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Relação virtual: Sentimentos são reais?

por Monica Aiub

Terminei o texto anterior - clique aqui - afirmando ter o objetivo de provocar o leitor a refletir acerca das relações amorosas que estabelece e, a partir de nossa co-existência virtual, constituir uma relação capaz de provocar movimentação existencial, colocando-o na direção de “ser aquilo que se é”.

Recebi alguns e-mails sobre como nossa “co-existência virtual” é capaz de afetar algumas pessoas, provocar movimentações. Da mesma forma, as mensagens que recebo dos leitores, que em sua maioria não conheço pessoalmente, provocam em mim, minimamente, a escolha de próximos temas a serem abordados, mas, muitas vezes, provocam muito mais do que isso.

Observe suas relações virtuais. Você possui amigos virtuais? Conhece-os presencialmente? Essa relação de amizade é diferente daquela que possui com os amigos com os quais convive presencialmente? Você já teve seu estado emocional alterado devido a uma mensagem recebida em sua caixa de e-mails? Já ocorreu isso numa conversa virtual? Você já se apaixonou por alguém com quem teve contato apenas virtual? Você prefere o contato virtual ou presencial?

Interface

O que diferencia o contato virtual do presencial é o tipo de interface utilizada. Interface, segundo Pierre Lévy , em As tecnologias da inteligência, “remete a operações de tradução, de estabelecimento de contato entre meios heterogêneos. Lembra ao mesmo tempo a comunicação (ou o transporte) e os processos transformadores necessários ao sucesso da transmissão. A interface mantém juntas as duas dimensões do devir: o movimento e a metamorfose. É a operadora da passagem” (1993).

No contato virtual, nossa interface é o computador, é o meio através do qual nos relacionamos com o outro. No mesmo livro, Lévy constrói uma ontologia da interface, afirma que “todas as técnicas, e não somente as tecnologias intelectuais, podem ser analisadas em redes de interfaces”, e apresenta, a partir da definição citada, o próprio corpo humano como uma imensa rede de interfaces.

Se assim considerarmos, fica fácil compreender a possibilidade de uma pessoa sentir-se “tocada” por outra que se encontra a quilômetros de distância, ou ainda por alguém que jamais encontrou presencialmente, fazendo uso do computador como interface.

Palavras que chegam digitadas na tela, imagens e sons enviados pela internet são capazes de provocar ideias, sensações, emoções, assim como o contato de nossos corpos, olhos nos olhos, braços nos braços, presença.

Lista de cinco sentidos estabelecida por Aristóteles é incompleta

Lucia Santaella, no livro Corpo e Comunicação, partindo dos estudos de Gibson (1996), afirma que “a lista de cinco sentidos, que foi estabelecida por Aristóteles, é hoje considerada incompleta, visto que outras espécies de experiências perceptivas foram encontradas. Junto com os órgãos sensores exteroceptores (olho, ouvido, pele, nariz, boca), há os proprioceptores (nos músculos, juntas e ouvido interno) e interoceptores (terminações nervosas nos órgãos viscerais) com três tipos de sensações por eles provocadas, respectivamente: sensações de origem externa ou percepções, sensações de movimento ou cinestesia e vagas sensações de origem interna, localizando-se aqui talvez os sentimentos e emoções”.

Tratando do corpo sensório-perceptivo do cibernauta, Santaella descreve os movimentos interativos de uma pessoa que, sentanda diante de seu computador, com um dedo no mouse, navega na Internet, parecendo movimentar somente a ponta do dedo para um toque no mouse, enquanto, na verdade, todo o seu sistema sensório-perceptivo é colocado em movimento, além de, por causa da interatividade, movimentar-se mais do que faria se estivesse apenas explorando um ambiente.

Ela conclui o capítulo intitulado O que matrix não mostra com a seguinte afirmação: “É por tudo isso que, quando se navega no ciberespaço, por fora, o corpo parece imóvel, mas, por dentro, uma orquestra inteira está tocando instrumentos não apenas mentais, mas, ao mesmo tempo, uma coordenação inconsútil, perceptivos, sensórios e mentais”.

Partindo desses estudos, poderíamos compreender o que se passa conosco quando somos afetados por nossas relações virtuais, chegando mesmo a estabelecer relações, por vezes, mais profundas que as relações presenciais.

Obviamente, isso não ocorre assim para todas as pessoas. Há quem necessite da “presença” do outro, mas a experiência de relações virtuais está, a cada dia, se tornando mais presente e intensa.

Término de relação virtual

Alguns partilhantes (pacientes) chegam ao consultório relatando o sofrimento gerado por um rompimento de uma relação virtual. Namoros terminados, ofensas de alguém com quem jamais esteve frente a frente, sem a interface do computador. Seria essa uma relação com o computador e não com um outro? Ou o computador é apenas a interface que media, que possibilita a relação?

Há casos de pessoas que conheceram seus namorados ou namoradas virtuais, passaram longos períodos vivendo essa relação intensamente – alguns mais de um ano – e, ao encontrarem presencialmente essa pessoa, a relação acabou. Ouvi, em alguns relatos, a afirmação que parecia estar diante de um estranho ou estranha.

Algumas pessoas apontam para a possibilidade de múltiplos relacionamentos, com várias pessoas ao mesmo tempo. Não apenas num bate-papo, mas num relacionamento denominado namoro, que possui comprometimento, envolvimento, tão significativo à pessoa quanto o de um namoro presencial. Poderíamos considerar essas mútuas e concomitantes relações como traição?

Ocorreu, com uma partilhante, descobrir que seu marido a “traia” virtualmente, namorando, fazendo sexo virtual com outras pessoas. Essa moça considerou-se traída. Terminou o casamento de vários anos em virtude de tal traição. O marido não compreendeu, alegando não se tratar de traição, uma vez que, “concretamente”, nada havia ocorrido. Como você reagiria se seu marido, namorado, sua esposa ou namorada se envolvesse virtualmente com outras pessoas?

Há, ainda, casos de pessoas que viveram longas relações, com começo, meio e fim totalmente virtuais. Sem nenhum contato presencial. Num dos casos atendidos, o sofrimento da pessoa era maior do que o sofrimento vivido no término de relações anteriores, pois dada a facilidade de ficar muitas horas diante do computador, foi criada uma relação intensa, forte, constante, sem a qual não conseguia viver. Essa moça relatava as emoções vividas ao ligar seu computador na expectativa de encontrar o namorado virtual, a ansiedade, a angústia e o sofrimento causados por não realizar sua expectativa. Você já viveu ou vive algo assim?

Pensar em relações virtuais nos remete à ideia de um espaço virtual que é simulado. Simulamos um ambiente a partir do qual nos relacionamos. Simulamos, por vezes, aquilo que apresentamos ao outro, simulamos nossas ideias, emoções e sensações. Simular é fingir, dissimular, representar, mas também pode ser criar uma possibilidade. O que fazemos em nossas relações virtuais, nos escondemos, dissimulamos, fingimos, representamos ou criamos, em nosso imaginário, possibilidades de relações e as realizamos com a interface do computador? Como são as suas relações virtuais?

Referências bibliográficas:
GIBSON, J. The senses considered as perceptual systems. Boston: Mifflin, 1966.
LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1998.
SANTAELLA, L. Corpo e comunicação: sintoma da cultura. São Paulo: Paulus, 2004.

* Vir a ser; tornar-se, transformar-se, devenir (Fonte: Dicionário Houaiss)

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Monica Aiub
é Filósofa Clínica e Mestre em Filosofia da Mente (UFSCAR-SP)
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