| "O determinismo genético
defendido por muitos ilustres pesquisadores está equivocado.
Nós psiquiatras observamos isso na nossa prática clínica
diária. Eventos estressantes como perdas afetivas, ameaças
e humilhações costumam ter impactos diferentes nas pessoas.
Algumas desenvolvem depressão ou transtorno de pânico,
outras não, mesmo sendo submetidas às mesmas experiências
estressoras" |
Os relatos de conexões entre genes e doenças
mentais sempre falharam ao serem reproduzidos.
Vou exemplificar... Ainda não encontramos na psiquiatria um
modelo genético específico e preciso que possa estabelecer
uma relação de causa e efeito-doença mental diretamente
relacionada a um gene. |
Observamos também que a vulnerabilidade das pessoas ao ambiente
varia. Muitos cientistas renomados, como o Professor Aushalom Caspi, do
Instituto de Psiquiatria de Londres, apontam um verdadeiro “pool”
de candidatos a fatores de risco ambientais para distúrbios antissociais,
depressão e esquizofrenia. É bom salientarmos que a concordância
das doenças altamente hereditárias não é perfeita
em gêmeos monozigóticos (idênticos).
Portanto, a grande pergunta é:
Por que, perante a mesma exposição ambiental, algumas
pessoas podem desenvolver uma doença mental e outras não?
Será que a resposta pode ser encontrada em suas seqüências
de DNA?
Segundo o Professor Caspi e outros, o determinismo genético defendido
por muitos ilustres pesquisadores está equivocado. Nós psiquiatras
observamos isso na nossa prática clínica diária.
Eventos estressantes como perdas afetivas, ameaças e humilhações
costumam ter impactos diferentes nas pessoas. Algumas desenvolvem depressão
ou transtorno de pânico, outras não, mesmo sendo submetidas
às mesmas experiências estressoras. Livros de autoajuda medíocres
(como a maioria) tentam ensinar a não ser frágil, a ser
racional, objetivo, determinado, vencedor e corajoso, entre outros aspectos.
Dão “receitas de bolo” sobre como pensar e agir positivamente,
fazer atividades físicas e de lazer, meditar, relaxar...
Tais autores, que geralmente nunca atenderam sequer a um paciente com
depressão na vida, equivocam-se porque a falta de reação
de determinadas pessoas aos estressores pode ser decorrente da maior vulnerabilidade
genética ao ambiente. Até mesmo grandes empresas precisam
abrir mais seus horizontes, costumam contratar para suas palestras motivacionais
mais atores, esportistas e palhaços do que pessoas realmente informadas
e sérias. Falam coisas que nunca servem para vários indivíduos,
um desperdício de dinheiro mal empregado.
Estudo longitudinal de Dunedin
Uma das brilhantes pesquisas desenvolvidas na linha acima é o Estudo
Longitudinal de Dunedin, um *estudo de coorte que acompanhou mil
crianças desde o nascimento; tais crianças foram avaliadas
em diversos momentos de suas vidas. Em 2003, foi descoberto que uma das
causas da variabilidade de respostas ao estresse entre as pessoas é
uma variação humana do gene transportador de serotonina
(5-HTT) que controla toda a sinalização do mensageiro químico
cerebral serotonina. Até mesmo a percepção do medo,
comandada por uma estrutura cerebral chamada “amígdala”,
é influenciada pelo 5-HTT.
Outro aspecto interessante é a variação genética
no gene MAOA (que codifica a enzima de mesmo nome) que pode ou não
influenciar crianças maltratadas a se tornarem adultos antissociais,
os temidos “psicopatas”.
Fico indignado quando leio ou ouço entrevistas de alguns colegas
médicos, inclusive psiquiatras, que afirmam categoricamente que
o psicopata já nasce assim e não tem “conserto”.
Há livros inverídicos sobre tal assunto, tentando até
dar “receitas” ou “vacinas” contra tais psicopatas.
Como se isso fosse possível para um leigo, com todo o respeito.
Negar acesso a tratamento é outro crime.
A taxa de distúrbios de comportamento é de 20% entre os
homens. Entre as crianças expostas a maus tratos, a taxa de distúrbios
de comportamento é de praticamente 50%. Como médico, observo
que algumas crianças maltratadas correm risco de desenvolver distúrbios
de comportamento, mas outras não, embora tenham vivido na mesma
situação.
Quando há menor expressão do MAOA, há maiores riscos,
após maus tratos, de a criança desenvolver distúrbios
de comportamento agressivo. Algumas pesquisas prévias mostraram
que drogas que inibiam a ação da enzima MAOA evitavam que
os animais se habituassem a estressores e tais animais tinham uma hiper-reatividade
a ameaças. Exames posteriores de neuroimagem demonstraram que indivíduos
com baixa atividade do gene MAOA são caracterizados por uma amígdala
hiper-responsiva.
Na mesma linha de pensamento, o brilhante Professor Caspi e colaboradores
vêm demonstrando a hipótese de que alguns indivíduos
podem ser geneticamente vulneráveis aos efeitos de canabis (maconha).
É comum eu receber jovens com surgimento de psicose, indo de sintomas
como alucinações e ilusões até distúrbios
graves como a esquizofrenia. Isso deve alertar pais, adolescentes e políticos
conscientes, eu costumo detalhar muito isso a todos eles. Geralmente,
o pico do período de risco para psicose é por volta dos
25 anos de idade. Tais pessoas são caracterizadas por uma variação
específica do gene COMT. O risco de psicose em adolescentes usando
canabis pode chegar a 8%, indo até a assustadora taxa de 15% naqueles
adolescentes com o polimorfismo (vem do grego: poli significa muito, e
morfo, forma) genético específico. Muitos podem me perguntar:
“Mas, Dr. 85% dos adolescentes de risco não desenvolvem psicose
com a maconha, certo?”. Sim, é correto, mas quando tal uso
atinge até irreversivelmente a saúde mental de um ente querido,
o raciocínio, na prática muda completamente. É inquestionável
para a medicina séria e científica que a maconha provoca
estragos de diversas ordens, com riscos de sequelas psiquiátricas
graves.
Médicos e sociedade devem estar abertos para entender as questões
envolvendo interações geneambientais. Muitos riscos genéticos
podem depender do ambiente, o homem precisa voltar a viver em paz e harmonia
com a natureza, com isso todos ganharão mais saúde e qualidade
de vida.
*Estudo de acompanhamento longitudinal, ao longo da vida
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