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Ideias sobre amizade do filosófo grego Aristóteles
(384 a.C. - 322 a.C.), são contemporâneas
Pergunta o leitor: "O que a filosofia diz sobre a amizade?
O filósofo é alguém sem amigos?".
É difícil apresentar de maneira generalizada o que a "filosofia"
diz sobre a amizade.
Nesses tantos séculos de história da filosofia, muitas e
diferentes ideias foram expostas sobre a amizade. Tantos foram, e são,
os filósofos que não é fácil traçar
seus posicionamentos acerca dos amigos: Tê-los ou não? Mas
tentemos pensar juntos sobre a amizade e os amigos, acompanhando as palavras
de alguns deles sobre o assunto.
O que fazem os amigos?
São nosso refúgio na pobreza e no infortúnio; ajudam
os mais jovens a evitar os erros; ajudam as pessoas idosas amparando-as
em suas necessidades; estimulam as pessoas na plenitude de suas forças
à prática de ações nobilitantes, pois com
amigos as pessoas são mais capazes de pensar e de agir".
Você considera as ideias acima descritas atuais? Então saiba
que são de autoria de Aristóteles.
"Uma forma de excelência moral" ou "concomitante
com a excelência moral", "extremamente necessária
à vida" são termos que Aristóteles utiliza para
iniciar o livro VIII da Ética a Nicômacos, capítulo
que trata sobre a amizade. Prossegue ele: "De fato, ninguém
deseja viver sem amigos, mesmo dispondo de todos os outros bens".
Note como Aristóteles preza a amizade, colocando-a como um bem
desejável, mesmo àquele que dispõe de todos os outros,
e apresentando o amigo como aquele que nos torna mais capazes de pensar
e agir. Você concorda com Aristóteles? Seus amigos lhe provocam
a pensar e agir com mais capacidade? Você também faz isso
com seus amigos?
No capítulo IX do mesmo livro, Aristóteles afirma: "Com
efeito, a amizade é uma parceria, e uma pessoa está em relação
a si própria da mesma forma que em relação ao amigo;
em seu próprio caso, a consciência de sua existência
é um bem, e portanto a consciência da existência de
seu amigo também o é, e a atuação desta conscientização
se manifesta quando eles convivem; é portanto natural que eles
desejem conviver. E qualquer que seja a significação da
existência para as pessoas e seja qual for o fator que torna a sua
vida digna de ser vivida, elas desejam compartilhar a existência
de seus amigos; sendo assim, alguns amigos bebem juntos, outros jogam
dados juntos, outros se juntam para os exercícios do atletismo
ou para a caça, ou para o estudo da filosofia, passando seus dias
juntos na atividade que mais apreciam na vida, seja ela qual for; de fato,
já que os amigos desejam conviver, eles fazem e compartilham as
coisas que lhes dão a sensação de convivência".
Constatar, ter consciência da amizade, da existência do amigo,
é um bem. Como isso se dá? Pela convivência, segundo
Aristóteles.
Assim, para atingir este bem tão necessário, precisamos
conviver. Não podemos esquecer que no período em que viveu
Aristóteles, cuidar de si era cuidar da polis, da vida em sociedade.
Para o filósofo, o homem é um animal político e,
portanto, a convivência é de suma importância. Você
convive com seus amigos? O que costuma fazer nessa convivência?
Você considera que hoje é preciso cuidar da vida em sociedade
para cuidar de si? Os amigos ajudariam nesse processo? Em quê?
Ainda no capítulo VIII, Aristóteles afirma: "Quando
as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça,
enquanto mesmo quando são justas necessitam da amizade". Este
seria um bom motivo para mantermos as amizades, e através delas,
cuidarmos de nós e da vida em sociedade.
Epicuro: o filósofo da amizade
Epicuro, considerado o filósofo da amizade, afirmou em suas Sentenças
Principais: "De todas as coisas que a sabedoria nos oferece para
a felicidade da vida, a maior é a amizade". Aqui podemos constatar
mais um filósofo que trouxe a amizade como fator primordial à
vida. Segundo ele, a amizade, ainda que não nos livre das dores
do corpo e da alma, nos auxilia a suportá-las.
Segundo La Boétie, a amizade é nossa única forma
de recusa à servidão, servidão que deriva da vontade
humana, impondo-se e nos fazendo esquecer a liberdade do desejo. Por sua
vez, Montaigne, em seus Ensaios, ao tratar da amizade, aponta para
sua amizade com La Boétie, descrevendo a qualidade e a importância
de uma relação dessa natureza: "Na amizade a que me
refiro, as almas entrosam-se e se confundem em uma única alma,
tão unidas uma à outra que não se distinguem, não
se lhes percebendo sequer a linha de demarcação. Se insistirem
para que eu diga por que o amava, sinto que o não saberia expressar
senão respondendo: porque era ele; porque era eu".
Deleuze, filósofo do século XX, em entrevista para Claire
Parnet, no vídeo O Abecedário Deleuze, afirma "Eu
adoro desconfiar do amigo. Para mim, amizade é desconfiança.
Há um verso de que gosto muito, e me impressiona muito, de um poeta
alemão, sobre a hora entre cão e lobo, a hora na qual ele
se define. É a hora na qual devemos desconfiar do amigo. Há
uma hora em que se deve desconfiar até de um amigo. Eu desconfio
do Jean-Pierre como da peste! Desconfio dos meus amigos. Mas é
com tanta alegria que não podem me fazer mal algum. O que quer
que façam, vou achar muita graça (...) Ser amigo é
ver a pessoa e pensar: 'O que vai nos fazer rir hoje?'. 'O que nos faz
rir no meio de todas essas catástrofes?' É isso".
Apesar da filosofia exigir a solidão de pensar por si mesmo (clique
aqui e leia), ela também exige o amigo, aquele com quem se
dialoga, aquele que desconfia e de quem desconfiamos, que questiona, que
nos faz pensar. Não há filosofia sem diálogo.
Deleuze e Guattari, em O que é a Filosofia?, falam do amigo
da sabedoria, que é aquele que pretende o saber, o pretendente
e, portanto, rival do outro. Teríamos deixado de ser o amigo do
outro para sermos amigos do saber e rivais do outro?
Penso que o filósofo precisa ser, concomitantemente, amigo do saber
- no sentido de buscar, de conviver, de dialogar com esse saber que lhe
provoca, espanta, instiga -, e amigo do outro - com quem o diálogo
necessário se estabelece, para que ele não se perca em divagações
vazias. Alguns dirão que este outro são os textos dos filósofos,
que nos instigam, provocam, espantam e com os quais estabelecemos diálogo.
Outros defenderão que além de tais outros, necessitamos
do diálogo e da partilha daquilo que amamos com a presença
de um outro, com a convivência, como afirmou Aristóteles.
De qualquer maneira, encontramos, na História da Filosofia, vários
pensadores que apontam para a importância da amizade. É o
amigo quem nos alerta, quem nos provoca a pensar. É também
o amigo quem partilha conosco suas histórias, seu modo de ser,
seu cuidado, seu riso. E você, leitor, o que pensa? A amizade é
importante? O que significa, para você, ser amigo? Você tem
amigos? Você se considera um bom amigo? Por quê?
Referências Bibliográficas:
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: UNB,
1985.
DELEUZE, G. O Abecedário Deleuze. Entrevista com Claire Parnet.
Vídeo.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a Filosofia? São Paulo:
Ed. 34, 2001.
EPICURO. Máximas e Sentenças. Col. Os Pensadores. São
Paulo: Abril Cultural, 1972.
LA BOÉTIE, E. Discurso da Servidão Voluntária. São
Paulo: Brasiliense, 1999.
MONTAIGNE, M. Ensaios. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural,
1972.
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