| A referida matéria informa
que os psicopatas representam 20% da população carcerária,
o que não significa que sejam potenciais “serial killers”.
Segundo a matéria da revista, “o psicopata vai atrás
daquilo que lhe dá prazer. Pode ser dinheiro, status, poder. É
por isso que outro lugar fértil em psicopatas, além da cadeia,
é a firma.” Não limitado a este nível, mas
pelos objetos de desejo citados, podemos estimar que muitos dos psicopatas
estão em alguma posição de chefia.
“Chefe psicopata – você ainda vai ter um!”
Este bem que poderia ser um título alternativo para o presente
artigo. Claro que não me refiro àqueles ainda trancafiados
em um sistema manicomial medieval, mas àqueles com abordagens bem
mais sutis e sofisticadas que até são consideradas qualidades
por algumas pessoas e/ou por algum tempo.
Não estamos falando também de criminosos, como os “Bernie
Madoffs” que andam por aí (soltos ou presos) ainda que muitos
fazem alastrar úlceras e alagar o ambiente de trabalho com lágrimas.
Porém, como entregam resultados no curto prazo para organizações
gananciosas, conseguem preservar suas posições por muito
tempo até que descarrilem em suas carreiras.
Ainda segundo a matéria citada, “até 3,9% dos executivos
de empresas podem ser psicopatas, segundo uma pesquisa feita em companhias
americanas. Uma taxa quatro vezes maior do que na população
geral.” A quantidade de fraudes espalhadas pelo mundo corporativo
provavelmente é determinada por este segmento não muito
confiado em altos escalões das grandes corporações
ou no balcão da pequena farmácia da esquina.
Por que executivos fracassam?
Na segunda metade dos anos 80, alguns psicólogos organizacionais
pesquisaram um tema muito interessante a respeito de nosso tema: “Por
que executivos, tecnicamente muito competentes, em algum ponto de suas
carreiras, descarrilavam, ou seja, saíam dos trilhos de uma carreira
de sucesso e fracassavam. A conclusão a que chegaram é que
o fracasso se devia não à falta de alguma caraterística
positiva, mas por demonstrarem alguns traços negativos –
mostravam-se arrogantes, cínicos, vingativos, explosivos, indecisos,
etc. Além disso, verificaram que a origem de alguns desses comportamentos
eram aspectos positivos que exagerados, se transformavam em “Descarriladores
de Carreiras”. A primeira vez que ouvi sobre isto foi em 1989 por
um dos pesquisadores que cunharam este conceito e desde então me
interesso pelo tema.
Trazendo para uma linguagem atual e usual nas empresas de hoje, essas
características são as competências pessoais. Por
esta leitura, aspectos como atenção a detalhes, execução
com qualidade, assertividade, expressão verbal e outras, bastante
valorizadas pelas empresas, trariam consigo um potencial de derrapagem
profissional e podem resultar num tombo desagradável.
Mais recentemente, na década de 90, Robert Hogan, psicólogo
norte americano, pesquisador sobre Personalidade e Liderança,
analisou as características identificadas nas pesquisas citadas
e foi encontrar coincidências nas definições das Psicopatologias
estudadas pela Psiquiatria e Psicologia. Traduzindo para
a personalidade “normal” e para o mundo organizacional, ele
criou uma ferramenta de avaliação psicológica que
mensura onze dimensões de personalidade com potencial de transformar
um ponto forte num risco de sair dos trilhos. Essa possibilidade de revelar
o “lado escuro da força”, lembrando Darth Vader de
Guerra nas Estrelas, costuma aparecer em situações
de estresse, pressão, mudança e insegurança, e o
pior é que, geralmente, a vítima não se dá
conta.
Estas dimensões não tratam apenas do termo genérico
de senso comum usado na matéria da Superinteressante,
o Psicopata que logo relacionamos a potencias criminosos e doentes
mentais. Elas tratam, sim, de comportamentos que podem ser os mesmos pontos
fortes que nos apoiaram na ascensão profissional mas que, ao cruzarmos
a linha ideal, e correr o risco (maior ou menor, segundo informado pelo
instrumento) de apresentar comportamentos disfuncionais que podem nos
fazer derrapar ladeira abaixo na carreira.
Todos nós, “pessoas normais” (as aspas são propositais)
temos nossos “descarriladores” e podemos até ser orgulhosos
deles, desde que tenhamos consciência de quando podem mostrar seus
efeitos nocivos, para nos recolocarmos nos eixos. Numa série de
artigos nesta a coluna do site Vya Estelar, abordei estes
11 tipos de “lado escuro da força” - clique
aqui e leia.
Como um trailer para quem pretender ler os outros artigos daquela série
e visando a diferenciar aqueles tipos do conceito pesado presente na matéria
dos Psicopatas S.A., destaco: o tipo “Perfeccionista” que
está eternamente buscando o pelo na casca do ovo e acaba centralizando
as decisões, pois ninguém pode fazer o trabalho bem como
ele. O “Cauteloso” que para evitar críticas, adia a
tomada de decisões pedindo mais uma informação para
sua equipe desconsolada. O “Temperamental” cujo humor pode
variar com as fases da lua. O “Arrogante” que parodiando Caetano
Veloso em Sampa, “acha feio o que não é espelho”
e pode assumir como o Grande Ditador que julga sempre estar certo.
O “Reservado” que no auge da crise da firma com boatos de
fusão e demissões, ele se fecha na concha de seu escritório
e ai de quem for tentar cruzar seu cordão de isolamento. O “Ardiloso”
que adora testar limites para alcançar seus objetivos, usando de
uma incrível capacidade de manipulação social e de
“lobby” para conseguir o que quer. O “Cético”
que desconfia da própria sombra até prova em contrário
e pode achar que todo mundo é uma ameaça potencial à
sua segurança.
Importante lembrar que todos estes tipos, em seus melhores dias, têm
seu lado positivo – o “Perfeccionista” não deixa
escapar nenhum errinho antes ou depois da vírgula, o “Cauteloso”
não comete erros tolos por impulsividade, o “Temperamental”
tem energia de sobra dentro do vulcão de sua personalidade, o “Arrogante”
é autoconfiante, convicto e assertivo sobre seus pontos de vista,
e assim por diante. O problema é quando deixamos passar do ponto;
é aí que o caldo desanda e junto nossa avaliação
de desempenho.
A Personalidade não pode ser mudada, mas nossos
Comportamentos sim...
Nossa personalidade começa a ser formada em nossa primeira infância
e está praticamente completa no período da adolescência.
A partir daí, podemos afirmar que não conseguimos mudar
a essência de nossa personalidade. O que podemos (e devemos) fazer
é reconhecer que temos traços de personalidade, manifestados
em comportamentos que são fortalezas de nosso caráter elogiadas
pelas pessoas. Estes comportamentos devem ser capitalizados porque nos
movem às maiores realizações em qualquer campo.
Por outro lado, o exercício contínuo de nosso autoconhecimento
estratégico também deve ser exercido para identificarmos
aqueles comportamentos que precisamos desenvolver para aprimorar nossa
reputação nos ambientes em que atuamos. Podem ser comportamentos
que temos no dia a dia, como interromper os outros quando estão
tentando falar, perder a paciência com pequenos erros dos outros,
tomar decisões impulsivas, sem pensar nas consequências para
os que estão ao nosso redor ou podem ser comportamentos que podemos
demonstrar quando não estamos em nossos melhores dias.
Como posso lidar com meus Descarriladores de Carreira?
Podemos adotar dois caminhos alternativos diante dos sinais do ambiente
de que mostramos comportamentos que as pessoas gostariam que continuemos
a apresentar e outros menos apreciados que as pessoas gostariam que parássemos
de mostrar. Podemos investir continuamente em nosso autoconhecimento e,
pela autocrítica bem calibrada, buscarmos o ajuste fino de nossa
eficácia pessoal ou podemos adotar a “postura da Gabriela”
– “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou Gabriela”
e poderíamos completar – “e os outros que se adaptem
a mim”. Obviamente, pesquisas apontam que os profissionais considerados
como talentos de alto potencial em suas organizações adotam
a primeira estratégia. Para estes, seguem algumas dicas:
Geralmente, num autoexame honesto e realista de nossa consciência
e ações, já temos uma boa ideia de nossos traços
de personalidade e comportamentos deles decorrentes.
O Perfeccionista sabe o quanto ele sofre quando encontra qualquer
pequeno erro num trabalho de menor importância. Para ele(a) tudo
deve estar sempre divinamente perfeito. O Temperamental sabe
que é meio estourado, ainda que sempre tenha uma justificativa
para tal. O Cauteloso sabe de seu receio um tanto exagerado de
tomar uma decisão errada. Se temos consciência disto, devemos
estar atentos para minimizar o impacto destes comportamentos. Quando não
temos consciência sobre estes comportamentos devemos ligar o radar
social com urgência
Se ligarmos nosso “desconfiômetro” podemos captar alguns
sintomas de que talvez estejamos cruzando o sinal vermelho do exagero
de um ponto forte. Se numa reunião com a equipe depois de pouco
tempo em que eu assertivamente comunico um plano de ação,
as pessoas logo param de dar suas contribuições provavelmente
é um sintoma de que eu talvez esteja entrando numa derrapada arrogante
– eu sou o dono da razão ou do “manda quem pode, obedece
quem tem juízo” – e logo mais, você vai ter uma
fileira de vaquinhas de presépio que nada agregam a seu sucesso.
A retroalimentação de nossos comportamentos (o feedback)
é o espelho social indispensável na carreira
Outro elemento do radar social, e um dos mais ricos, é pedir feedback
às pessoas com as quais trabalhamos – chefes, pares e subordinados
– para confirmarmos nossas suspeitas levantadas por nossa autocrítica.
Pode parecer simples, mas a suprema habilidade da comunicação
– ouvir ativamente – nem sempre é fácil de ser
praticada. Especialmente, quando só queremos receber elogios e
nos justificamos para todos demais comentários. Outra barreira
interna que nos colocamos para esta ação é o medo
de mostrarmos vulnerabilidades que enfraquecerão nossa liderança.
Minha experiência como liderado no mundo corporativo e como “coach”
de executivos, é que aqueles que têm mais poder são
os que menos receio têm de reconhecer um erro ou uma fraqueza –
seu poder é interior e não do crachá de chefe concedido
pela firma.
É importante pois praticarmos a escuta ativa e autêntica
de feedbacks. Se começarmos a nos defender e justificar, podemos
estar certos de que nunca mais receberemos as informações
relevantes que os outros têm a nos presentear com suas percepções.
Passaremos a escutar apenas aquilo que queremos. Como em um AVC, as artérias
de nosso desenvolvimento vão ficar entupidas e poderemos ter um
infarto na válvula da carreira.
O estresse está chegando, e agora?
Como explicamos, geralmente, nossos descarriladores entram em ação
quando estamos entrando numa situação de pressão,
transição, incerteza que nos causa estresse. Segundo a teoria
da Inteligência Emocional, nessas condições
costumamos reagir instintivamente e menos racionalmente, na tentativa
de lidar com a sensação de “perigo” que aquela
situação nos causa.
Portanto, se já temos consciência de nossas tendências
disfuncionais sob estresse e sabemos que comportamentos devemos evitar,
então é importante estarmos muito alertas quando o estresse
se esboça em nossa mente para colocarmos em ação
nosso “kit antidescarrilamento”.
O Temperamental que sabe o que acende seu pavio curto, pode sair
de cena por um tempo e contar de 100 a 1 em alemão (sem conhecer
o idioma) para esticar cada vez mais seu gatilho. Ou melhor ainda, usar
sua razão e inteligência e cortar o disparador de sua explosão
nuclear. O Arrogante que acredita que sempre tem razão
e sufoca as contribuições de seus talentos, quando está
sob pressão, deve fazer um voto de silêncio de 5 a 15 minutos
depois de expor seu plano para ouvir as ideias e preocupações
de seu pessoal com o plano apresentado, cuidando durante este prazo para
as caras e gestos que nosso corpo pode encontrar como forma de manifestar
a mesma postura castradora das palavras. Um sorriso de Monalisa e o olhar
atento são a melhor alternativa.
Nossos valores = alicerce de nossa personalidade
Uma imagem muito comum para descrever como e por que agimos de certa maneira
é a do iceberg. Na superfície, conseguimos observar o comportamento
das pessoas. Abaixo da superfície identificamos seus conhecimentos,
habilidades e atitudes, ou seja, os instrumentos de que a pessoa dispõe
para agir ou se desempenhar da maneira que o faz. Bem mais ao fundo, na
base do iceberg podemos imaginar seus valores e motivos que ajudam a explicar
porque elas desenvolvem certas competências e mostram seus comportamentos
na superfície das interações sociais cotidianas.
Voltando a nos referir à matéria da Superinteressante,
os psicopatas são descritos como pessoas racionais, astutas, sem
uma conexão emocional genuína e empática com os outros,
que podem mostrar-se extremamente hábeis em captar as motivações
dos outros para mentir e manipulá-las para conseguir seus objetivos
essencialmente egoístas. Bernard Madoff, cujo esquema de “pirâmide
financeira” desabou com a crise financeira de 2008, levando seus
clientes a perdas de 65 bilhões de dólares, teria dito na
prisão, segundo a revista, “Quero que as minhas vítimas
se ferrem. Eu as sustentei por 20 anos e agora vou ter que cumprir 150.”
Fica claro que os valores que amparam os comportamentos do Bernie não
eram aceitáveis para pessoas honestas e de bom senso.
Em nossa abordagem dos traços de personalidade que podem fazer
nossa carreira descer ladeira abaixo, não estamos assemelhando
os descarriladores com psicopatia, pois os motivos e valores que estão
debaixo dos comportamentos descritos podem não ter nenhuma conotação
da desonestidade e frieza do mau caráter, mas ser apenas uma questão
de falta de autoconhecimento e de habilidades a ser revisada.
A pessoa de valores éticos e empáticos que busca “fazer
aos outros o que gostaria que lhe fizessem”, ao identificar formas
que podem estar prejudicando o desempenho de outros, além de sua
própria carreira, provavelmente, vai se esforçar para uma
correção de rota para que sua carreira não tenha
o mesmo destino do “Titanic” quando bateu contra o iceberg.
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