| O segundo tópico
da Estrutura de Pensamento (clique
aqui) chama-se O que acha de si mesmo. Neste tópico,
observamos, como diz o nome, o que a pessoa acha a respeito de si mesma.
Perceba que isso não significa o que a pessoa é, o que outros
pensam a seu respeito, mas como vê a si mesma.
| Como você se vê?
O que acha de si mesmo? É compatível com o que pensam
a seu respeito? É compatível com o que você realmente
é? E com o que busca para sua vida? |
É comum, no discurso contemporâneo,
a ênfase ao autoconhecimento: conhecer a si mesmo é fundamental
para que a pessoa possa se situar no mundo, saber quem é é
de extrema importância para atingir a felicidade, e outras afirmações
similares. |
Contudo, muitas vezes nos deparamos com pessoas que não
conseguem olhar para si mesmas, pessoas para as quais conhecer-se gera
muito sofrimento. Com isso afirmo que, em filosofia clínica, verificaremos
se o tópico tem peso, se é ou não determinante para
a pessoa. Para alguns, trata-se de um tópico sem importância,
para outros é um tópico fundamental.
Partamos do “conhece-te a ti mesmo” socrático-platônico.
Conhecer a si mesmo, para Platão, significava conhecer seus processos
de pensamento, buscando, dentro de si, os melhores caminhos para orientar
a vida, tanto a vida pública, quanto a vida pessoal. Se recortarmos
somente este aspecto, esta ideia, e a considerarmos isoladamente, correremos
o risco de uma interpretação totalmente equivocada.
Muitos confundem a frase “conhece-te a ti mesmo” com a ideia
de um autoconhecimento no sentido em que propagamos atualmente: conhecer
seu íntimo, sua subjetividade. No pensamento platônico, não
se trata disso, pois o conhecimento existente em cada um de nós
é o mesmo. Observe: o conhecimento existente dentro de mim é
o mesmo que existe dentro de você. A consequência disto é
que, se trilharmos o caminho correto nesta busca, encontraremos as mesmas
respostas.
Isso só é possível quando consideramos a universalidade
da verdade e das formas de ser do ser humano. A singularidade manifesta
o sensível, o aparente. A profundidade de buscar em si o verdadeiro
conhecimento nos leva a encontrar o caminho do bem.
Poderíamos, ainda, interpretar mal esse discurso, considerando
Platão como um dogmático que propõe ter a posse da
verdade. Isto está muito longe da proposta platônica. Apesar
de termos em nós todo o conhecimento que necessitamos, não
há como nos certificarmos de tê-lo atingido. Ficamos sempre
na dependência do outro que nos provoca com seus questionamentos,
com seu modo de ser diferente do nosso, e nos leva a re-pensar
nossas conclusões, nossas formas de organização e
de vida.
Não se trata de aceitar cegamente as provocações
alheias, nem se trata de ser absorvido pelas ideias do outro. Trata-se,
menos ainda, de impor ao outro um modo de ser. Sua proposta é um
constante diálogo, através do qual temos a oportunidade
de refletir acerca de nossos pensamentos, sentimentos, decisões,
ações e posicionamentos.
Espelho, espelho meu...
Você costuma se olhar no espelho? Já percebeu algo diferente
ao fazer isso? E se o seu espelho for o outro? Você já percebeu
algo diferente em si mesmo porque o outro direcionou seu olhar? Por que
o outro lhe questionou acerca de algo? Por que o outro, simplesmente por
ser diferente de você, lhe colocou diante de algo acerca do que
jamais pensou?
Platão, ao apresentar a necessidade do outro para que possamos
nos conhecer, mostra a possibilidade de erro quando tentamos trilhar o
caminho do conhecimento sozinhos. Podemos, de fato, nos enganar, inclusive
sobre nós mesmos. Mas quais os critérios que utilizamos
para formar uma concepção sobre nós mesmos?
Há pessoas que, diante de si mesmas, veem um ser frágil,
incapaz de se posicionar, de assumir suas decisões, de encaminhar
ações. Consideram-se tímidas, envergonhadas, sem
potencial e muitos outros atributos que as tornam menores diante de outros.
Dizemos, frequentemente, que tais pessoas tem a autoestima muito baixa.
Quando isso é apenas um achar, uma avaliação equivocada
de si mesmo, e quando é uma constatação?
Outras pessoas consideram-se fortes, imbatíveis, capazes de lidar
com quaisquer tipos de problemas, de enfrentar todas as formas de desafio.
Como saber se isso é apenas uma imagem que constroem de si mesmas
ou se, de fato, são assim?
É possível que a mesma pessoa tenha, sobre si mesma, as
duas descrições acima citadas, em situações
distintas? Ou se uma pessoa é forte, o é em todas as situações?
Se deixar de sê-lo em um único aspecto, é sinal de
que se enganou acerca de sua força? Ou se trata, apenas, de uma
questão circunstancial?
| Quando consideramos tais aspectos em clínica,
avaliamos sempre a partir de cada circunstância, de cada contexto.
Dificilmente encontramos alguém forte em todos os contextos,
em todas as relações; assim como dificilmente encontramos
alguém frágil em todos os aspectos de sua existência.
|
Da mesma forma, momentos diferentes da vida propiciam olhares
diferentes sobre si mesmo, e a perspectiva a partir da qual nos observamos
também interfere em nossa avaliação sobre nós
mesmos. O grau de exigência, anterior a qualquer contexto ou relação,
também influencia muito na avaliação do que uma pessoa
acha de si mesma.
Em filosofia clínica, assim como no primeiro tópico da Estrutura
de Pensamento – Como o mundo parece – , a fundamentação
do tópico O que acha de si mesmo (clique
aqui) encontra-se em aspectos fenomenológicos. Partindo
do conceito de representação proposto por Schopenhauer (ver
artigo percepção da realidade e do mundo é ilusória
- clique aqui),
o que acha de si mesmo é também uma representação
da pessoa, e é ela que interessa ao filósofo clínico:
como a pessoa se vê.
Quando nos vemos, vemos a partir de nossos referenciais, de um horizonte
constituído a partir de tudo aquilo que já experienciamos,
que vivenciamos. Quando nossas vivências são diferentes das
de outras pessoas com as quais nos relacionamos, podem ocorrer choques
de representação. Por exemplo, a pessoa é de uma
maneira diante de seu próprio olhar, e o oposto disso diante dos
olhos dos pais, ou dos amigos. Constitui-se um choque quando tais diferenças
causam dificuldades, conflitos à pessoa. Pode também ocorrer
da representação que a pessoa tem de si ser muito diferente
do que a pessoa de fato é.
Mas tais pontos somente serão trabalhados clinicamente se estiverem
relacionados aos objetivos clínicos. A disparidade entre representações
pode não ser um problema, nem interferir no modo de ser da pessoa.
Há casos em que interfere, mas de forma, propiciando movimentos
existenciais desejados.
Como você se vê? O que acha de si mesmo? É compatível
com o que pensam a seu respeito? É compatível com o que
você realmente é? E com o que busca para sua vida?
Referências Bibliográficas:
PLATÃO. A República. São Paulo: Abril Cultural, 2004.
_____. Teeteto. Belém: UFPA, 1988.
SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. São
Paulo: UNESP, 2
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