| "Você
já experimentou olhar para sua vida como uma obra de arte cujo
autor é você mesmo? Mas o mais instigante é o
fato de ser sempre uma obra inacabada, que se movimenta, se modifica
o tempo inteiro. Hoje se faz de uma forma, amanhã de outra" |
Final de um ano, início de outro...
muitos fazem revisão de vida, estabelecem metas, enunciam promessas.
Alguns o fazem todos os anos. |
Todos os anos as mesmas promessas não cumpridas, as mesmas metas
não atingidas, o mesmo que se repete como um eterno trabalho de
Sísifo ou como a eterna punição de Prometeu
acorrentado. O que os prende? O que não lhes permite prosseguir?
Para alguns o não cumprimento das promessas, a não aquisição
das metas estabelecidas provoca sensações horríveis,
sentimentos de incompetência, desvalorização de si,
entre muitas outras consequências. Para outros, apenas a constatação
da impossibilidade de cumprir o proposto, mas nenhuma alteração
na proposta, e menos ainda a cogitação da possibilidade
de abandoná-la. Esses continuam enunciando suas promessas e metas
como um canto repetitivo, que não tem força de ação,
apenas palavras, palavras, palavras... É interessante observar
que, em alguns casos, somente o enunciar, o listar as metas equivale a
tê-las cumprido. Definir o que fazer, não fazer, e sentir-se
como se tivesse feito. Missão cumprida no universo das abstrações.
Mas há também aqueles que cumprem todos os itens de suas
promessas e metas, satisfazem-se com seu desempenho e propõem novas
metas, sempre na medida de suas possibilidades. Assim como há aqueles
que cumprem todos os itens, consideram pouco, irrisório, e sentem-se
mal por não terem ido além disso. Esses são apenas
alguns exemplos desses processos, que não são os mesmos
sempre, nem para uma mesma pessoa. Muitas podem ser as variáveis,
ainda que um breve olhar à volta nos leve a crer que “todo
mundo faz isso”, ou uma escuta rápida nos leve a considerar
que “todo mundo diz isso”. Quem é “todo mundo
que faz isso” ou “todo mundo que diz isso”? Eis uma
questão interessante para se investigar.
Aquilo que “todo mundo faz”, “que todo mundo diz”,
“que todo mundo pensa” muitas vezes serve como fundamento
para que se considere uma ação, uma afirmação
ou um pensamento verdadeiros; mais do que isso, naturais. O processo de
naturalização dos modos de vida nos provoca a avaliar, em
nós mesmos e nos outros, tudo aquilo que fuja aos padrões
vigentes como anormal, loucura, burrice, incompetência, incapacidade,
entre outros adjetivos. Assim, também parece ser natural que gostemos
do que “todo mundo gosta”, que busquemos ser “o que
todo mundo é”. E assim nos tornamos os mesmos de um mesmo
padrão, ainda que a originalidade seja “ser o que todo mundo
é”, em seus múltiplos significados.
É interessante observar a angústia de não ser aquilo
que não se quer ser. Mas que motivos há para se angustiar
por não ser o que não se quer ser? Se “todo mundo
é”, ainda que se tenha escolhido não ser, há
implicações por não ser: exclusão, cobranças,
comparações... Há como comparar modos de vida? Nós
comparamos. Há como comparar desejos? Nós comparamos. E
para isso utilizamos padrões estatísticos dos modos de vida
normais ou não, dos desejos normais ou não.
Mais interessante ainda é observar as contradições
que se manifestam nos desejos, nas formas de ser, nas decisões,
nas formas de expressão... Como é possível querer
e não querer? Ser e não ser? Fazer e não fazer? Mas
se não é possível, o que há de errado em nós
que nos percebemos assim? E mais uma vez as teorias que não são
observadas no mundo e em nós não são vistas como
más teorias; nós e o mundo é que estamos equivocados,
afinal, as teorias, com suas bases estatísticas, comprovam o que
é o real. Se não é possível ver ou ser dessa
maneira, o erro está na impossibilidade que anseia negar a teoria,
mas acaba por negar a si mesma.
Ser chique
Daniel Dennett, em Brainstorms, mostra como os que se autodenominam “chiques”
estabelecem os critérios para ser “chique” e para aceitar
no grupo dos “chiques” aqueles que se assemelham a eles, aqueles
que garantem a reprodução de uma mesma forma de vida: “ser
chique”. Não ocorre assim na vida cotidiana?
Michel Foucault, em O Nascimento da Biopolítica, demonstra
como o laisser faire do liberalismo (e das formas de neoliberalismo
europeias e norte- americanas) promove a ilusão de liberdade, quando
o que de fato ocorre é um forte controle sobre as formas de vida,
incutido a partir de um processo de naturalização, fundamentado
em pesquisas estatísticas. Com a naturalização, não
é preciso obrigar alguém a agir, sentir, pensar de uma determinada
maneira. No próprio exercício de sua “liberdade”,
diante daquilo que é “natural”, e portanto comum a
“todos”, “opta-se”, “deseja-se” ser
“natural” e, consequentemente, “aquilo que todo mundo
é, sente, pensa e faz”.
Há formas de resistir a tais processos? Há como constituir
formas de vida independentes dos processos de “naturalização”?
Em Hermenêutica do Sujeito, Foucault trata do “cuidado
de si” como uma forma de resistência. Cuidado de si indissociável
do cuidar da polis, do viver junto-com-o-outro. Em outras palavras,
cuidar de si não consiste em ser egoísta, em fechar-se em
si mesmo, em tornar-se idiota (clique aqui e
leia). Consiste em conhecer a si mesmo, ao outro, ao mundo e, com
base nos dados coletados, construir, criar, compor formas de vida tal
como se compõem obras de arte.
Você já experimentou olhar para sua vida como uma obra de
arte cujo autor é você mesmo? Mas o mais instigante é
o fato de ser sempre uma obra inacabada, que se movimenta, se modifica
o tempo inteiro. Hoje se faz de uma forma, amanhã de outra. Hoje
são alguns materiais o essencial, ontem foram outros, e amanhã
serão terceiros. Assim, tudo é possível, tudo pode
ser construído, modificado. Mas como ser autor de si mesmo num
mundo com tantos modelos, formas, regras? Qual a melhor forma?
Nas partilhas (consultas) em filosofia clínica é possível
observar que não há uma forma única, melhor ou pior
em si mesma. Há formas, há contextos, há pessoas.
Para alguns, em determinados contextos, os mesmos materiais recebem formas
distintas; para outros, são os materiais que necessitam ser modificados.
A questão é: o que se quer fazer? Para onde se dirigir?
Quais os caminhos possíveis, existentes ou a serem construídos?
O que é necessário para trilhá-los?
As diferentes condições, assim como as diferentes formas
de ser e de lidar com as questões provocam a diferença e
a fazem legítima. Ao mesmo tempo em que é acalentador saber
que há todas as possibilidades diante de nós, é desesperador
percebê-lo, e pode ser mais desesperador considerar a responsabilidade
por nossas escolhas e movimentos. Como você constrói o seu
existir? Como escolhe seus modos de vida? Você se considera autor
de sua própria vida? Se não, quem é o responsável
pelos modos de sua existência?
Referências Bibliográficas:
DENNETT, D. Brainstorms. São Paulo: UNESP, 2006.
FOUCAULT, M. A hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins
Fontes, 2010.
_____. O nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes,
2008.
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