| É interessante
observar como algumas pessoas aguardam a passagem de um ano a outro para
fazer revisão de vida, para modificar hábitos, para tomar
resoluções, além, é claro, dos muitos desejos
e sonhos que são construídos, pedidos, prometidos, no exato
instante em que o relógio determina o fim de um ano e o início
de outro. Haveria algo de mágico neste instante, capaz de realizar
os desejos? Haveria algo diferente da passagem de um dia a outro, de uma
hora a outra, que propiciasse resoluções? Que incutisse
novos hábitos? Que nos permitisse compreender nossos processos
de vida e, em certos casos, nos impelisse a encontrar outros caminhos?
Você fez promessas, pedidos ou desejos, modificou hábitos,
tomou resoluções significativas para sua vida na hora da
virada de 2008 para 2009? O que você fez no exato momento de passagem
de um ano a outro? O que lhe moveu a fazer o que fez?
Nas duas últimas semanas atendi algumas pessoas em crise. Violentas
crises provocadas por este período festivo, no qual muitos suspendem
suas atividades, reúnem-se em família, viajam, festejam,
comemoram as conquistas de um tempo passado, repensam a rotina e planejam
o futuro. Enquanto isso, outros choram e se desesperam por constatar o
que fizeram de suas vidas, perdem o sentido da existência, percebem
o quanto não suportam o convívio familiar; outros, ainda,
lembram-se de bons e saudosos tempos, e entristecem por eles não
existirem mais. Choram amores perdidos, sofrem por relacionamentos terminados,
descobrem-se infelizes com suas rotinas e impossibilitados para modificá-las.
Iniciamos 2009 em meio à crise mundial, aos conflitos na faixa
de Gaza, e a outros inúmeros problemas que nos rodeiam. De que
maneira estas e outras questões interferem em suas expectativas
futuras? De que forma o que ocorre ao seu redor lhe provoca a pensar,
a agir e a ser da forma como você pensa, age e é?
Célebre pensamento de Sartre
Se, como afirmava Sartre, o importante não é o que fizeram
conosco, mas o que fazemos com o que fizeram conosco, os elementos que
nos rodeiam nos constituem de alguma forma, o que vivemos até o
momento presente também é constitutivo daquilo que somos,
mas o que faremos daqui pra frente é, ao mesmo tempo, continuação
da nossa história e também a possibilidade de uma nova história.
Se, como dizia Ortega y Gasset, eu sou eu e minha circunstância,
e se não mudo a ela não me salvo, não apenas os elementos
que nos cercam constituem nossas formas de existência, mas tais
formas interagem e modificam o mundo que nos rodeia. Assim, construímos,
ao mesmo tempo, o que somos e os contextos vividos.
Mas não vivemos isolados. Convivemos. De repente, quando tudo estava
caminhando para uma vida tranquila, para atender nossas buscas e expectativas,
alguém resolve provocar um movimento que nos afeta, interrompe
nosso percurso, modifica completamente nosso contexto, nos obrigando a
modificar os rumos de nossos caminhos. Como você costuma reagir
a situações como esta?
Algumas pessoas, dependendo dos fatores alterados em seus contextos, perdem
completamente o rumo de suas vidas. Não são apenas os elementos
atingidos pelas transformações do contexto que se alteram,
toda a sua estrutura existencial se movimenta. Em alguns casos, a pessoa,
rapidamente, encontra novos contornos, cria formas diferentes de vida,
modifica planos, com flexibilidade suficiente para ficar bem.
| Nesse sentido, alguns veem situações
de crise como grandes possibilidades, como a chance de transformar
sua vida em algo melhor, sua existência em algo mais significativo
para si mesmo e para o mundo. Porém, há casos em que
a pessoa se desestrutura totalmente, fica cindida, partida, dividida.
|
A divisão pode dar origem a formas de vida concomitantes,
ou seja, a pessoa divide a vida familiar de um lado e a vida profissional
de outro. As dificuldades encontradas no ambiente de trabalho a fazem
ser de uma maneira naquele ambiente, e o acolhedor contexto familiar permite
que ela seja de outra em sua casa, a ponto de se sentir vivendo diferentes
realidades paralelas – o exemplo pode ser exatamente o oposto.
Há também casos em que a desestruturação chega
a tal ponto que a forma de ser daquela pessoa, até então,
perde completamente o sentido, e ela não consegue construir outra
forma que lhe permita existir.
O que diferencia uma situação de outra? A forma como a pessoa
compreende a situação na qual está inserida, o que
vê quando olha para o mundo ao seu redor e para si mesma.
No artigo anterior (clique
aqui) abordei alguns aspectos de “Como o mundo parece”,
o primeiro tópico da Estrutura de Pensamento, e destaco, aqui,
a diferença entre a Circunstância (os contextos nos quais
estamos inseridos) e Como o mundo parece (a representação
que construímos acerca do mundo no qual estamos inseridos).
Afirma Schopenhauer em seu livro O mundo como vontade e representação,
que “tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é,
o universo inteiro apenas é objeto em relação a um
sujeito, percepção apenas, em relação a um
espírito que percebe, numa palavra, é pura representação”
(para saber mais sobre o conceito de representação, clique
aqui [Percepção da realidade e do mundo
é ilusória; saiba por quê]).
| Significamos o mundo que nos cerca de uma
forma muito própria, e isso nos leva a compreendê-lo
de formas singulares e, consequentemente, nos posicionarmos de maneiras
completamente distintas. |
Há quem necessite esperar uma data, previamente
determinada, por si mesmo ou por outros, para assumir posturas diferentes
diante da vida. Há quem precise ser “chacoalhado” pelos
eventos cotidianos, ou por outras pessoas, para se movimentar. Há
quem se movimente por necessidades internas, por pressões externas,
por desejos, por medos... são infinitas as possibilidades.
A questão que coloco é: como isso se dá na sua vida?
O que faz com que você seja como é? Como você avalia
sua forma de ser? Deseja mudanças? Deseja manter tudo como está?
O que é necessário fazer para realizar seu desejo? Depende
de você? O que o movimenta? Quem ou o que define seu modo de ser?
Resumindo, faço uso da questão proposta por Lúcio
Packter em sua palestra em Campinas-SP, dia 8 de dezembro: Quem é
o autor da sua vida?
Referências Bibliográficas:
PACKTER, L. Filosofia Clínica: a filosofia no hospital e no consultório.
São Paulo: All Print, 2008.
ORTEGA y GASSET, J. Meditações do Quixote. Rio de Janeiro:
Libro Ibero-Americano, 1967.
SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. São
Paulo: UNESP, 2007.
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