Semiose e tradução:
algumas questões
| "Ainda que
o filósofo clínico compreenda aquele dado de maneira
distinta, o que vale é a interpretação apresentada
pelo partilhante (paciente). Por exemplo, se o partilhante traz uma
música, não importa a representação que
o filósofo clínico faça desta, mas como o partilhante
a representa e significa" |
Comumente surgem, na clínica,
diferentes formas de expressão: músicas, poesias, pinturas,
contos, fotos, diagramas, filmes, gestos, expressões, sonhos,
entre outras formas não necessariamente discursivas. |
Quando tais formas são utilizadas pelo partilhante (paciente)
como veículos de expressão, são chamadas, em filosofia
clínica, dados de semiose.
O que faz com que alguém utilize uma forma ou outra para sua expressão?
Como, habitualmente, você se expressa? Faz alguma diferença
expressar-se por um veículo ou por outro? A mudança de veículo
traz alterações no significado dos conteúdos expressos?
Como é possível significar essas formas de expressão?
Quando um partilhante informa ao filósofo clínico que faz
uso de outro dado de semiose além da fala, é comum que o
filósofo clínico solicite, em algum momento da clínica,
desde que possível, conhecer esse dado de expressão. Por
quê? Simples. Porque diferentes formas podem expressar diferentes
conteúdos, significados, intensidades, ou revelar detalhes que
a fala não revelaria.
Compreender o significado da linguagem falada já é algo
complexo. Uma frase não possui significado em si mesma, é
compreendida dentro de toda uma rede de significação, relacionada
aos contextos dos falantes e dos ouvintes, não apenas no momento
em que é pronunciada, mas a partir das crenças, da história
de vida, dos interesses e de muitos outros elementos em questão.
Em filosofia clínica, cada frase de um partilhante é compreendida
a partir dos contextos em que é pronunciada, e também a
partir dos contextos de vida do partilhante, observados em sua historicidade
e estudados em seus exames categoriais (clique
aqui e leia). Além disso, é observada sua relação
com os aspectos da estrutura de pensamento (clique
aqui e leia) e dos *submodos. Em se tratando de elementos
importantes à compreensão das questões trazidas pela
pessoa, ou à compreensão do modo de ser, pensar, sentir
e agir dela, os significados são aprofundados nos procedimentos
de enraizamentos, nos quais são pesquisados significados de termos,
processos de construção de conceitos, relações
e distinções entre termos, e outros aspectos. Os conteúdos
e formas apresentados a partir de outros dados de semiose também
são pesquisados com o mesmo cuidado.
História de vida e dados de semiose
Algumas vezes, o partilhante não consegue contar sua historicidade
discursivamente, necessitando fazer uso de outros dados de semiose para
compor seu histórico de vida. Nesse caso, os dados são organizados
cronologicamente e contextualizados pelo próprio partilhante, que
conta os contextos nos quais aquele dado surgiu ou foi utilizado, e apresenta
ao filósofo clínico sua forma de significá-lo. Ainda
que o filósofo clínico compreenda aquele dado de maneira
distinta, o que vale é a interpretação apresentada
pelo partilhante. Por exemplo, se o partilhante traz uma música,
não importa a representação que o filósofo
clínico faça desta, mas como o partilhante a representa
e significa.
Para exemplificar melhor, trago o caso de uma senhora que atendi, que
não conseguia contar sua historicidade, mas relatou que possuía
uma trilha sonora de sua vida. Solicitei a ela que levasse as músicas
que compunham essa trilha sonora. Ao ouvirmos as músicas e as contextualizarmos,
ela foi lembrando de sua historicidade, e contando com maior fluência,
não apenas o que a música significava, mas os acontecimentos
e vivências dos períodos referentes a cada música.
Você, habitualmente, faz uso de outros dados de semiose para relatar
suas questões cotidianas às pessoas de suas relações?
Como essas pessoas compreendem o que você tenta expressar? Você
tem uma trilha sonora, um roteiro de teatro ou cinema, um romance, poemas,
pinturas, desenhos ou quaisquer outras formas de expressão capazes
de contar sua história? Como seria contá-la, por esses instrumentos,
a alguém? Acrescentaria significados ou não?
Quando os novos dados de semiose são apresentados no processo divisório
(quando a historicidade do partilhante é dividida em partes para
que possam ser trazidos mais dados sobre o histórico relatado),
os dados apresentados também são organizados cronologicamente,
e pode-se fazer a divisão a partir dos próprios dados. Por
exemplo, diante de uma sequência de fotos, organizadas cronologicamente,
o filósofo clínico pede que o partilhante contextualize
a primeira delas, que apresente os significados ali constantes. Em seguida,
faz o mesmo com a segunda. Na sequência, pede que conte o que mais
ocorreu entre a primeira e a segunda foto.
Também a título de ilustração, trago o caso
de um rapaz, escultor, cujo processo divisório foi realizado em
seu atelier. Ele escolheu algumas peças e, ao tateá-las,
contava os momentos de sua história em que as esculpiu. Cada traço
de cada escultura trazia um dado novo, e novos significados à sua
historicidade. Outro caso curioso foi o de uma moça que, ao contar
sua historicidade, parecia não ter emoções. Quando
trabalhamos, nas divisões, os seus poemas, lá estavam as
emoções relativas a cada evento contado.
Você expressa diferentes elementos de sua vida por diferentes dados
de semiose? O que expressa por qual veículo? Há elementos
que só consegue expressar por um veículo específico?
Isso varia de acordo com as relações? Com o tempo? Com as
circunstâncias?
Se esses dados surgirem durante os procedimentos de enraizamentos, já
virão contextualizados, localizados no histórico do partilhante.
Assim, o filósofo clínico pesquisará o significado,
que será traçado, exclusivamente, pelo partilhante.
Além da utilização de dados de semiose como veículos
de expressão, também podemos observar diferentes dados de
semiose utilizados como submodos, ou seja, como maneiras de lidar com
as questões. Trataremos, aqui, do submodo Tradução.
Tradução
Tradução, considerado como submodo em filosofia clínica,
consiste no processo de transposição de um dado de semiose
para outro. Por exemplo, quando traduzo da linguagem discursiva para a
poética, ou da linguagem corporal para a música, e assim
sucessivamente.
Para considerarmos esse processo como um submodo, é necessário
que a transposição gere uma movimentação existencial.
O fato de traduzir de um dado de semiose a outro pode provocar uma ressignificação,
ou uma compreensão mais profunda de um problema. Pode, ainda, fazer
com que o problema perca ou ganhe peso e dimensão na vida da pessoa.
Assim como na transposição de um tom musical a outro ou
na tradução de uma língua para outra, a tradução
de um dado de semiose a outro poderá apresentar alterações
no significado dos conteúdos. No caso da transposição
de um tom musical a outro ocorre uma alteração na amplitude
da onda sonora. Os intervalos entre as notas musicais são os mesmos,
o ritmo é o mesmo, o encadeamento harmônico é o mesmo,
mas o som não é o mesmo, podendo provocar reações
diferentes nos ouvintes.
No caso da tradução de uma língua para outra, as
palavras não são as mesmas, a estrutura das frases não
é, necessariamente, a mesma, mas o dito numa língua deve
ser o dito em outra. Para isso, o tradutor deveria saber pensar muito
bem a mesma ideia em línguas diferentes, para traduzir de uma a
outra. Faz diferença afirmar o mesmo em inglês, português
ou japonês? Sob vários aspectos, sim. Há muita diferença.
Ainda que consideremos somente os significados dos conteúdos, estes
podem se modificar no processo de tradução, não por
erro ou incompetência do tradutor, mas por não existir, necessariamente,
uma palavra ou uma estrutura sintática equivalente à utilizada
na língua original na língua para a qual se traduz.
Da mesma forma, quando o partilhante traduz de uma linguagem a outra aquilo
que se passa com ele, é possível que o traduzido ganhe novas
intensidades, novas dimensões, novos significados e, com isso,
movimentações existenciais ocorram.
Para exemplificar, cito o caso de uma partilhante que necessita traduzir
para poemas o que vive em suas relações. Quando traduz o
que é vivido em seus poemas, compreende de outra maneira, traduz
novamente para uma linguagem discursiva e, somente depois disso, é
capaz de comunicar ao outro o que pensa, sente, acredita ou deseja.
Você, habitualmente, faz traduções? Elas funcionam
como maneiras de lidar com seus problemas? Caso afirmativo, o resultado
disso é favorável?
O fundamento do submodo tradução encontra-se no fato de
existir uma mesma lógica subjacente, que no processo de simbolização
explicita a estrutura do vivido, do pensado, do sentido e, por isso, permite
novos e diferentes níveis de compreensão. Ainda que tratemos
de dados abstratos ou sensoriais, não traduzíveis em linguagem
discursiva, há uma lógica capaz de expressar tais conteúdos.
Seria a mesma lógica que organiza os discursos racionais aquela
utilizada na composição musical? Seria a mesma lógica
que utilizamos nos sonhos? Seria a que fazemos uso para compor poemas?
A lógica matemática poderia ser aplicada a emoções
ou a fatores da subjetividade? Haveria uma lógica capaz de ler
nossas sensações, nossos dados sensoriais?
*Em filosofia clínica, as formas, os modos que utilizamos para
lidar com nossas situações são denominados submodos.
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