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| "Cativar
e acolher o enteado, uma criança ferida pela perda sofrida
com o afastamento de um dos genitores, uma criança que facilmente
se vitimiza, que pode se tornar manipuladora e agressiva, requer uma
força heroica e uma persistência infinita" |
A qualidade das interações
entre enteados e madrastas e padrastos merece cada vez mais observação
e análise, por serem essas relações cada vez
mais frequentes na sociedade pós- moderna |
Nos contos de fada e na literatura em geral, a madrasta e o padrasto
foram sempre retratados como pessoas cruéis e indesejáveis.
Representavam o símbolo da maldade no imaginário das pessoas.
Entretanto, na atualidade, época de tantos casamentos destituídos
e reconstituídos isso mudou e mudou para melhor. Hoje, conviver
com madrasta e padrasto é uma situação comum a muitas
crianças, adolescentes e adultos. A relação entre
enteados e madrastas e padrastos é uma relação delicada,
ancorada no afeto cultivado ao longo do tempo. É uma nova relação
de filiação, fundada na afinidade e mantida pela cordialidade.
A criança, na reconstituição da família, pode
ter a chance de criar relações diferenciadas e saudáveis
com esses novos adultos na sua vida, que podem vir a tê-lo como
filho do coração.
A separação dos pais é uma adversidade, traz perda,
dor e sofrimento. Porém, enfrentamentos positivos, aprendizados
de vida, condutas resilientes (de superação) são
possíveis frente às separações. Quando os
pais reconstituem a conjugalidade com outras pessoas, o marido da mãe
se torna o padrasto e a mulher do pai, a madrasta. Porém, isso
não é tão simples ou automático. São
processos complexos, o deixar de ser simplesmente o marido da mãe
para se tornar o padrasto, assim como o deixar de ser só a mulher
do pai para se constituir como madrasta.
Tais processos implicam em uma disponibilidade interna verdadeira, em
uma grande generosidade e em uma imensa paciência. Cativar e acolher
o enteado, uma criança ferida pela perda sofrida com o afastamento
de um dos genitores, uma criança que facilmente se vitimiza, que
pode se tornar manipuladora e agressiva, requer uma força heroica
e uma persistência infinita.
Enteado vem do latim ante natus, o que nasceu antes. No Português
antigo era grafado como antenato. A madrasta ou o padrasto ganha
uma criança “nascida antes” e precisa conquistá-la.
Cumpre às madrastas e aos padrastos usar de uma sedução
criativa na relação com sua criança que “nasceu
antes” e que não tem a possibilidade psicológica de
aceitá-los imediatamente. Isso porque fantasias de mais perdas
inundam a mente da criança.
Vivendo uma situação de perda, ao ser afastada de um dos
genitores, a criança inevitavelmente se questiona sobre o que irá
acontecer a seguir: o olho da mamãe não brilha mais pelo
papai, mas por outro homem. Ou o olho do papai não brilha mais
pela mamãe, mas, por outra mulher. Quem é essa pessoa que
vem agora “roubar” a mamãe ou o papai? Acresce-se a
isso, a percepção da criança de que ela não
é nada dessa nova pessoa. Com o tempo, à medida que o filho
deixa de se sentir ameaçado, ele consegue elaborar a perda sentida
e pode começar a se deixar conquistar e a aferir os ganhos com
o novo relacionamento de filiação.
De forma análoga, o filho adolescente e o filho adulto, nas separações
e nas reconstituições, vivem processos muito semelhantes.
Possuem, é certo, pela idade, maior capacidade de elaboração
e melhor possibilidade de compreensão intelectual, mas a dor emocional
é a mesma da criança e as defesas se instalam igualmente.
Assim, é função das madrastas e dos padrastos a conquista
de seus enteados, por meio de uma sedução criativa, consistente,
ética em um relacionamento que demorará a se estabelecer
em mão dupla, isto é de forma recíproca e simétrica.
Algumas vezes, apenas na geração seguinte se vê como
está bem estabelecida a relação de filiação.
É quando o enteado percebe que a mulher de seu pai, que se tornou
sua madrasta ou o marido de sua mãe, que se tornou seu padrasto
é verdadeiro e definitivamente a avó ou o avô de seus
filhos. Surge, nesse momento, a possibilidade de se celebrar com êxito
a família, dessa forma reconstituída.
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