| Há quem aponte
como característica do mundo contemporâneo a fragmentação:
“ Somos seres fragmentados em um mundo fragmentado”. Em pedaços
espalhados pela vida, tentamos, em vão, encontrar algo que una,
ligue, compacte.
Recebo, no consultório, pessoas que sofrem com a
sensação de fragmentação, que lutam para encontrar
“sua identidade”, “seu ser”. Mas recebo também,
no mesmo consultório, pessoas que encontram no fragmentar-se um
modo de vida, uma forma de ser, que encontram uma identidade fragmentada
ou, simplesmente, são estes muitos fragmentos espalhados pela vida.
| "Encontro pessoas extremamente
insatisfeitas com suas vidas, acreditando que não é
possível viver de outra forma. Encontro também pessoas
que estão insatisfeitas com suas vidas, mas acreditam que necessitam
sonhar, re-inventar suas formas de vida. O mundo lhes parece um universo
de possibilidades" |
Um motivo de fragmentação, por vezes,
encontra-se nas escolhas que a pessoa faz no decorrer de sua vida.
Escolheu um caminho e o percorreu e, de repente, surge a possibilidade
de, ao invés deste caminho, ter percorrido outro, completamente
diferente. Imagine-se hoje, reencontrando seu passado, com a possibilidade
de voltar “o filme da vida” e reinventá-lo, em
moldes completamente diferentes. |
Se ao invés de ter se dirigido a sua área
de trabalho atual tivesse feito a escolha que deixou para trás,
se ao invés de ter viajado tivesse se casado com aquela pessoa
que você nunca mais viu, etc. Onde você estaria hoje? Mas
estas idéias são apenas uma ficção. Não
há como saber se teria sido melhor, se teria dado certo. Assim
como, no momento de nossas escolhas, não há como saber se
elas nos levarão ao lugar existencial para o qual desejamos nos
dirigir.
Além disso, as paisagens que construímos no momento em que
definimos nossas escolhas nem sempre possuem condições de
satisfação, ou seja, muitas vezes pintamos um quadro muito
melhor ou muito pior. Temos como saber se as possibilidades que imaginamos
se concretizarão? Há situações em que possuímos
elementos que nos permitem avaliar com mais clareza a existência
das possibilidades, os passos necessários para concretizá-las,
mesmo assim não há garantias de efetivação
de tais possibilidades.
"Não era tudo isso"
Contudo, há situações em que idealizamos as possibilidades
e escolhemos caminhos acreditando nelas, apesar de não possuirmos
condições para satisfazê-las. Então, nos dirigimos
para certas escolhas e, uma vez realizadas, ficamos insatisfeitos com
elas, como se desejássemos muito ir a um lugar que imaginamos ser
fantástico, maravilhoso, e ao chegarmos lá constatássemos
que “não era tudo isso”.
O que fazer quando, diante de nossa própria vida, constatamos que
o lugar existencial que construímos para nós “não
era tudo isso”, “não é o que desejaríamos
que fosse, “não atende a nossas necessidades existenciais”?
Para alguns tal constatação leva à descrença
absoluta: “nada é o que parece ser”, “não
há saída”, “qualquer sonho, qualquer busca,
tudo isso é ilusão”... Alguns significam esta constatação
como a inexistência de caminhos, enquanto outros a significam como
a possibilidade de rever a vida e encontrar novos caminhos, a possibilidade
de re-inventar-se.
Encontro pessoas extremamente insatisfeitas com suas vidas, acreditando
que não é possível viver de outra forma. O mundo
lhes parece cruel, difícil, triste, indigno. O outro lhes parece
corrupto, injusto, predador. As condições lhe parecem inóspitas.
Somos, a seus olhares, sobreviventes de um mundo em guerra, vivendo a
miséria da existência.
Mundo pode ser um universo de possibilidades
Encontro também pessoas que estão insatisfeitas com suas
vidas, mas acreditam que necessitam sonhar, re-inventar suas formas de
vida. O mundo lhes parece um universo de possibilidades. O outro lhes
parece ser simplesmente outro, alguém com quem se pode aprender
um novo olhar. As condições são apenas condições,
nós podemos construir muitas coisas a partir delas. Somos, a seus
olhares, seres criativos com um universo imenso de possibilidades diante
de nós, vivemos a fortuna da existência.
Entre estes extremos, todos os graus de variação são
possíveis. Como o mundo parece para você? E o outro? Como
você avalia tudo o que viveu até o momento? Já constatou
elementos que gostaria de modificar no mundo a sua volta? Sua leitura
do mundo, comparada a de outras pessoas, é mais ou menos correta?
De que maneira a leitura que você faz do mundo, as crenças
que constitui sobre ele, direcionam seu existir?
Vimos no texto Entenda a estrutura de pensamento - (clique
aqui) que a estrutura de pensamento de uma pessoa é
plástica, flexível, e há muitas possibilidades de
articulação. Obviamente, as questões colocadas no
parágrafo anterior podem ser respondidas de maneiras muito diferentes,
dependendo das circunstâncias, do momento, de quem é este
outro com o qual nos relacionamos, e de muitos outros fatores. Além
disso, pessoas em circunstâncias similares podem ver o mundo de
maneiras diferentes, podem reagir de formas distintas. Há os que
diante de adversidades fogem, escondem-se; há os que enfrentam;
há os que buscam alternativas, e há aqueles que optam por
estas e muitas outras formas de lidar com as questões.
Cada ser é único
Retorno aqui ao discurso da singularidade, ao mesmo tempo em que insisto
em destacar que somos seres singulares situados no mundo, ou seja, as
condições de satisfação de nossas crenças
sobre o mundo possuem um papel fundamental na constituição
daquilo que somos, mas não são, necessariamente, determinantes.
Ao estudarmos a estrutura de pensamento de uma pessoa, a forma como ela
vê o mundo é apenas um tópico: Como o mundo parece.
Este primeiro tópico diz respeito a “como parece” e
não necessariamente “como é”. Afinal, existe
a possibilidade de conhecermos o mundo “tal qual ele é”?
O mundo é suficientemente estático para dizermos que ele
é de determinada maneira e orientarmos nossas vidas a partir disto?
Ou há possibilidades do mundo vir a ser de outras maneiras, dependendo
do que fizermos dele? Podemos construir o mundo à nossa maneira?
Quais as conseqüências de cada uma destas crenças sobre
o mundo em nossas vidas?
O primeiro ponto que desejo ressaltar aqui é que não trabalhamos,
em filosofia clínica, com questões isoladas, nem fazemos
a leitura dos tópicos isoladamente. O passo inicial de um filósofo
clínico é fazer os Exames Categoriais. Em outras palavras,
quando constatamos o funcionamento de cada tópico – e utilizemos
aqui o primeiro deles como exemplo: Como o mundo parece, consideramos
este tópico a partir das categorias: assunto, circunstância,
lugar, tempo e relação. Consideramos também as relações
inter e intratópicas (os 30 tópicos da estrutura de pensamento),
assim como as formas que a pessoa faz uso para lidar com suas questões
(submodos).
Com isso, destaco que não se trata de uma leitura fragmentada do
ser humano, mas também não descartamos a possibilidade de
encontrarmos tópicos soltos, fragmentos significativos que, por
si, sejam capazes de movimentar uma vida.
Não é o caso de traçarmos como objetivo clínico
a fragmentação ou seu oposto, não defendemos a necessidade
de sermos unos ou múltiplos, simplesmente buscamos a compreensão
dos diferentes e legítimos modos de ser, e constatamos que, às
vezes, fragmentar-se é uma destas formas. Estar fragmentado pode
se constituir num problema, ou ser a solução encontrada
para viver as possibilidades de ser.
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