| “Respeito
o outro, desde que ele pense, sinta e aja como eu” pode soar
como um terrível discurso, de alguém extremamente rígido,
dogmático; mas, infelizmente, parece ser o fundamento, ainda,
de muitas ações cotidianas. Como você lida com
as diferenças que se apresentam nas relações
com o outro? Você costuma refletir sobre elas? Ou você
costuma negá-las?" |
Quem é o outro? Aquele que não
sou eu, aquele que é diferente de mim, aquele que me mostra
que nem tudo é como eu imagino que seja. E o que ele provoca
em mim? |
É tão bom quando nos aproximamos de alguém que pensa
como nós, que acredita no que acreditamos, alguém com quem
podemos partilhar caminhos! Ao mesmo tempo é incômodo encontrarmos
alguém que nos mostre o quanto estamos equivocados; o quanto os
projetos que estamos elaborando não encontram respaldo na realidade.
Como lidamos com isso? Há várias formas para se lidar com
isso, e elas dependem de nós, do outro, do mundo e das relações
que estabelecemos entre estes vários fatores.
Alteridade é a palavra que acompanha tais discussões. Alter
significa outro; alteridade significa a qualidade de ser outro, o colocar-se
como outro. Quando, no movimento de observação do outro
estabelecemos a diversidade, o que é diverso, diferente, encontramos
a diferença.
Falamos muito, hoje, de diversidade, respeito às diferenças,
celebrar as diferenças, alteridade, e isso não apenas no
âmbito de nossas vivências coletivas, tratando das relações
entre os povos, mas também em nossas vidas singulares, em nossas
relações com aqueles que nos rodeiam. Ao mesmo tempo, presenciamos
muitas atitudes que demonstram exatamente o oposto do discurso de respeito
à diferença, quando não somos nós mesmos os
agentes de tais ações.
“Respeito o outro, desde que ele pense, sinta e aja como eu”
pode soar como um terrível discurso, de alguém extremamente
rígido, dogmático; mas, infelizmente, parece ser o fundamento,
ainda, de muitas ações cotidianas.
Como você lida com as diferenças que se apresentam nas relações
com o outro? Você costuma refletir sobre elas? Ou você costuma
negá-las? Você conversa sobre elas com o outro? Ou você
já considera que ele está errado e não há
o que conversar? Ou ainda, você imediatamente considera que ele
está certo, porque, afinal, você sempre está errado
ou, simplesmente, porque o outro deve saber mais sobre o mundo que você?
Você costuma investigar as bases, as origens, os motivos para se
pensar de modo diferente? Na sua opinião, é possível
que duas ideias diferentes sobre uma mesma questão possam ser,
ambas, verdadeiras?
Reflitamos sobre algumas das formas colocadas. Há pessoas que costumam
refletir sobre as diferenças, tentando compreendê-las, tentando
ratificar ou retificar suas próprias ideias e ações.
Poderíamos remontar algumas ideias presentes no pensamento de filósofos
da Antiguidade. Platão, por exemplo, ao distinguir entre aparência
e realidade, poderia responder a questão afirmando que uma pessoa
está vendo apenas a aparência, enquanto a outra enxerga para
além disso, ou que ambas estão com uma visão parcial,
superficial da questão, estando ambas corretas, mas não
totalmente, o que exigiria um mergulho mais profundo sobre a questão.
Mas que recursos teríamos para que pudéssemos fazer tal
mergulho, buscando maior profundidade e, consequentemente, maior compreensão?
Para ele o caminho seria o diálogo investigativo, buscando a gênese
de nossos pensamentos, e verificando os possíveis erros no caminho.
Nada como um outro, que não sou eu, para me provocar a ver aquilo
para o qual estou cega. Mas para que eu possa enxergar se aquilo que o
outro apresenta, mostra, faz algum sentido, preciso estar disposta a olhar
junto com ele, a pensar junto com ele, a acompanhar seu processo de construção
de ideias.
Da mesma forma, ele também deverá ter a mesma disposição
para pensar junto comigo. Você conhece alguém, nas suas relações,
que tem tal disposição? Você possui essa disposição?
Caso afirmativo, geralmente, qual o resultado dessas conversas?
Observe que concluir, via diálogo, que algo é o melhor caminho
apenas porque os participantes da conversa chegaram à mesma conclusão
é arriscado, pois todos podem estar partindo da mesma perspectiva,
de uma mesma forma de ler o mundo, e que pode não estar, necessariamente,
correta. Podemos estar, todos, na mesma armadilha (clique
aqui e leia), criando um sistema coerente de ideias, porém
equivocado.
Obviamente, quem conhece um pouco do pensamento platônico sabe que
ele não se referia a isso, porque para ele há uma realidade
a ser descoberta, um “Mundo das Ideias”, no qual o conceito
é o real. Mas como ter a certeza de tê-lo atingido? Além
disso, nunca conseguiremos a garantia de termos explorado todas as possibilidades.
Algumas poderiam nos escapar. Assim, voltamos à questão,
como lidar com a diferença?
Negação é uma forma comum de se lidar com
a diferença
Para alguns, o que se coloca como diferente daquilo que sou traz impedimentos,
objeções a meu modo de ser. Assim, a busca de uma solução
para o problema faz-se necessária. A negação é
uma forma muito comum de se lidar com a questão, embora nem sempre
seja a melhor. É diferente de mim? Não existe! Não
pode existir. Por quê? Talvez porque pareça ser perigoso
que algo diferente do que sou seja legítimo. Qual o perigo? Se
apenas uma única forma for possível como verdadeira, a existência
e afirmação do outro coloca em risco a existência
e a afirmação daquilo que sou.
A questão se coloca como se competíssemos o tempo inteiro
para a replicação de um modo de vida. Algo similar ao que
Richard Dawkins denominou vírus, e em alguns casos vermes, da mente.
Olhando assim, de fora, parece uma bobagem: “Por que alguém
se sentiria ameaçado só por existir um outro diferente daquilo
que ele é?”. Mas, se observarmos melhor nossa história
e nossa vida cotidiana, perceberemos que há muitos exemplos assim.
O próprio diferente, quando busca afirmar-se negando o outro, repete
a mesma forma de lidar com a questão. Se uma “minoria”
decide defender seus direitos afirmando sua superioridade sobre a “maioria”,
colocam-se apenas dois modelos e a necessidade por escolher um deles,
mas o problema continua o mesmo. Deleuze, em um texto recém traduzido,
no qual comenta o teatro e o cinema de Carmelo Bene, Um manifesto
de menos, exemplifica de modo muito preciso essa questão.
Imagine se hoje fosse retirado, de sua vida, ou de nossa sociedade, os
elementos centrais, “principais”, como ela seria reordenada?
Como ficariam as relações? Seriam as mesmas?
No livro Diferença e repetição, Deleuze
discute o quanto, de fato, nós respeitamos a diferença,
ou apenas repetimos o mesmo, os mesmos modelos, as mesmas formas, mudando
apenas conteúdos. Muitas vezes tentamos resolver o problema da
diferença dissolvendo-a na síntese. Mas esse também
não é um caminho, primeiro porque a síntese poderá
ser uma nova tese, e o problema será perpetuado ao infinito. Mas
principalmente porque nem sempre, diante da diferença, a solução
é a síntese.
A síntese pode conter elementos da tese e de sua antítese,
mas supõe a necessidade de que se tenda sempre a uma forma única,
destacando a impossibilidade do convívio com o diferente. Assim
Deleuze exemplifica como a dialética hegeliana não resolve
o problema da diferença, mas tenta absorver o diferente na síntese,
reafirmando o modelo do “mesmo”, ou repetindo. Mas ele também
exemplifica como muitas outras soluções tradicionais não
o resolvem, apenas repetem o mesmo padrão.
Durante muito tempo, e ainda hoje este é considerado um caminho
válido, a ciência foi responsável por apresentar as
“provas” para validar determinados modelos. Pesquisas definindo
os conceitos de normalidade, as médias, normas e padrões
aceitáveis como o modelo vigente. Podemos observar que tais modelos
se modificam. Por exemplo, diferentemente das pesquisas até então
desenvolvidas, prescrevendo medicamentos para nos livrar do grande mal
que é a depressão, no recém-lançado livro
de Horwitz e Wakefield, A tristeza perdida, os autores discutem
o papel da depressão para a sobrevivência e os perigos do
uso de medicamentos em alguns desses casos, questionando o paradigma que
faz da depressão a doença do século XXI.
Como você lida com a diferença quando há provas científicas
da afirmação de uma postura? Você aceita porque a
ciência traz respostas objetivas ou você reflete, pesquisa
outras possíveis questões?
Por outro lado, a aceitação da legitimidade do outro, a
efetiva celebração das diferenças, seria um bom caminho,
ou também apresentaria os seus problemas? Estaríamos nós,
confundindo o respeito com o “laisser faire”. Tudo é
permitido e o que sobreviver é o melhor? As formas de organização
da vida, tanto singular quanto coletivamente, não estariam, por
si, definindo o permitido e o proibido na medida em que “tudo é
permitido, mas assim não se consegue sobreviver”?
Como você, leitor, lida com o outro, com o diferente, com aquilo
que não é você?
Referências bibliográficas:
DAWKINS, R. O gene egoísta. São Paulo: Cia das Letras, 2007.
DELEUZE, G. Diferença e repetição. Rio de Janeiro:
Graal editora, 2009.
_____. Sobre Teatro. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
HORWITZ, A.; WAKEFIELD, J. A tristeza perdida: Como a psiquiatria transformou
a depressão em moda. São Paulo: Summus, 2010.
PLATÃO. Diálogos: A República. São Paulo:
Nova Cultural, 2004.
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