| "Fazemos como Nietzsche
descreve: inventamos a verdade e, no instante seguinte, esquecemos que
fomos nós que a inventamos"
John Searle, em Mind: A brief introduction (2004), ao apresentar
a intencionalidade como um importante problema da Filosofia da Mente,
distingue entre a realidade que depende da existência de um observador
e a realidade que independe do observador para existir. Elementos como
gravidade, fotossíntese, massa, força, átomos são
exemplos de coisas que existem independentemente do observador, a realidade
natural, segundo ele. Em contrapartida, propriedade, dinheiro, governo
são exemplos de coisas que dependem de nós para existir,
a realidade social, cultural, existencial. O problema que ele levanta
se dá quando consideramos coisas que dependem de um observador
como se fossem coisas que existem independentemente dele, como, por exemplo,
o dinheiro.
| "O juízo prévio
que formulamos acerca dos pensamentos alheios não é
condizente com o que o outro pensa de fato" |
O que faz com que um pedaço de papel tenha
valor para trocarmos por objetos e serviços senão o
fato de observadores terem atribuído tal valor ao papel? Contudo,
esquecemos que o dinheiro foi criado como instrumento para facilitar
as trocas, e começamos a valorizá-lo em si mesmo, muitas
vezes abrindo mão de nossa liberdade, de nossas próprias
vidas, matando ou morrendo, em função de “um pedaço
de papel”. |
Tornando esse processo ainda mais complexo, muitas vezes atribuímos
essa “realidade”, com existência independente de nós,
a idéias, a juízos emitidos por um observador. Contudo,
o peso que tais idéias ou palavras exercem sobre nossas ações,
sobre nossos estados emocionais, sobre a construção de nossas
vidas, muitas vezes, é imenso.
Mais complexidade ainda encontramos quando atribuímos uma realidade
ao que nós, como observadores, supomos que outros observadores
pensam. Ficou confuso? Vamos a um exemplo: considere uma pessoa que pensa
que as outras terão preconceito por ela ter um diagnóstico
de esquizofrenia e, por esse motivo, priva-se do convívio com essas
outras pessoas, mas sofre muitíssimo com a discriminação;
considere também uma pessoa que pensa que será rejeitada
ao declarar seu amor, e por isso tenta escondê-lo, para que a pessoa
amada jamais venha a suspeitar de seu sentimento e, consequentemente,
não a rejeite; ou um aluno que pensa que será considerado
idiota se perguntar sobre sua dúvida, então finge ter compreendido
o assunto para que os outros não desconfiem que ele não
entendeu plenamente o estudado.
Poderíamos listar inúmeros exemplos de situações
dessa natureza. Quantas vezes, em nossas vidas, já fizemos algo
do gênero? Privamo-nos de emitir nossas opiniões, de expor
nossos sentimentos, de perguntar sobre o que nos inquieta, com medo do
preconceito que pensamos que o outro possui? Como sabemos que possui?
Temos acesso aos pensamentos dos outros? E ainda que tivéssemos,
nossas declarações, colocações, exposições
poderiam modificar tais pensamentos, ou eles são estáticos,
imutáveis? Quantas vezes você já mudou de opinião
porque alguém lhe expôs algo de modo que jamais havia considerado?
Quantas vezes você foi surpreendido porque alguém respondeu
de maneira totalmente diferente a que esperava?
Impacto dos preconceitos
Partindo desses questionamentos, você já avaliou o impacto
dos preconceitos – tanto os seus, quanto os de outras pessoas –
na vida? Quantas das suas decisões foram guiadas por seus preconceitos?
Quantas o foram por preconceitos de outros? E quantas, ainda, por seus
preconceitos acerca dos preconceitos dos outros?
Preconceito. Pré-conceito: conceito anterior à experiência,
à vivência. Atribuímos um conceito a algo, alguém
ou alguma situação, e o tomamos como se fosse “a realidade”,
independentemente de termos sido nós a atribuí-lo. Fazemos
como Nietzsche descreve: inventamos a verdade e, no instante seguinte,
esquecemos que fomos nós que a inventamos.
Ao tomar nossos conceitos prévios como realidades existentes, independentemente
do significado atribuído por um observador, esquecemos que somos
responsáveis pela existência de tais conceitos, pela atribuição
de significados a certos eventos, e passamos a considerá-los como
“a realidade”. Sendo o real determinante para nossos posicionamentos
e, consequentemente, para definir novos eventos, podemos afirmar que “constituímos”
o real, que construímos o mundo, que provocamos os acontecimentos.
As idéias se materializam, os conceitos prévios tornam-se
realidades subseqüentes, a vida passa a ser determinada por tais
conceitos, capazes de movimentar o mundo.
Como é possível pensar em diferentes conceitos prévios,
visto que eles não necessitam de fundamentação, de
pertinência às questões propostas, tudo é possível,
tudo pode vir a ser. E como tudo é possível, não
temos uma possibilidade. Temos, apenas, todas as possibilidades para que
escolhamos a que melhor nos convier.
Isso amplia nossa responsabilidade diante do mundo, da vida. Não
se trata de uma determinação exterior a nós, mas
de nós mesmos determinarmos os caminhos que trilharemos em nossa
existência. Não se trata de mágica: materializar o
pensamento por ter pensado. Trata-se de assumir posicionamentos devido
a uma forma de pensar. Trata-se de agir de maneira a reafirmar aquilo
que pensamos e, conseqüentemente, construir o real tal como as idéias
que habitam nosso intelecto.
Quais as idéias que habitam seu intelecto? De que maneira elas
interferem na forma como você se relaciona? Elas interferem em suas
decisões? Elas lhe aproximam ou lhe afastam do que busca como forma
de vida? São coerentes com seus desejos?
Nem sempre damos atenção suficiente a nossas formas de pensar,
aos conteúdos das idéias que freqüentam nossos pensamentos.
Pensamos, concluímos, agimos... Observamos as bases de nossos pensamentos?
O que nos faz pensar como pensamos e pensar o que pensamos? Há
outras formas possíveis para o pensar?
Cuidado com o que você pensa
No mesmo livro, mas não somente nele, Searle nos questiona sobre
as maneiras pelas quais um pensamento é capaz de causar um movimento
no mundo físico, como por exemplo, movimentarmos nosso braço.
Decididamente, muito de nossas ações só acontece
porque pensamos algo, desejamos algo, acreditamos em algo, tememos algo...
ou seja, há um estado subjetivo que provoca um tipo de movimentação
no mundo. Se isso é fato – e é difícil, empiricamente,
duvidar desse fato –, então a interferência do que
pensamos sobre o que vivemos é muito maior do que habitualmente
imaginamos. Então o dito popular “cuidado com o que você
pensa” possui um sentido muito mais intenso.
Repito: não estou afirmando que pensar é suficiente para
constituir o mundo tal qual nosso pensamento. Estou afirmando que nossos
pensamentos interferem, e às vezes determinam, nossas ações,
nossos posicionamentos, e que o mundo em que vivemos se constitui a partir
da interferência dessas nossas ações sobre ele. Se
penso que o outro tem preconceito, para não sofrer a discriminação,
segrego-me antes, escondo-me, sofro antecipadamente.
É interessante observar que, muitas vezes, o juízo prévio
que formulamos acerca dos pensamentos alheios não é condizente
com o que o outro pensa de fato. Quando nos deparamos com o pensamento
do outro, e ele não é condizente com o quadro que criamos,
isso pode ser uma decepção, mas também pode ser a
origem de um grande alívio existencial.
De certa forma, nos deparamos constantemente com a observação
de estarmos baseando nossas ações em nossos juízos
prévios – pré-juízos. Tal constatação
pode ser motivo de modificação de nossos posicionamentos,
ao contrapormos nossos pensamentos a testes comprobatórios, ou
a dados da “realidade” que os confrontem. Isso pode ser de
grande importância para orientarmos nossos planos de ação,
para nos situarmos acerca das condições para efetivarmos
nossos projetos.
A mesma constatação pode, todavia, ser motivo de reafirmação
de nossos posicionamentos. São pré-juízos sim, não
há como verificar suas bases, mas manter a crença neles
mantém o sentido da existência, permite a construção
de um caminho possível, ainda que o outro, de fato, não
pense como eu acho que ele pensa.
Por um lado, nossos pensamentos movimentam-se o tempo inteiro. Se o outro
não pensava assim, pode passar a pensar. Se ele pensava, poderá
deixar de pensar. O quanto nossos posicionamentos interferem na construção
do pensamento do outro?
Se você está me acompanhando até aqui, talvez tenha
percebido que percorremos alguns círculos. Pensamentos que geram
ações, que geram pensamentos, que geram ações.
Ações que geram o mundo, que gera ações. O
pensamento do outro que constitui o meu pensamento, que constitui o pensamento
do outro. Quais os limites, as linhas divisórias entre esses elementos?
Penso não ser possível estabelecer esses limites, essas
linhas divisórias. Não há fronteiras, territórios
específicos do pensar, do agir, do eu, do outro.
Infinitas possibilidades
Desterritorialização, como apontaram Deleuze e Guattari,
talvez seja uma abordagem mais condizente com o que vivenciamos. A constatação
da fluidez de nosso pensar e, conseqüentemente, de nossas ações,
daquilo que somos, talvez permita uma melhor compreensão de como
viver em um mundo onde não há uma possibilidade, mas todas
as possibilidades. Diante de todas as possibilidades, qual ou quais você
escolhe para constituir seus pensamentos, suas ações, sua
existência?
Referências Bibliográficas:
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia.
5 vol. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
SEARLE, J. Mind: A brief introduction. Oxford: Oxford University Press,
2004.
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