| Alguns leitores perguntam como é
possível conciliar filosofia e terapia, como ocorre com a filosofia
clínica (clique aqui e leia).
| "Tendo a
filosofia tais características, quando alguém procura
a filosofia clínica como terapia, não encontra alguém
que lhe dirá o que fazer, mas alguém com quem dialogar
sobre sua forma de pensar, sentir e viver o problema em questão" |
O principal aspecto levantado pelos leitores diz
respeito à possível junção entre a autonomia
de pensamento, necessária à postura filosófica,
e a condução de um processo terapêutico, considerado
pelos leitores como “ser conduzido pelo outro”. |
É possível manter a autonomia e ser conduzido pelo outro?
Se é o partilhante (paciente) quem conduz o processo clínico,
para que precisa do terapeuta?
O que faz com que uma pessoa busque terapia?
Poderíamos responder a pergunta de diferentes maneiras, pois são
muitos e diferentes os motivos pelos quais recorremos a um apoio terapêutico.
No consultório de filosofia clínica é possível
encontrar uma grande diversidade no que se refere ao Assunto Imediato
(queixa inicial, o que faz com que a pessoa procure o consultório).
Alguns vêm em busca de alívio para seu sofrimento; outros
desejam pensar junto com alguém sobre uma questão em especial;
há quem necessite avaliar suas escolhas e formas de vida até
o momento presente; outros se deparam com choques advindos da não
satisfação de seus desejos ou crenças; há
até aqueles que procuram por curiosidade, para saber como é
passar pelo processo terapêutico. Isso sem contar os que buscam
autoconhecimento, equilíbrio emocional, realização
pessoal, e muitos outros elementos.
Entre essas e outras questões, alguns se descrevem como incapazes
de lidar, sozinhos, com a vida, ou com as adversidades que, circunstancialmente,
enfrentam: “Eu sempre fui assim, incapaz de ter atitudes, de decidir,
de me movimentar sozinho”; “Até aqui, sempre lidei
bem com minhas dificuldades, mas diante desse novo quadro, já não
sei mais o que fazer, não sei mais quem sou” – são
alguns exemplos de tais descrições.
Você já se sentiu assim? Já teve dificuldade para
conduzir sua própria vida durante um período? Conseguiu
resolver isso? De que maneira?
Algumas pessoas resolvem isso encontrando apoio em outras, gerando uma
espécie de dependência, na qual o outro resolve por ela,
faz por ela, vive por ela, sente por ela... Para algumas pessoas é
um bom caminho. Vivem conduzidas por outro que dirige sua vida. Kant,
no texto “Resposta à pergunta: Que é esclarecimento?”,
questiona o que faz com que uma pessoa, podendo conduzir sua própria
vida – o que ele nomeia como maturidade –, opte por ser conduzida
por outra – o que ele denomina permanecer na menoridade. Os motivos
principais que ele aponta são a preguiça e a covardia.
É mais fácil receber a receita pronta e segui-la, dá
menos trabalho decidir, pensar; o outro pode fazer isso por nós
e, às vezes, até pagamos para que faça. Quantas vezes
você já contratou alguém para lhe indicar qual o melhor
caminho para resolver um problema da sua vida? Esse seria o motivo pelo
qual alguém procura um terapeuta? Buscamos terapia para que alguém
resolva nossos problemas? Para que um profissional nos diga o que devemos
fazer? Parece haver um equívoco sobre a função de
uma terapia para aquele que pensa de tal maneira, pois um profissional
que ajuda ao outro, seja ele de qualquer área ou linha, não
tem o poder de resolver os problemas por nós, embora possa nos
auxiliar, e muito, no que se refere à compreensão de nossos
processos.
Ainda no mesmo artigo, Kant aponta para a covardia como um motivo pelo
qual alguém opta por ser conduzido por outro. Ele descreve uma
espécie de medo, de falta de coragem para assumirmos nossos posicionamentos,
principalmente se nosso modo de pensar for muito diferente do que pensa
a maioria das pessoas. O que você costuma fazer quando sua opinião
diverge do que a maioria das pessoas a sua volta pensa? E quando seus
sentimentos não são condizentes com “aquilo que todos
dizem que você deveria sentir”?
Muitas pessoas questionam sua sanidade mental quando se deparam com situação
como essa. O pensar diferente da maioria das pessoas pode ser lido como
loucura. Em casos assim, é comum que a pessoa busque a terapia
para avaliar, com um profissional, se suas ideias têm fundamento
ou são “maluquices”. Obviamente, se avaliarmos uma
ideia isoladamente, pouco poderemos concluir a respeito dela. Contudo,
se contextualizarmos a ideia a partir de sua gênese, de sua construção,
é possível avaliar sua relevância dentro de seu contexto
de origem.
Porém, ainda que uma ideia muito diferente do pensamento comum
à maior parte das pessoas tenha fundamento, seu autor poderá
ter dificuldade em defendê-la pelo simples fato de ser algo diferente
do comum. Você já tentou, ainda que estivesse com razão
e com todos os argumentos bem elaborados acerca de um pensamento, apresentá-lo
a um público que não está habituado a pensar como
você sobre o assunto em questão? Já ocorreu de, ao
tentar apresentar suas ideias, perceber que não está sendo
compreendido? Nesse caso, haveria alguma linguagem mais apropriada para
apresentar seu pensamento de modo que os outros pudessem compreendê-lo?
Num caso como esse, não adiantaria a pessoa procurar o terapeuta
para se certificar de que seus pensamentos possuem fundamento, pois quais
seriam os critérios de análise do profissional para avaliar
a pertinência das ideias apresentadas? Suas próprias ideias?
O que a maior parte das pessoas defende? O que sua área de atuação
defende? A lógica subjacente de seu pensar?
Coloco tais questões para que o leitor avalie o papel de uma terapia.
Não se trata de dizer à pessoa o que ela deva fazer, pensar
por ela, conduzir sua vida. Muito menos de avaliar se ela é ou
não normal, pois tal avaliação sempre seria feita
a partir de um padrão previamente estabelecido (clique
aqui e leia). Vamos especificar de que se trata, especificamente,
em filosofia clínica.
Filosofia: pensar por si mesmo
A filosofia, desde suas origens, pode ser caracterizada como autonomia
de pensamento, como o pensar por si mesmo. Isso não significa isolamento,
recusa ao diálogo, ao contrário, é o que permite
um diálogo, no qual cada participante apresenta seu processo de
pensamento e pense junto com o outro sobre uma determinada questão.
Ao mesmo tempo em que provoca o outro a observar como construiu seu pensamento,
a percorrer novamente todo seu processo de construção de
conhecimento, o interlocutor também é provocado a fazer
o mesmo.
Para filosofar é preciso abertura
Daí a afirmação que para filosofar é necessária
a abertura. O que é a abertura? Uma disposição para
o exercício de pensar, de desconfiar de suas próprias ideias,
de provocar e ser provocado a uma construção partilhada
do pensar, que pode resultar tanto na reafirmação de suas
ideias, quanto na necessidade de abandoná-las, por descobrir que
não têm fundamento.
Por colocar-se dessa maneira, a filosofia exige que se mantenha no “não
saber”, ou seja, que se permita sempre o questionar, o desconfiar,
o investigar, o dialogar. Assim se constroem os conceitos, assim se constituem
as formas de existência, assim se atribuem os significados do viver.
Sabendo, contudo, que os conceitos, formas e significados são estabelecidos,
mas permanecem em aberto, podendo ser modificados de acordo com as necessidades
e movimentos da vida.
Tendo a filosofia tais características, quando alguém procura
a filosofia clínica como terapia, não encontra alguém
que lhe dirá o que fazer, mas alguém com quem dialogar sobre
sua forma de pensar, sentir e viver o problema em questão. Esse
alguém, o filósofo clínico, tem como procedimento
inicial contextualizar a gênese do problema, não apenas em
seu contexto de surgimento, mas na historicidade da pessoa. Ele coletará
dados sobre os chamados Exames Categoriais (exames iniciais que indicam
o universo existencial da pessoa), a fim de saber o que faz sentido a
ela, conhecerá sua linguagem, investigará os significados
das ideias apresentadas, assim como as possíveis lógicas
utilizadas para compor seu pensar.
Durante a pesquisa, enquanto a pessoa relata sua historicidade, o filósofo
clínico procura interferir minimamente, a fim de permitir que a
pessoa siga o curso de seu pensamento, pois se assim não fizesse,
seria impossível compreender seu processo e formular questões
para que a pessoa possa refletir sobre o mesmo.
Mas ele fica calado o tempo inteiro? Não há reciprocidade?
É uma via de mão única? Pergunta o leitor.
Não. Ele não ficará calado o tempo inteiro. Será
estabelecido o diálogo, mas antes disso, é preciso que ele
ouça, compreenda qual é a questão colocada, quem
é a pessoa que está diante dele, qual a perspectiva a partir
da qual ela observa sua problemática, em que universo ela se insere
e com quais elementos necessita lidar, entre outros e muitos dados.
Há reciprocidade, partilha, mas não das opiniões
do filósofo clínico, porque elas poderiam não ser
adequadas, não dizer respeito às necessidades da pessoa,
e uma terapia não é um bate-papo sem objetivos, muito menos
uma disputa de opiniões. A reciprocidade ocorre na medida em que
o filósofo clínico compreende o processo de construção
do modo de ser do partilhante e o provoca a pensar sobre seu próprio
processo. Em outras palavras, a reciprocidade ocorre na medida em que
o filósofo clínico convida o partilhante ao exercício
do filosofar acerca de suas próprias questões.
Assim, não se trata de uma via de mão única, mas
do estabelecimento do pensar junto com o outro, do investigar os fundamentos
das ideias, de compreender a gênese dos problemas, do construir
um saber que auxilie a pessoa a lidar com suas questões da maneira
mais condizente com suas formas de existência.
É importante lembrar que o saber assim construído também
se mantém provisório, também permanece em aberto,
podendo ser movimentado. Além disso, o filósofo clínico
poderá auxiliar o partilhante a elaborar seus jogos de linguagem
(conforme propõe Wittgenstein em Investigações Filosóficas)
a partir dos contextos e relações que ele vive, cria e estabelece,
permitindo a ele partilhar suas ideias e processos com as pessoas com
as quais estabelece relações. Contudo, isso não se
dá a partir de “ensinamentos” do filósofo clínico,
mas da pesquisa que ambos partilharão sobre as formas mais adequadas
para expressar seus modos de vida. Pelos motivos expostos, a filosofia
clínica é uma terapia compatível com a autonomia
do pensar.
Você já exercitou o filosofar sobre suas próprias
questões?
Referências Bibliográficas:
AIUB, Monica. Para entender filosofia clínica: o apaixonante exercício
do filosofar. 2ed. Rio de Janeiro: WAK, 2008.
KANT, Immanuel. Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 2005.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas.
Petrópolis: Vozes, 2005.
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