| "Na segunda consulta,
a mesma pessoa me disse: já chorei bastante antes de vir pra
cá, pra ver se não choro hoje, e ao dizer isso já
estava chorando. E assim se passaram as sucessivas consultas. Depois
das pesquisas, constatei que o choro era, simplesmente, um dado de
expressão que acompanhava seu relato, sem com isso significar
alterações significativas em seu estado emocional" |
Uma leitora enviou a pergunta: “Na sua opinião,
o que faz uma pessoa ser sentimental, chorar por qualquer coisa?”.
Num primeiro momento eu responderia: não sei, depende. Dizem
meus alunos e colegas da filosofia clínica que essa é
a expressão que mais uso. Talvez por inspiração
délfica “sei que nada sei, de tudo quanto sei”,
ou por desconfiar de minhas próprias convicções,
como é próprio daqueles que se dedicam à filosofia.
Num segundo momento... ainda não sei. |
Essa é sempre a postura inicial de um filósofo clínico
diante de uma pergunta dessa natureza. Primeiro precisamos saber quem
é essa pessoa a qual a leitora se refere. Mas isso seria insuficiente,
precisaríamos, ainda, conhecer tal pessoa por ela mesma, compreender
o significado de chorar em cada situação em que o choro
aparecesse em sua história. Talvez, a partir desses dados, pudéssemos
saber por quais motivos a pessoa chora, mas, ainda assim, necessitaríamos
saber quais os contextos em que chora, pois esses motivos poderiam ser
distintos, dependendo de cada contexto.
Choro: possíveis causas
Uma mesma pessoa pode chorar porque está com raiva, com medo, decepcionada,
magoada, feliz, e muitas outras formas de emoção. Seu choro
pode ser um desabafo, um pedido, uma chantagem, um modo de se expressar.
Pode chorar por estar sensibilizada diante de uma situação
de sofrimento alheio, pode chorar pelo próprio sofrimento, ou seu
choro nada ter a ver com sofrimento.
Alguém pode chorar por ser sensível, por ser insensível,
por ser frágil, por ser forte, por ser odiado, por ser amado...
há muitos e diferentes motivos para se chorar, e também
para não chorar.
Relativismo: o que é extremamente importante para um,
pode não ter significado nenhum para outro
Ao afirmar que alguém chora por “qualquer coisa”, o
que é “qualquer coisa”? Na clínica filosófica,
acompanhamos o histórico de vida da pessoa e, a partir dele, podemos
observar como ela vê o mundo, a si mesma, aos outros, o que ela
valoriza, o que é importante a ela, como ela se expressa, quais
são suas verdades, suas emoções, como se dá
sua construção de conhecimento, entre outros tantos aspectos
observáveis. É fantástico descobrir como aquilo que
para nós é insignificante pode ser uma questão de
vida ou morte para o outro; como o que nos toca, nos emociona, nada significa
para o outro; como nossas formas de conhecimento são precárias
e insuficientes para as necessidades do outro (e às vezes para
as nossas), como suas e nossas verdades são questionáveis
e mutáveis...
Mais interessante é observar como o choro, muitas vezes, nos desconcerta,
nos deixa sem ação. Em outras, nos convence. Pode também
nos enraivecer. Há quem se envergonhe por chorar, como quem se
orgulhe disso, há também quem se odeie a cada lágrima
derramada. Há quem chore pedindo colo e quem o faça pedindo
um chacoalhão. Há quem chore pedindo perdão, e aquele
que chora desejando um pedido de perdão. Como você lida com
o choro alheio? E com seu próprio choro?
Qual o significado de chorar para você?
Imagino que, muito provavelmente você respondeu essas questões
de diferentes maneiras. Há situações em que se chora
por dor, por desespero, por saudade, por tristeza, por... todos os motivos
que preenchermos aqui serão válidos. Para compreendermos
o motivo de um choro, precisaríamos contextualizá-lo, mas
talvez muito mais que isso, necessitaríamos perguntar a quem chora:
por que você chora? Mas talvez não seja o caso de compreender
motivos, talvez eles nem existam.
Você já chorou sem motivos, ou sem saber identificar claramente
os motivos? Veja, eis mais uma possibilidade: chorar, chorar às
vezes desesperadamente, e não saber se há motivos para tal.
Não chorar por algo, simplesmente chorar.
Certa vez atendi uma pessoa que chorava muito, logo na primeira consulta
– isso ocorre com certa freqüência. Aparentemente, não
havia motivos para o choro e não havia um sentido explícito
para tal manifestação. Começou a contar sua história
e o simples relato do cotidiano era acompanhado de um profundo e sentido
choro. Vislumbrei uma tragédia, algo terrível que fizesse
essa pessoa chorar, mas nada havia em seu histórico a respeito.
A própria pessoa me dizia que sentia vontade de chorar ao contar
sua história, mas não sabia, exatamente, o que lhe provocava
tal vontade. Ficava constrangida com o excesso de choro, e continuava
chorando. Ficava mais constrangida ainda na hora de ir embora, com os
olhos inchados de tanto chorar, mas apesar do constrangimento, dos olhos
inchados, afirmava estar bem.
Na segunda consulta, a mesma pessoa me disse: já chorei bastante
antes de vir pra cá, pra ver se não choro hoje, e ao dizer
isso já estava chorando. E assim se passaram as sucessivas consultas.
Depois das pesquisas, constatei que o choro era, simplesmente, um dado
de expressão que acompanhava seu relato, sem com isso significar
alterações significativas em seu estado emocional. Num outro
caso, a pessoa chorava, da mesma maneira, mas chorava pelas perdas sucessivas
ocorridas em sua vida. Chorava a dor de ter perdido seus amores, seus
queridos.
Você já teve seu choro mal interpretado? Chorou, então
é culpado! Chorou pra me chantagear. Chorou porque é um
fraco. Chora por que não tem estrutura... e muitos outros comentários.
Lembra como se sentiu nessas situações?
Talvez esse seja um bom motivo para você não interpretar
o choro alheio, e sim permitir-se acolher, acompanhar e compreender aquele
que chora. Ouvir o que seu choro lhe diz, ao invés de lhe atribuir
significados que talvez não lhe caibam.
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