| "Poderíamos,
então, construir, a partir de nossos hábitos, suposições,
pressuposições e posturas, diferentes significados para
nossas palavras, gestos, imagens ou formas? Para nos entendermos,
precisaríamos minimamente compreender os hábitos, suposições,
pressuposições e posturas do outro" |
John Searle, no livro “Mente, linguagem e sociedade,”
questiona como atribuímos significado a uma rajada de sons
que sai de nossas bocas. De um lado, como aquele que emite tais sons
os significa? Qual a direcionalidade de sua fala? O que pretende com
ela? O que significa para ele emitir tais sons? Por outro lado, como
o ouvinte significa os sons que recebe? |
Qual a direcionalidade de sua atenção para o que ouve?
O que significa para ele ouvir tais sons em tais contextos?
Como tratamos de sons emitidos em contextos, que trazem, juntamente consigo,
entonações, expressões faciais, gestuais, corporais,
associam-se a outros sons também emitidos no mesmo ambiente, trazem
estruturas linguísticas próprias, que podem significar diferentes
elementos, não é possível tratar apenas do som mas,
principalmente, de suas formas de significado.
Ao tratar dos atos da fala, Searle nos mostra que o falante pode simplesmente
falar. Pode também desejar que sua fala provoque a ação
do ouvinte, mas nem sempre isso ocorrerá. Para atingir tal objetivo,
é preciso que encontre o que ele denomina como “condições
de satisfação”. Por exemplo, eu desejo provocá-lo
a ler o livro de Searle, por isso, escrevo este texto tratando de tais
questões. Entre os vários leitores do texto, talvez alguns
tenham disposição e interesse por tal leitura e sintam-se
estimulados a realizá-la. Mas, provavelmente, muitos dos leitores
não terão interesse, e não procurarão o livro
de Searle para ler.
Imagine agora você, falando com alguém de suas relações,
pretendendo que esta pessoa tome uma atitude a partir de sua fala. Você
precisa dar uma ordem? Ou basta perguntar algo? Se der uma ordem, isso
levará à ação? Ou é necessário
que você faça outro tipo de intervenção para
obter a ação que deseja? Agora observe você e sua
conduta. Que tipo de fala, vinda de quem, em quais contextos, é
capaz de movimentar-lhe? Quantas vezes você ouviu queixas das pessoas
com quem convive, dizendo que você não escuta, e querendo,
dessa maneira, significar que suas falas não têm impacto
sobre suas ações?
Consideremos os contextos de tais falas. Há um contexto socialmente
traçado que exige, em alguns casos, que algumas falas levem a algumas
ações. Se você simplesmente desconhecer tais contextos,
essas falas talvez não tenham, para você, tais significados.
Se você partir de princípios diferentes daqueles estabelecidos
em tais contextos, talvez você signifique essas falas de modo diverso,
possivelmente até contraditório àquilo que se espera.
Por outro lado, se você compreender tais significados, mas não
tiver disposição para a ação, aquela fala
não terá o poder esperado para mover-lhe. Quantas vezes
você compreendeu o que o outro desejava com sua fala, mas simplesmente
optou por não atender ao que lhe foi pedido ou ordenado?
Posições padrão
Assim, voltando ao texto de Searle, ele aponta para um mundo real no qual
nos inserimos, com suas chamadas “posições padrão”,
que são as crenças a partir das quais lemos este mundo.
Não as questionamos, apenas partimos delas como padrões
que aceitamos. Além delas, faz-se necessário observar as
“condições de satisfação”, ou
seja, se na realidade na qual nos inserimos, aquilo que pensamos pode
ser efetivado. E mais, se aquilo que desejamos provocar com nossa fala
encontra possibilidade de efetivação no mundo, através
de nossa fala. Contudo, a observação de nossos estados intencionais
depende de nossa intencionalidade, ou seja, de nossa direcionalidade,
no sentido que nos permite, observando uma mesma experiência, focalizar
nossa atenção num ou noutro ponto.
Assim, poderíamos definir, grosso modo, a intencionalidade como
nos apresenta Searle no livro Intencionalidade, como “aquela
propriedade de muitos estados e eventos mentais
pela qual estes são dirigidos para, ou acerca de, objetos e estados
de coisas no mundo”. A intencionalidade é, portanto, fundamental
para a atribuição de significados, pois dependendo da direcionalidade,
poderemos atribuir diferentes significados à mesma palavra ou ao
mesmo evento.
Além disso, há para Searle, o background, ou seja, o know-how,
ou ainda, um background de base, comum a todos os seres humanos, tal como
nossa constituição biológica básica; e um
background local, relativo a práticas culturais locais. Em outras
palavras, o modo como vejo o mundo e o modo como faço as coisas.
Daí deriva-se que, ainda que possuamos sentenças semanticamente
perfeitas, elas serão incompreensíveis, exceto se contextualizadas
em seu plano de verdade, ou seu pano de fundo. É o background,
assim compreendido, um fator fundamentalmente biológico ou um fator
social?
“O background, portanto, não é um conjunto de coisas
nem um conjunto de relações misteriosas entre nós
e as coisas, mas simplesmente um conjunto de habilidades, suposições
e pressuposições pré-intencionais, posturas, práticas
e hábitos. Tudo isso, até onde se sabe, é realizado
nos cérebros e corpos humanos. Não há absolutamente
nada de ‘transcendental’ ou ‘metafísico’
acerca do background, no sentido em que estou empregando o termo”
(Searle, 1995: 213-214).
O background proporciona um conjunto de condições para o
funcionamento de formas particulares de fundação da intencionalidade,
e essa difere de outros fenômenos biológicos por ter uma
estrutura lógica. Poderíamos, então, construir, a
partir de nossos hábitos, suposições, pressuposições
e posturas, diferentes significados para nossas palavras, gestos, imagens
ou formas? Para nos entendermos, precisaríamos minimamente compreender
os hábitos, suposições, pressuposições
e posturas do outro. Precisaríamos, também, acompanhar suas
formas de intencionalidade e, ainda, compreender o real a partir de uma
mesma estrutura lógica. Você costuma fazer todo esse exercício
cotidianamente? Como evita o mal entendido?
Referências Bibliográficas:
Searle, J. A redescoberta da mente. São Paulo: Martins Fontes,
2006.
_____. Expressão e significado. São Paulo: Martins Fontes,
2002.
_____. Intencionalidade. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
_____. Mente, linguagem e sociedade. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
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