| "O livro de Ruyer tem
ideias interessantes, e faz menções frequentes e geralmente
corretas a discussões científicas, mas sua exposição
não é didática e nem rigorosa. Sua posição
básica é de que toda a Natureza é imbuída
de um Espírito, que dá sentido aos processos naturais,
especialmente na biologia. Sua filosofia não teve impacto entre
cientistas, mas o seu “neofinalismo” influenciou alguns
filósofos franceses, além de ter tido mais influência
entre os círculos esotéricos" |
Em 1974, o filósofo da biologia francês
Raymond Ruyer (1902-87) lançou um livro intitulado A Gnose
de Princeton, que foi um sucesso de vendas, e lançado
no Brasil pela editora Cultrix em 1989. Nele, ele descreve um grupo
não identificado de cientistas norte-americanos que estavam
desenvolvendo uma nova religião com base na ciência moderna,
especialmente na cosmologia (a ciência do Universo como um todo)
e na teoria da informação biológica. |
Tal grupo se considerava herdeiro da antiga tradição gnóstica,
uma corrente herética do cristianismo, no séc. I d.C., influenciada
pela filosofia da Platão, que pregava que podemos conhecer Deus
e o mundo suprassensível através da ciência. Eis um
resumo de algumas de suas teses, obtido do historiador da ciência
J.R. Partington:
1) O Deus supremo é diferente do criador do mundo
ou do Deus do Velho Testamento, às vezes considerado um ser maligno.
2) A matéria existe, é eterna, mas é
má.
3) O mundo atual é o resultado da “queda”
ou erro feito, na criação, por um ser mau, fraco ou ignorante.
4) Os “éons”, classe de poderes ou
seres que emanam do Ser Supremo, são forças reais, e o eón
Cristo é diferente do homem Jesus.
5) A alma caiu do mundo superior, e só pode ser
libertada de sua prisão na matéria por um deus salvador
que descenda com essa finalidade.
6) Há várias classes de homens, e só
os gnósticos são capazes de salvação.
A “gnose científica”, “nova gnose”, ou
“gnose de Princeton” não defende esses pontos específicos,
mas parte da ideia de que o Universo é um ser vivo e consciente,
um Sujeito totalmente abrangente, do qual nós, consciências
individuais limitadas, conseguimos conhecer melhor a partir da ciência.
A gnose científica teria surgido a partir do desenvolvimento da
cosmologia nas décadas de 1950 e 60. A origem da informação,
tão importante no reino biológico, não poderia ser
o mero acaso dos encontros fortuitos de moléculas, como quer o
materialismo, mas estaria no próprio “big bang”, o
início do nosso Universo, um Universo onde a “forma”
dominaria a matéria.
Na revista Planeta, de junho de 1977, Olavo de Carvalho, hoje
um bem conhecido filósofo e polemista, anunciava para o público
brasileiro as novidades do livro de Ruyer. “Nas últimas décadas,
operou-se, no interior do conhecimento físico do universo, [...]
uma revolução silenciosa. No retiro dos seus laboratórios,
a mais refinada elite da ciência norte-americana (que não
inclui só norte-americanos, mas japoneses, russos, italianos, etc.)
chegava à conclusão de que não só a hipótese
materialista não bastava para explicar uma quantidade crescente
de fenômenos, mas que essa quantidade crescente de fenômenos
convergia irremediavelmente em favor da hipótese contrária”
(texto disponível na web).
Há porém um problema com toda essa estória... Esse
grupo de cientistas gnósticos de Princeton nunca existiu, foi uma
ficção inventada por Ruyer, um engodo!
Esse fato, que aparece em sua biografia na Wikipedia, é
deveras interessante. Por um lado, ele mostra como todos gostam de invocar
a autoridade da ciência em defesa de suas ideias. Por outro lado,
a existência do engodo a rigor não deveria afetar a plausibilidade
da filosofia mística de Ruyer, herdeira da tradição
que chamamos “naturalismo animista” (ver texto “O que
é a Ciência Ortodoxa” - clique
aqui). O juízo que fazemos de um corpo de ideias deveria ser
independente de quem as defende. E apesar de não haver a “gnose
de Princeton”, há de fato vários cientistas e cosmólogos
– muitos citados por Ruyer – que defenderam ideias místicas
em algum momento de sua carreira: Arthur Eddington, James Jeans, J.B.S.
Haldane, Fred Hoyle, John Eccles, Arthur Koestler, e numa certa medida
David Bohm e Eugene Wigner. Por “misticismo”, entendo a tese
de que a natureza fora dos corpos de seres humanos e de animais superiores
seja imbuída de características espirituais, como inteligência,
vontade e sentido, o que se opõe ao “materialismo”.
O livro de Ruyer tem ideias interessantes, e faz menções
frequentes e geralmente corretas a discussões científicas,
mas sua exposição não é didática e
nem rigorosa. Sua posição básica é de que
toda a Natureza é imbuída de um Espírito, que dá
sentido aos processos naturais, especialmente na biologia. Sua filosofia
não teve impacto entre cientistas, mas o seu “neofinalismo”
influenciou alguns filósofos franceses, além de ter tido
mais influência entre os círculos esotéricos (uma
análise de suas ideias é feita por R.A. Wiklund, Philosophy
and Phenomenological Research 21, 1960, pp. 187-98).
No capítulo VII ele caracteriza corretamente a posição
materialista de que a ordem pode surgir do acaso, e não pretende
“refutar” o materialismo, mas sim contrapô-lo à
sua visão neognóstica. Posições metafísicas
geralmente não podem ser refutadas, pois elas envolvem teses a
respeito de entidades e processos inobserváveis, que não
são passíveis de verificação experimental.
O mais interessante de tudo isso é que ideias semelhantes às
de Ruyer vêm sendo propostas por alguns cientistas contemporâneos,
que buscam atribuir uma inteligência ao Universo como um todo. Seth
Lloyd (Programming the Universe) explora essas ideias de maneira mais
conservadora, ao passo que Frank Tipler (The Physics of Immortality)
imagina que se o Universo entrar num colapso final (big crunch), sua capacidade
computacional se tornaria infinita, recriando civilizações
passadas de maneira virtual.
Alguns cosmólogos, como o respeitável trio Fahri, Guth &
Guven, entre outros, especulam que uma civilização avançada
poderia ter a capacidade de criar novos universos. O conhecido cientista
e divulgador Paul Davies também tem explorado questões semelhantes
em seu livro The Mind of God.
Essas ideias estão longe de serem hegemônicas na comunidade
científica, mas indicam que há espaço para ideias
místicas na ciência.
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