Filosofia
Dicas para quem busca seu bem-estar no movimento da vida

Qual é o sentido da existência?

por Monica Aiub


“O homem é um ser para a morte”
(Martin Heidegger)
Diante de situações trágicas, como a morte, muitas vezes a existência parece perder o sentido. Aquilo que era importantíssimo e que não poderia ser deixado para trás, aquilo que queríamos fazer e foi sufocado pela falta de tempo ou pela necessidade imprescindível, aquilo que se não fizéssemos, o mundo acabaria. Tudo isso deixa de ter significado diante da morte. O mundo não acaba, tudo é deixado para trás, o tempo não mais importa, sequer a necessidade. Simplesmente, não existimos mais.

Independentemente das crenças que cultivamos sobre vida após a morte, tratemos desta vida: a que temos e vivemos aqui. Se vamos morrer, qual o sentido da vida? Por que fazemos as coisas que fazemos?

Somos seres finitos, morremos. Contudo, não sabemos, exatamente, quando e como morreremos; e fazemos planos, projetos de vida, como se fôssemos imortais. Às vezes pensamos na morte por questões práticas: como ficará minha família? Preciso fazer um seguro de vida, preciso de um plano de previdência. Como será meu funeral? Preciso de um seguro funeral, ou seja, deixar tudo pronto para que as pessoas não se embaracem diante de uma situação já desagradável. Há também aqueles que preparam o ritual com minúcias e cuidados: uma última cerimônia.

Há aqueles que pensam na morte constantemente, e basta que algo não saia como o seu desejo para anunciarem o fim. Para outros, a morte é a saída, é o fim do sofrimento, é seu maior desejo. O que faz com que algumas pessoas desejem por fim à sua vida?

Já presenciei no consultório pessoas que tentaram o suicídio por causa do término de um relacionamento, ou porque estavam extremamente insatisfeitas com seu cotidiano. Em geral, amigos e pessoas próximas costumam dizer: que bobagem! Por causa de uma tolice! A vida é bem mais que isso! O que, na maior parte das vezes só faz aumentar o sofrimento, pois o que incomoda a pessoa é tão intenso que a vida perde o sentido. Mas há um sentido para a vida?

Na Antiguidade, era comum a crença no destino, um destino traçado pelos deuses que intervinham diretamente na vida humana. O destino inexorável contra o qual nada se poderia fazer. Cumpri-lo era a tarefa humana. Alguns heróis desafiavam-no, mas dificilmente conseguiam fugir dele.

Com o advento da filosofia, o ser humano passa a ser responsável por conduzir sua existência, num primeiro momento, de acordo com princípios e fundamentos universais. Não há determinação, há deliberação. Assim, as escolhas humanas propiciam o sentido da existência. Conhecer os princípios e fundamentos do universo é necessário para dar o sentido correto à existência. Como o percurso solitário no caminho do conhecimento pode ser enganoso, o diálogo investigativo faz-se preciso para a descoberta de sentidos adequados à humanidade. Nossa responsabilidade passa a ser, não apenas sobre nós mesmos, mas sobre a humanidade e o universo.

"Como afirmou Sartre, o que importa, não é o que fizeram conosco, mas o que fazemos com o que fizeram conosco" Na Modernidade, com o surgimento da idéia de sujeito, um sujeito pensante e distinto dos outros seres e objetos do universo, o sentido da existência passa a ser dado por esse sujeito racional e universal. Ou seja, a lógica e a razão determinam o sentido da existência.


Nossa história é acompanhada de questionamentos sobre os limites dessa razão e, principalmente, sobre seu poder em determinar o sentido da vida. Se na qualidade de seres biológicos pudéssemos controlar nosso organismo, através de meios puramente racionais, talvez conseguíssemos evitar a morte.

Parece que a ciência muito investiu e investe nesse sentido. E conseguimos grandes avanços. A expectativa de vida aumentou graças à tecnologia desenvolvida para os cuidados com a saúde; foram criados diversos instrumentos para aumentar nossa qualidade de vida; enfim, queremos viver mais. Queremos mesmo? Para quê?

Somos seres minúsculos diante da grandeza do universo, muito do que gostaríamos de fazer se torna impossível diante de nossos limites. Quando conhecemos as possibilidades existentes no universo, ou quando conhecemos elementos necessários para construir novas possibilidades, ampliamos nossos limites.

A ampliação, por si só, não representa um sentido adequado e suficiente para justificar a vida. Poderíamos pensar em ampliação dos limites humanos, em mergulho nas intensidades do universo, mas isso traz uma tendência a ir além de nós mesmos.

Talvez o sentido esteja, exatamente, além de nós mesmos, e precisemos descobrir o que nos transcende para compreendê-lo. Talvez não tenhamos condições de captar ou de compreender o que nos transcende, pois nosso aparelho mental e perceptivo não permite.

Restando-nos a opção de um sentido que é dado por nós. Entre o momento que nascemos e o momento que morremos, o que fazemos com nossa vida? Qual a nossa contribuição para nós mesmos? Nos tornamos seres melhores? Melhores em quê? Qual a nossa contribuição para a humanidade? E para o universo? Buscamos dar um sentido à nossa vida ou esperamos que os deuses o determinem?

Talvez a melhor resposta que possamos encontrar esteja na filosofia sartreana, que afirma ser a vida um acaso, que estamos jogados no mundo, e que não há sentido na existência. Trata-se então de um pessimismo que nos levará à inércia, à espera pela morte? Ao contrário. Pelo fato de não existir um sentido prévio, pelo fato de estarmos lançados no mundo ao acaso, somos nós os responsáveis pela construção daquilo que somos e vivemos.

Se não estamos satisfeitos com nossas vidas, podemos modificá-las, transformá-las. Podemos desconstruir modos de ser e construir novos. Lembrando, é claro, que nem tudo depende de nossa decisão. Necessitamos conhecer o entorno que nos circunda para nos situarmos e nos construirmos, modificando o mesmo entorno e a nós mesmos.

Como afirmou Sartre, o que importa, não é o que fizeram conosco, mas o que fazemos com o que fizeram conosco.

Portanto, talvez fosse mais sensato, antes de dizer a si mesmo que não pode ser como é ou viver o que deseja, ou afirmar que está preso às situações, perguntar-se: pode ser diferente? O que aconteceria se eu escolhesse outro caminho? Quais são os caminhos possíveis?

Outro ponto importante é que nem sempre conseguimos vislumbrar novos caminhos, por isso, o diálogo com o outro, acerca do mundo e suas possibilidades, é sempre enriquecedor, amplia nossos horizontes; desde que estejamos dispostos a ouvir.

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Monica Aiub
é Filósofa Clínica e Mestre em Filosofia da Mente (UFSCAR-SP)
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