| "Entre as várias
formas utilizadas para lidar com os problemas, o riso é uma
delas. “Para que uma coisa seja cômica, é preciso
que entre o efeito e a causa haja desarmonia”, é a definição
de Yves Delage, que Bergson, em O Riso, discute. É interessante
observar que muitas vezes a origem de nossos problemas se encontra
em tal desarmonia. Em alguns casos, desarmonia na proporção
entre aquilo que se passa a nossa volta e a forma como somos afetados;
em outros casos, desarmonia porque o sofrimento que se coloca como
efeito não está diretamente relacionado com uma causa
de fato existente; sofremos em abstrações, com situações
que talvez nem aconteçam" |
O último artigo de 2009 (clique
aqui e leia), abordou o riso como forma de expressão. Iniciemos
2010 ainda com o riso, agora como submodo, ou seja, como um modo para
lidar com os problemas. |
Submodo, em filosofia clínica, diz respeito às formas
que utilizamos para lidar com nossas questões. Trata-se de um modo
subordinado aos Exames Categoriais (clique
aqui e leia), que consistem no universo no qual a pessoa está
inserida, e à Estrutura de Pensamento (clique
aqui e leia), que representa a forma como a pessoa está
constituída a partir das vivências no universo em que se
insere. Traduzindo, aquele jeito muito próprio com o qual cada
um de nós enfrenta a vida, lida com o cotidiano, resolve ou vive
os problemas da realidade.
Como você lida com seus problemas?
Como enfrenta seu cotidiano?
Muito provavelmente, ao responder essas perguntas você deve ter
pensado em diferentes formas que utiliza; formas que variam de acordo
com a situação cotidiana, com o tipo de problema, com o
que está em jogo, com as pessoas envolvidas na questão...
Enfim, diferentes formas para diferentes questões; maneiras várias,
dependendo dos contextos e de seus próprios movimentos existenciais.
Conforme a situação, conforme o momento, há maneiras
melhores ou piores, entre as que habitualmente fazemos uso. É importante
avaliar as consequências de escolhermos uma forma ou outra para
abordarmos nossas questões. Há aquelas que são eficazes,
e outras que são contraproducentes. Há as que resolvem o
problema, mas geram dificuldades ainda maiores; e encontramos também
aquelas que resolvem o problema, mas acabam por nos destruir. Quando você
utiliza seus modos habituais para lidar com os problemas da vida, que
tipo de resultado costuma encontrar?
Entre as várias formas utilizadas para lidar com os problemas,
o riso é uma delas. “Para que uma coisa seja cômica,
é preciso que entre o efeito e a causa haja desarmonia”,
é a definição de Yves Delage, que Bergson, em O
Riso, discute. É interessante observar que muitas vezes a
origem de nossos problemas se encontra em tal desarmonia. Em alguns casos,
desarmonia na proporção entre aquilo que se passa a nossa
volta e a forma como somos afetados; em outros casos, desarmonia porque
o sofrimento que se coloca como efeito não está diretamente
relacionado com uma causa de fato existente; sofremos em abstrações,
com situações que talvez nem aconteçam. E o que há
de risível nisto? Talvez um problema lógico, como apresenta
Bergson, mas ele aborda a questão por outro caminho.
Em primeiro lugar tenta estudar os procedimentos de fabricação
da comicidade. Ao mesmo tempo, busca compreender a intenção
da sociedade quando ri. Por que você ri? O que você faz quando
ri? Você provoca o riso no outro? O que busca provocar naquele que
ri?
O riso pode deslocar a atenção daquele que ri para um detalhe
que não havia sido percebido, mas pode perder o foco daquilo que
é essencial; pode provocar outra forma de deslocamento, apenas
distanciando a pessoa do problema momentaneamente, o que poderá
torná-lo mais leve, mais fácil de abordar, mas que também
poderá provocar alienação. O riso pode levar a pessoa
a perceber-se, identificando seus exageros, e até mesmo uma desarmonia
entre o que ocorre a sua volta e os efeitos nela gerados pela afetação
de tal entorno. Pode, em alguns casos, tornar as expectativas mais próximas
do real, levando à última instância os exageros da
pessoa.
Um roteiro cômico pode levar alguém a vislumbrar o que se
passa em sua vida, ou a avaliar os caminhos que tem trilhado. Pode provocar
inquietação gerando um movimento de aproximação,
ou gerando um movimento de distanciamento, ainda que ambos sejam provocados
pela mesma situação risível.
Pode também tornar as situações mais leves, porque
sendo capaz de rir de si mesmo, as questões cotidianas podem ganhar
outra dimensão, mais compatível com as possíveis
abordagens a ela. Mas também pode tornar a situação
insuportável, pois a humilhação gerada pelo riso
pode ser um impedimento à existência.
Esses são apenas alguns pouquíssimos exemplos de formas
para se trabalhar o riso como submodo, lembrando que aquilo que auxilia
uma pessoa pode ser, exatamente, o que traz a ruína a outra. “O
riso castiga certos defeitos mais ou menos como a doença castiga
certos excessos, atingindo inocentes, poupando culpados, visando a um
resultado geral sem poder fazer a cada caso individual o favor de examiná-lo
separadamente”, afirma Bergson. O riso não é justo
ou bom em si mesmo. Pode ser utilizado para nos alertar, para denunciar
nossos automatismos, nossas ações mecânicas, mas também
pode ser utilizado para nos humilhar, para nos moldar.
Você usa o riso como forma para lidar com seus problemas? De que
maneira? Qual o resultado deste uso em sua vida? Torna-a mais leve ou
mais amarga? Amplia suas possibilidades ou restringe seu campo de atuação?
Até aqui observei o uso informal do riso como submodo. Um submodo
informal refere-se à maneira usual da pessoa lidar com suas questões,
e os resultados que ela obtém com tais procedimentos. Na perspectiva
clínica, é possível fazer uso dos submodos como um
procedimento clínico, visando promover as movimentações
existenciais desejadas pela pessoa. Também no caso do submodo como
um procedimento clínico, o riso pode ser largamente utilizado,
desde que compatível com as necessidades e possibilidades da pessoa.
Estas possibilidades, conforme observamos anteriormente, são pesquisadas
com cada pessoa em especial, e se for o caso de utilizar o riso como submodo,
como fazê-lo, suas implicações, suas possibilidades
serão estudados caso a caso, tornando o riso uma forma singular
de vida.
Podemos aprender com o riso, podemos nos expressar com o riso, podemos
lidar com nossos problemas pelo riso. Podemos viver o riso; na metáfora
bergsoniana, tão leve quanto a espuma do mar, tão salgado
e violento quando o próprio mar. Leve e violento, doce e intenso,
amargo e profundo... assim é o riso, assim são nossas vidas...
possibilidades.
Referências Bibliográficas:
BERGSON, H. O riso: Ensaio sobre a significação da comicidade.
São Paulo: Martins Fontes, 2007.
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