acredita que o adulto criado dessa maneira
pode dar certo no trabalho e que talvez essa seja a fórmula para
o indivíduo ser um empreendedor de sucesso. Será? Provavelmente
não, pois não se vive no mundo das ideias, mas no mundo
de pessoas.
Empreender algo pode se iniciar como ação individual, mas
é uma ação que precisa ser posta em prática
no mundo das pessoas e das situações, requerendo uma série
de competências que indivíduos que foram criados sem limites
dificilmente terão. Lembro aqui algumas delas: liderança,
trabalho em equipe, negociação.
Quais seriam os determinantes então de um crescimento feliz?
É difícil responder a essa questão. Não existem
fórmulas precisas, apenas indicadores para um desenvolvimento saudável.
Cada criança nasce dotada de uma carga genética que interage
com o meio no qual ela se insere. O cérebro se estrutura e se desenvolve
em função das relações interpessoais da pessoa
desde o início de sua vida. Sabe-se que as redes neuronais se formam
em função das redes de significado a partir das relações
da criança com as pessoas que lhe são importantes.
Para se tornar um ser civilizado, a criança precisa aprender a
controlar sua impulsividade e a regular suas emoções. Necessita
de regras, normas, valores e princípios que possam nortear sua
conduta. Decorre daí a importância dos pais como educadores
de verdade. Pais mandam e filhos obedecem – é um saber popular
que faz sentido. Na adolescência, pais mandam e filhos argumentam,
pois ganham o direito a réplicas e tréplicas e, assim, aprendem
o poder e o valor de uma negociação válida, aprendizado
que eles mantêm para o resto de suas vidas.
Filhos podem e devem ser mimados. Mimo nunca estragou ninguém,
pelo contrário constitui um fator fundamental para a constituição
da autoestima, por garantir a sensação de ser amado. Mas,
os mimos precisam ser associados aos limites, às interdições
e às demandas, proporcionais às diferentes idades.
É função dos pais criarem pessoas que respeitem os
outros e que se façam ser respeitadas, condições
básicas para relações afetivas felizes e para êxito
profissional na vida adulta.
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