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| "Que fique claro: não
pretendemos fazer aqui uma apologia dos jogos violentos, nem defender
sua liberação total e irrestrita. É importante
ter em mente que para tudo na vida a moderação é
fundamental" |
| "O adulto que se vê diante desses
jogos, tende a achá-los mais violentos do que as brincadeiras
da sua infância, pois imagina como reais as cenas que ali vê.
Ele não "pensa" as cenas do jogo como expressões
da fantasia" |
Um dos temas que sempre surge quando alguém
nos procura para conversar sobre as relações entre a
psicologia e a informática é a polêmica questão
da relação entre os jogos e a violência. |
A cada dia são lançados novos jogos que, no entender dos
adultos, incitam a violência podendo eventualmente influenciar as
crianças e adolescentes de hoje a se tornarem mais agressivos.
Será mesmo verdadeira essa impressão?
Se fizermos uma análise mais profunda do nosso dia-a-dia, será
inevitável perguntar quem surge primeiro: a violência urbana
ou a violência nos jogos. Sem dúvida, uma é reflexo
da outra.
No nosso entender, a criança busca jogos com conteúdos violentos
como uma forma de elaborar a realidade com a qual ela tem de conviver
em seu dia-a-dia.
Quando ela joga um game e "mata" o inimigo, ou "mata"
as "forças do mal", está explorando em si mesma
o potencial para lidar com as adversidades, para se sentir forte e poderosa
visando encarar o dia-a-dia real, permeado de situações
que ela sente serem maiores do que ela. Essa é versão atual
das tradicionais formas lúdicas de se elaborar dificuldades.
Em nossa infância, brincávamos de mocinho e bandido. Usávamos
armas de plástico e nos "matávamos", com direito
a grandes performances, se jogando no chão e fazendo sons que simulavam
a dor da morte. Nem por isso a maioria de nós se tornou bandido
ou têm uma moral questionável.
O adulto que se vê diante desses jogos, tende a achá-los
mais violentos do que as brincadeiras da sua infância, pois imagina
como reais as cenas que ali vê. Ele não "pensa"
as cenas do jogo como expressões da fantasia. Quando vê um
personagem atirando em outro, associa essa cena à dor da perda,
da agressão além de outros fatores, que no geral não
permeiam a mente de uma criança diante do mesmo jogo. Vale observar
que os jogos têm faixas etárias sugeridas, e isso pode ser
uma dica sobre o que é saudável ou não em determinada
idade.
Que fique claro: não pretendemos fazer aqui uma apologia dos jogos
violentos, nem defender sua liberação total e irrestrita.
É importante ter em mente que para tudo na vida a moderação
é fundamental. Se além do jogo a criança ou adolescentes
tem uma vida presencial saudável, vai para a escola, conversa com
amigos, mantém outras atividades lúdicas dentro de casa
(não relacionadas ao jogo) além de um convívio satisfatório
com os pais, então tudo bem.
Não será plausível esperar que crianças e
adolescentes fiquem longe dos games se não tiverem outras ofertas
de atividades. Entre ver televisão e jogar, estaremos no mesmo
patamar, tanto no âmbito de exibir violência como no de entreter.
O mais relevante não é o veículo em si, mas a forma
como os pais lidam com essas ferramentas, ao oferecerem alternativas de
lazer aos filhos. É importante propiciar a eles a chance de outras
atividades construtivas, com interação humana presencial,
facilitadoras de aprendizados.
Games: risco do vício
Muitos pais optam por deixar seus filhos diante do videogame por medo
da violência urbana. É mais fácil agir assim, pois
"sabem onde eles estão" e o que estão fazendo,
ou seja, desse modo, evitam os "riscos da rua". Mas essa opção
tem um preço. Se eu fizer de meu filho um prisioneiro dentro de
casa e só lhe oferecer o videogame como opção de
lazer, é quase inevitável que ele se "vicie" nessa
atividade. Alguns pais esquecem que sua função inclui a
tarefa de colocar limites e propiciar variadas atividades saudáveis
aos seus filhos.
Quando o "vício" em games se instala, vale observar e
avaliar a vida global da criança ou do adolescente. Geralmente
esse vício reflete que algo não está bem na sua vida
presencial, e que alguma questão psicológica está
se apresentando e precisa ser olhada com atenção. É
comum, por exemplo, na base do vício localizar-se alguma forma
de depressão.
E quais são os sinais? Como reconhecer que o vício se
faz presente?
Seguem algumas "dicas": O assunto predominante das conversas
do jovem passa a ser sobre os jogos; os amigos passam a ser só
aqueles que se interessam pelo mesmo game; a linguagem muda e começam
a ser incorporados termos típicos usados no jogo em questão.
O cansaço começa a tomar conta da vida desse jovem, e com
isso o rendimento escolar cai. Se, por alguma razão, a pessoa não
tem acesso ao videogame fica irritada ou ansiosa.
Para os pais, que se defrontam com uma situação desse tipo,
um bom caminho a seguir é tentar entender o significado que seu
filho está atribuindo àquele jogo. Olhar para a situação
(ao menos em um primeiro momento) sem julgamento, tentar se aproximar,
visando entender a função que essa atividade está
assumindo na vida de seu filho. De preferência, tentar até
mesmo aprender como jogar. Por vezes, os pais poderão ficar surpresos
com os efeitos obtidos com essa maior proximidade: poderão começar
a "conhecer", não apenas o game em questão, mas,
seu próprio filho (a), a partir de um contato mais próximo
com as coisas ou atividades que lhes são tão atraentes.
Mas, se essa aproximação não for suficiente, a busca
de uma ajuda profissional poderá ser a alternativa para se obter
uma solução satisfatória.
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