| Resposta: O papel
da família no tratamento do usuário de substâncias
psicoativas é extremamente importante. Há evidências
de que, com muitos dependentes químicos, o adequado relacionamento
com a família constitui um dos principais fatores na prevenção
de recaídas.
Recomenda-se que os familiares freqüentem o profissional de saúde
especializado no tratamento das dependências químicas, mesmo
que em um primeiro momento, o próprio usuário não
queira se envolver em tratamento. A grosso modo, os familiares precisam
saber:
a) O consumo de substâncias é um problema
inserido entre muitos outros, ou seja, o usuário não apenas
consome as substâncias, mas devido a isso, apresenta vários
outros problemas (sociais, escolares, interpessoais, jurídicos
etc);
b) A comparação do usuário com outras
pessoas que são tidas como “modelos” não traz
quaisquer benefícios; apenas poderá aumentar a irritabilidade
do mesmo;
c) A adoção de uma postura baseada em brigas
constantes, criticas severas ou castigos, quando os familiares descobrem
que uma pessoa faz uso de substâncias não a impede de continuar
usando. Apenas fará que o usuário esconda o fato da família.
Dessa forma, caso as provas sobre o consumo forem claras, os familiares
devem conversar com o usuário e orientar a procura de um profissional
especializado. Caso os familiares apenas desconfiem do consumo, eles devem
procurar um profissional que os possa orientar adequadamente sobre como
prosseguir e tentar estabelecer um contato maior com o usuário;
d) Uma alternativa interessante é desaprovar determinados
comportamentos do usuário, sem necessariamente atribuí-los
ao uso de drogas;
e) Nos casos em que os familiares fingem que não
há nada errado, continuam a fornecer dinheiro ao usuário
(financiando o consumo e a dependência da pessoa), permitindo que
o mesmo utilize as substâncias dentro da própria casa (porque
é mais seguro do que usar na rua ou com os amigos), o resultado
será muito negativo.
Os familiares realmente precisam de orientação. Na grande
parte das vezes, eles conhecem os problemas advindos do uso inadequado
das drogas, mas não conhecem as formas mais adequadas para lidar
com o problema.
Muitos membros familiares do dependente infelizmente comportam-se de uma
determinada maneira que, direta ou indiretamente, apóiam, facilitam
ou perpetuam o uso inadequado de substâncias pelos filhos. Membros
familiares que consciente ou inconscientemente recusam-se a confrontar
ou, até mesmo, reconhecer o problema da dependência química
apenas aumentarão os problemas futuros.
Comportamentos errôneos da família
Alguns destes comportamentos indesejáveis dos familiares são
apontados abaixo:
a) Minimização – os familiares ignoram,
racionalizam ou tentam explicar o uso de drogas, atribuindo-o a uma fase
passageira, já que “muitas pessoas usam drogas hoje em dia”,
ou “ele (o usuário) está passando por uma fase difícil
e a droga lhe dá algum alívio”, ou “ele teve
uma vida difícil, com vários traumas. Ele precisa melhorar
de vida antes de conseguir parar de usar drogas”;
b) Controle – tentar controlar ou manipular o uso
de drogas pelo dependente; fazer barganhas com o usuário. Por exemplo,
propor ao usuário “consumir apenas um baseado por dia”,
ou “usar somente à noite, antes de dormir”, ou propondo
“usar aos finais de semana apenas”;
c) Proteção inadequada – tentar proteger
o usuário das conseqüências negativas do uso. Por exemplo,
desculpando o usuário, negando a responsabilidade do mesmo pelos
seus próprios atos;
d) Assumir responsabilidades do usuário –
pagar contas do usuário; desempenhar as tarefas domésticas
atribuídas ao membro familiar dependente, sem cobrá-lo;
defendendo-o de problemas externos e assumindo a responsabilidade por
eles;
e) Conluio – ajudar o usuário a obter as
drogas, já que “ele sente falta e pode passar muito mal sem
elas ou ficar violento sem o uso delas”.
Alguns familiares acabam por organizar suas vidas ao redor do dependente,
tentando controlar ou manejar os comportamentos e problemas do usuário.
Outras vezes, os familiares tentam esconder o problema de outros membros
da família que moram na mesma casa. O segredo não deve ser
mantido. O problema deve ser encarado e confrontado de forma clara, transparente
e objetiva.
Não há qualquer problema em querer ajudar um membro da família
ou amigo em dificuldades, enfrentando as mais variadas situações
adversas. O comportamento de ajuda deve ser constantemente estimulado,
tendo em vista a sociedade individualista em que nós vivemos. No
entanto, “ajudar” requer SABER como “ajudar”.
A pessoa que insiste em “ajudar” através de formas
erradas, acaba por afetar negativamente tanto o usuário quanto
ela própria engajando-se ambos em um processo devastadoramente
patológico.
Sempre reitero: a família do dependente precisa também estar
inserida no tratamento.
Indicação bibliográfica
Vários leitores têm solicitado referências bibliográficas
para aprender mais sobre o problema, o que é uma atitude muito
bem-vinda. Recomendo o livro:
Braun IM. Drogas – perguntas e respostas. São Paulo, MG
editores, 2007.
Atenção!
As respostas do profissional desta coluna não substituem uma
consulta ou acompanhamento de um profissional de psiquiatria e não
se caracterizam como sendo um atendimento
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