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"Há pessoas
que possuem um “MP3 ligado” o tempo inteiro no interior
de suas cabeças, de seus ouvidos. Nesse “aparelho”
há sequências de músicas, há trechos
que se repetem, há músicas que tocam concomitantemente,
há ideias, gritos, sussurros, expressões. Há
projetos inteiros, fragmentos de realidade, partes de sonhos, ideias
que se movem sutilmente e transformam-se em outras ideias"
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Ação é um tópico,
em filosofia clínica, no qual são observados movimentos,
ritmos, cadências do pensamento. Observe que faço uso
de uma terminologia musical: movimentos, ritmos, cadências,
ao me referir ao pensar. Qual seria o motivo de tal escolha? |
Faça um breve exercício: fique em silêncio e tente
ouvir e registrar todos os sons que você conseguir captar durante
cinco minutos. Pronto? Além dos sons captados e registrados, quantas
ideias lhe surgiram nesses cinco minutos? Em que você pensou enquanto
fazia esse exercício? Se pensou em algo além do exercício
de captar sons, isso significa que não estava suficientemente concentrado?
Significa que não fez o exercício como deveria? Não
conseguiu concentrar sua atenção no que foi solicitado?
Agora tente, simplesmente, silenciar, sem preocupações.
Quantas ideias lhe chegam naturalmente? Há pessoas que andam
nas ruas com um MP3 ligado nos ouvidos o tempo inteiro. Músicas
atrás de músicas. Há pessoas que possuem um “MP3
ligado” o tempo inteiro no interior de suas cabeças, de seus
ouvidos. Nesse “aparelho” há sequências
de músicas, há trechos que se repetem, há músicas
que tocam concomitantemente, há ideias, gritos, sussurros,
expressões. Há projetos inteiros, fragmentos de realidade,
partes de sonhos, ideias que se movem sutilmente e transformam-se
em outras ideias. Há outras que saltam de um ponto a outro
sem aviso, sem licença.
Você conseguiria registrar tudo o que se passa em suas ideias
durante cinco minutos? Assim como em diferentes composições
musicais, alguns registrariam um longo e interminável silêncio.
Outros um profundo e acalentador silêncio. Alguns pontuariam ideias,
destacariam, entre as linhas alguns pontos superficiais, alertando para
a profundidade da sequência do pensar. Outros, ainda, relatariam
a impossibilidade de anotar algo, visto a espantosa velocidade com que
os pensamentos transcorreram. E essas seriam apenas algumas das inúmeras
possibilidades de resposta.
Se lhe perguntassem como é o ritmo de seu pensamento, o que você
responderia? Você pensa rápido? É mais lento no encadeamento
de ideias? Ou depende dos conteúdos pensados, dos contextos
e de seu próprio estado existencial?
Ritmo do pensamento é variável
Assim como o ritmo dos batimentos cardíacos é variável,
o ritmo de nossos pensamentos também. Se fortes emoções
são capazes de acelerar ou até mesmo paralisar os batimentos
cardíacos, as mesmas fortes emoções podem acelerar
ou até mesmo paralisar nossos pensamentos. Mas não são
apenas as emoções que aceleram ou retardam nosso pensar.
Há inúmeros fatores que contribuem para dar um ritmo ou
uma cadência a nossos pensamentos.
Composição musical = ritmo + melodia (sons sucessivos)
+ harmonia (acordes/sons simultâneos)
Numa composição, além do ritmo, da melodia, temos
a harmonia. Cadências de acordes que se seguem uns aos outros, numa
espécie de condução harmônica. Blocos de sons
que se organizam e situam constituindo a composição. Há
composições que se organizam em tons, outras são
atonais. Há composições cuja cadência harmônica
é riquíssima, contando com modulações e uso
de muitos recursos, outras contam com apenas dois ou três acordes
destacando uma “pobreza” harmônica.
Imagine seus pensamentos como várias composições
que se dão ao mesmo tempo. Algumas mais ricas harmonicamente, outras
menos; algumas mais dissonantes, outras em diferentes escalas modais -
variações sonoras). Você consegue perceber em quantas
coisas é capaz de pensar ao mesmo tempo? Você consegue identificar
padrões em sua forma de pensar?
Mudando radicalmente a analogia, pensemos agora nos sistemas de informação
e na elaboração do conhecimento. Com o excesso de informações
que recebemos e temos à disposição na Internet, por
exemplo, como selecionar, organizar? Criamos os sistemas estabelecendo
critérios de identificação de padrões, e os
utilizamos para selecionar, organizar e compor essas informações,
produzindo novos conhecimentos.
Num universo infinito de dados, são os padrões que nos permitem
alguma conclusão. E em nossos pensamentos, utilizamos padrões?
Se os padrões propostos não forem os mais adequados para
o que buscamos, nos deparamos com informações completamente
distantes e conclusões equivocadas. E quanto aos padrões
de nosso pensar? Os conhecemos? Eles nos levam a selecionar as informações
adequadas? A organizá-las de maneira a chegarmos a conclusões
adequadas a nossos problemas?
Terapia: organização de ideias
No consultório é comum encontrar pessoas que buscam terapia
para organizar as ideias. Elas relatam um pensamento caótico, com
muitas ideias ao mesmo tempo, e essas, por vezes, geram uma confusão
tal que impedem o movimento, a ação no mundo. A ação
do pensamento é tão intensa, tão rápida, que
a pessoa entra num estado de confusão mental e “trava”.
Muitas delas já tentaram, anteriormente, organizar suas ideias
segundo padrões estabelecidos como os melhores em estudos sobre
metodologia, mas, em grande parte dos casos, não encontraram bons
resultados. É comum que essas pessoas se considerem estranhas,
incompetentes para determinadas atividades, reclamem falta de concentração,
dificuldade de manter a atenção. Questionam-se sobre sua
capacidade cognitiva, às vezes pensam-se loucas, simplesmente porque
os estudados padrões da metodologia não lhes são
úteis.
Mais interessante é observar, enquanto a pessoa relata sua história,
o que se passa com ela, o movimento de seu pensamento: como encadeia suas
ideias, como compõe suas conclusões. Quando pensa
mais rápido, quando as ideias fluem melhor. E, inclusive,
indícios, ou até mesmo relatos, de várias linhas
de pensamento ocorrendo ao mesmo tempo. Como assim? A pessoa está
relatando um fato e, de repente, pula para outra ideia, em seguida,
estabelece a relação entre ambas e retorna ao fato que contava.
Ou a pessoa está contando o caso e faz uma observação
do gênero “está vindo outra coisa agora”. Sorrisos,
expressões, olhares também denotam outras ideias.
É comum que, ao pesquisarmos aquele momento onde tais expressões
foram manifestadas, encontremos ideias, histórias, eventos
paralelos.
Outra constatação clínica é o impacto da observação
do movimento do pensamento sobre o próprio pensamento. Ao se dar
conta da forma como encadeia ideias, do que acelera ou diminui
o ritmo de seu pensar, a pessoa tem a oportunidade de estabelecer outras
formas de encadeamento de ideias, percorrer outros caminhos de
pensamento. Pode, também, alterar o ritmo de suas ideias,
acelerando ou retardando o movimento de seus pensamentos de acordo com
a necessidade.
Como todos os tópicos em filosofia clínica, o tópico
ação não está isolado dos demais. Pré-juízos,
Emoções, Expressividade, Busca, Papel Existencial,
enfim, todos os tópicos, categorias, submodos (clique
aqui) interferem, por isso não é possível
observar uma única linha do pensar, ou querer isolar o pensamento
para observá-lo, independentemente de outros fatores. Às
vezes um elemento do ambiente provoca a aceleração ou retardamento
das ideias, ou provoca um tipo específico de encadeamento.
Você consegue identificar ambientes, por exemplo, que lhe provocam
ideias ruins? Outros ambientes que lhe trazem ideias boas
e frutíferas? E se você pudesse evitar os ambientes que lhe
provocam ideias ruins, deliberadamente? E se, quando necessário
estar em tais ambientes, tivesse formas de levar seus pensamentos para
outros lugares, existencialmente mais agradáveis? Para alguns,
seria um alivio existencial.
Outro problema relacionado a esse tópico é o fato de termos
muitas ideias ao mesmo tempo, e isso impedir a concentração
numa única ideia. Para algumas pessoas, é necessário
encontrar formas de acentuar aquela ideia na qual precisa se concentrar.
Para outras, simplesmente encontrar maneiras de “levar” todas
essas ideias ao mesmo tempo, ou seja, distribuir a atenção.
Mas limpar os pensamentos e fixar-se em uma única ideia,
é algo difícil de se conseguir, embora seja o divulgado
como comum. Algumas pessoas, de fato, conseguem se concentrar exclusivamente
num ponto, mas dado o excesso de informações, de ruídos,
de movimentos aos quais estamos expostos, isso se torna cada vez mais
raro.
Como não é possível silenciar o mundo que nos rodeia,
nem é possível parar o tempo e o mundo enquanto nos dedicamos
a um único ponto, e retroceder para tratar os demais posteriormente,
talvez seja o caso de pensarmos em formas de lidar com as demandas, e
para isso, conhecer e avaliar nossos padrões, o funcionamento do
movimento de nosso pensar, pode ser de grande utilidade.
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