| Eu estava atravessando
a Praça Quinze, no Rio de Janeiro, quando ouvi um sujeito - vou chamá-lo
de Mário - falando com um camelô sobre algo que fizeram com ele,
Mário, e que o deixara indignado. Nunca me esqueci da resposta do ambulante
(que, aliás, não parecia ter sido o autor do agravo):
SUJEITO:
- Blá, blá, blá, blá, blá, blá... porque
isso NÃO É DIREITO! AMBULANTE: - Amigo, se anzol não fosse
torto, não pegava peixe! Gosto de demarcar - tão arbitrariamente
quanto são demarcados outros períodos históricos - o período
de exatos duzentos anos que medeia entre 1789 - a Queda da Bastilha, início
"oficial" da Revolução Francesa - e 1989 - a Queda do
Muro (de Berlim), fim "oficial" da Guerra Fria - como o período
em que ocorreu a maior revolução antropológico-cultural da
história da humanidade.
| "Nosso
presente mostra que já existem condições concretas de estabelecermos
a paz e a harmonia neste planeta, mas a memória do passado pede que nos
mantenhamos fixados a um modo de operar afinado com o temor e com a guerra" | A
causa dessa revolução é simples. Nossa espécie, o
homo sapiens, povoa este planeta há pelo menos 100 mil anos. Até
1789 a expectativa média de vida do ser humano era de cerca de 35 anos
e a população mundial de cerca de 1 bilhão de pessoas, em
1989 essa expectativa havia duplicado, chegando aos 70, e a população
mundial sextuplicado, chegando aos 6 bilhões! Esses dados demonstram que,
durante o período assinalado - que me apraz chamar de "Os Grandes
Duzentos" - a AMEAÇA CONCRETA (não a AMEAÇA POTENCIAL)
à nossa vida sobre a Terra, tanto no que diz respeito ao indivíduo,
quanto no que diz respeito à espécie, caiu vertiginosamente. |
Ora,
se levarmos em conta que AMEAÇAS CONCRETAS são o fator mais fortemente
relacionado com a ELEVAÇÃO DO MEDO, somos levados a concluir que,
durante esse período também deve ter ocorrido uma DRÁSTICA
REDUÇÃO DO MEDO, tanto em nível individual, quanto em nível
coletivo, e há dados que apóiam tal conclusão, quais sejam:
as sociedades anteriores aos Grandes Duzentos - e todas aquelas que, ainda hoje,
apresentam expectativas individuais e coletivas de vida características
daquela época - organizam-se de acordo com o que chamei de "modo-sobrevivência":
são politicamente centralizadas, aguerridas e, conseqüentemente, dominadas
pelo macho, marginalizadoras do fraco, exaltadoras do sacrifício e da obediência;
as posteriores àquele período - e que superaram grandemente aquelas
expectativas - começaram a organizar-se de acordo com a matriz antropológica
a que denominei de "modo-bem-estar": são politicamente descentralizadas,
cooperativas, integradoras do feminino e do desvalido, valorizadoras da autonomia
e do prazer.
Um fator de natureza psicológica, contudo, nos mantém
imersos em uma verdadeira "pororoca antropológica", em que "modo
sobrevivência" e "modo-bem-estar" se digladiam. Esse fator,
em Psicanálise, tem o nome de "fixação". Nosso
presente mostra que já existem condições concretas de estabelecermos
a paz e a harmonia neste planeta, mas a memória do passado pede que nos
mantenhamos fixados a um modo de operar afinado com o temor e com a guerra.
E
para quem se sente em guerra, os outros não são semelhantes com
quem colaborar, mas peixes a pescar, exigindo o emprego de anzóis, que,
para funcionar, devem ser tortos.
Grande parte das chances de sucesso
da humanidade depende de que ela aprenda, com a Psicanálise, a desmanchar
suas fixações. Isso depende de um determinado uso da palavra, do
desenvolvimento de uma Nova Conversa, cuja natureza me venho dedicando a divulgar.
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