| Pouco terei a comentar sobre o diálogo
que passarei a descrever, salvo para demonstrar meu estarrecimento.
Não me lembro de haver conhecido nenhuma criança de quem
eu pensasse: “Esta não é apenas extraordinariamente
inteligente, esta é um gênio!” Pois bem, Samanta me
parece um gênio. E um gênio “na moita”. Quando,
aos quatro anos, foi colocada na escola, a professora chamou a mãe
e disse: “Sua filha parece que já sabe ler. Alguém
a ensinou?” Ninguém havia ensinado. Aprendera a ler sozinha.
Mas isso, evidentemente, é pouco. Vamos adiante.
Quando Samanta tinha onze anos, sua mãe comprou meu livro “A
Nova Conversa” e, percebendo que a filha estava começando
a folheá-lo, tirou-o da mão dela e disse que aquilo não
era leitura para ela. Quando a mãe ia dormir, ela surrupiava o
livro e devorava-o à noite, terminando-o em uma semana. Fossem
as circunstâncias menos adversas, certamente teria terminado essa
leitura em tempo recorde. Note-se que todas essas informações
foram-me passadas por uma tia, Irene, que já havia lido meu livro
e que, à época, morava na casa da mãe de Samanta,
sua irmã, e com quem, a cada dia, a menina compartilhava o que
havia descoberto em suas leituras da noite anterior.
Em pouco tempo, a menina estava começando a operar com conceitos
que aprendeu. No livro, eu digo que entre os maus ouvintes está
o “ávido”, aquele que quer ouvir mais do que o interlocutor
quer falar. Logo a mãe teve que ouvir da filha: “Você
está sendo ávida”! A mãe, naturalmente, desconfiou
do que havia acontecido, mas aí era tarde demais...
Recentemente, soube por Irene – Samanta tem agora 14 anos –
que se passou o seguinte diálogo entre ela e seu tio, Dimas, que
estava querendo atrair a menina para não sei lá qual religião.
DIMAS: — Mas, então, você é atéia!?
SAMANTA: — Eu não sou atéia, eu sou agnóstica!
Chiquérrimo! A menina, com um termo que muito adulto alfabetizado
não conhece – talvez mesmo nem o tio... – indicou com
precisão e firmeza ao parente-apóstolo que ela não
estava AFIRMANDO A INEXISTÊNCIA de Deus, estava fazendo uma SUSPENSÃO
DE JUÍZO em relação à matéria! Continuemos:
DIMAS: — Mas é importante para as pessoas acreditar em Deus!
SAMANTA (firme): — É importante para quem não tem
ética. Eu tenho ética. Não preciso me preocupar com
Deus. Aliás, nem ele precisa se preocupar comigo.
Espero que Deus proteja a inteligência brilhante dessa menina dos
ataques que um mundo bem menos inteligente do que ela certamente lhe irá
fazer.
Estou brincando. Eu também sou agnóstico. Espero sim, agora
sem brincadeiras, que o que ela aprendeu em meu livro lhe possa dar alguma
proteção.
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