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Estratégia utilizada para combater gripe suína no Brasil é de alto risco
por Alex Botsaris

Estamos assistindo a fase final de uma epidemia de gripe que custou a vida de milhares de brasileiros desnecessariamente. Digo milhares porque os números oficiais só refletem os casos diagnosticados, mas os conhecimentos de epidemiologia nos permitem estimar umas 150 mil mortes em todo país, a maioria crianças, adolescentes, adultos jovens e gestantes, que vão ficar como sequela irreparável desse episódio. Por sorte, sabemos também, através desses mesmos conhecimentos, que os surtos de gripe por vírus influenza costumam entrar em fase declinante entre a oitava é décima semana, portanto a partir de agora a situação deverá voltar à normalidade num horizonte máximo de 4 semanas.

Escrevi para essa coluna em começo de junho (clique aqui), alertando para o risco iminente da epidemia e também para a forma incorreta como esse problema estava sendo tratado pelo nosso governo. Todos os problemas que ocorreram, inclusive os mais sérios, como a mortalidade de gestantes, eu apontei seu risco e solicitei providências em artigos a diferentes jornais, mas de nada adiantou. Não sou nenhum gênio, mas apenas um médico que procura se informar bem, avaliando as informações com maior lucidez, na busca de vislumbrar a realidade. Os dados que consultei eram todos de domínio público seja no CDC americano Centers for Disease Control and Prevention ou na Organização Mundial da Saúde.

Sou grande admirador do ministro José Temporão, mas nesse caso não posso aprovar o comportamento do Ministério da Saúde. Imagino que nesse campo o ministro deve estar mal assessorado e deveria procurar novos conselheiros após a gestão desastrosa que foi feita nessa crise. Lembrando os leitores, em meados de junho o Ministério da Saúde colocou um anúncio na mídia dizendo que a gripe suína era um problema que ocorria no exterior, e ele estava muito bem preparado para enfrenta-lá caso chegasse ao nosso país. Foi dito inclusive que o governo possuía 8 milhões de doses de antiviral.

Foi montada uma estratégia de controle de fronteiras, onde o governo concentrou suas ações. A proposta de agir para conter a entrada do vírus no país se justifica apenas como medida para adiar algumas semanas o início da epidemia sazonal, já que todo epidemiologista sabe que é impossível conter completamente a disseminação desse vírus nas estações frias. Em geral esse tempo de duas ou três semanas ajuda porque encurta o surto e dá tempo as autoridades de saúde de se prepararem para fazer frente às demandas geradas pela epidemia.

Ações para combater a gripe suína

Nesse período o governo deveria estar capacitando as equipes de saúde para fazer o diagnóstico de suspeita, disponibilizando antiviral nas unidades públicas de atendimento, comprando respiradores e criando unidades de assistência ventilatória específicas para os casos graves, criando espaços nas unidades de saúde exclusivos para atendimento dos casos suspeitos, implementando programas de proteção aos grupos de risco como as gestantes, capacitando mais laboratórios a fazer o exame de identificação do vírus H1N1. Enfim, se preparando para dar uma real assistência aos acometidos pela epidemia, especialmente nos estados do sul do país.

Entretanto nada disso não foi feito. Foi feito, sim, um estardalhaço com os casos de pacientes contaminados no exterior, ao mesmo tempo que a infraestrutura montada para fazer o diagnóstico da doença era precária. Apenas um centro de referência nas capitais fazia o exame, que exige um treinamento rigoroso para que seja feito adequadamente. Isso é claramente insuficiente para uma epidemia, e resultou na falta de capacidade para testar a grande maioria dos pacientes suspeitos.

Para agravar exigia-se, para fazer o exame de confirmação do vírus H1N1, um “nexo epidemiológico”, ou seja, apenas as pessoas que chegavam do exterior ou aquelas que tinham contato com pessoas que viajaram estavam aptas à investigação laboratorial. Agindo dessa forma, nenhum caso autóctone (aquele que ocorre sem que o nexo epidemiológico seja estabelecido) seria identificado, ou então essa identificação seria tardia, quando a doença já estivesse disseminada no nosso meio, como acabou ocorrendo.

Estratégia de alto risco

Uma estratégia de alto risco e baseada na concepção quixotesca que se poderia administrar a gripe suína dessa forma, foi traçada em algum gabinete em Brasília, e uma grande pressão foi feita pelo Ministério da Saúde para minimizar o problema. Enquanto isso, eu acompanhei meu primeiro caso dessa nova gripe. Uma estudante de 17 anos, filha de uma amiga apareceu com uma doença gripal, com febre por mais de 5 dias, acompanhada de vários sintomas sugestivos da gripe A H1N1. Náuseas, vômitos, dores de cabeça recorrentes e sibilos pulmonares. Essa menina perdeu 5 Kg no período de doença e chegou a precisar de internação hospitalar. Ponderei com o médico que fez o seu atendimento no hospital, da necessidade de notificar como suspeita de gripe suína, e cheguei a ligar para a vigilância epidemiológica da Secretaria de Saúde – tudo em vão – a resposta sempre a mesma: Não pode ser gripe suína porque não tem vínculo epidemiológico, mas se negaram a fazer a pesquisa de vírus H1N1. Posteriormente o colégio dessa menina paralisou as aulas porque vários alunos apareceram doentes.

Nesse ponto os casos de gripe começaram a aumentar e os primeiros óbitos oficiais começaram a acontecer. O governo através do ministro Temporão e de anúncios na mídia, fincou o pé tentando propagar o conceito que a gripe suína não tinha nada demais e que a sua mortalidade era igual a gripe sazonal, e que estava se fazendo uma tempestade num copo d´água. Tive oportunidade de assistir a diversos colegas que ostentam o título de especialistas na área de doenças infecciosas, alguns pertencentes às melhores universidades brasileiras, defenderem essas ideias do Ministério da Saúde, ao mesmo tempo que afirmavam que não havia motivo para pânico. Realmente pânico não ajuda ninguém, mas cabe aos detentores do conhecimento cobrar que as medidas corretas sejam implementadas e não ficarem apenas colocando panos quentes, em abscessos, que podem se romper, à qualquer instante.

Eu fiquei indignado com essa postura oficial. Em entrevista a um jornal, fiz a seguinte pergunta: “Pode uma gripe que mata crianças, grávidas e adultos jovens ser comparada à outra cuja mortalidade se concentra acima dos 70 anos?” E nessa entrevista ainda ressaltei a questão das gestantes, pois o Ministério da Saúde não havia feito nenhum protocolo de proteção para elas, e os dados de outros países eram muito preocupantes: Esses dados mostravam que cerca de 30% das gestantes poderiam fazer um quadro grave de doença e 10% chegar ao óbito. Parece que eu estava sendo profético, já na semana seguinte o falecimento de gestantes não parou de engordar as estatísticas terríveis dessa doença, em muitos casos envolvendo a morte dos fetos também.

Nesse mesmo momento, uma paciente minha também contraiu uma gripe, que evoluiu com quadro respiratório acompanhado falta de ar. Ela foi internada num excelente hospital da Zona Sul do Rio de Janeiro, e quando informado do caso, solicitei ao médico que a acompanhava, que iniciasse o antiviral Tamiflu. Fui informado pelo médico que o hospital não possuía esse medicamento no estoque e que o Ministério de Saúde havia criado um protocolo que apenas os doentes mais graves poderiam receber o antiviral. Por sorte, a pneumonia viral não matou essa paciente, mas ela ficou com insuficiência respiratória por uma semana. Através de notícias da mídia soube que não havia antiviral na maioria das unidades de saúde. Ou seja, as pessoas chegavam ao hospital com suspeita de gripe suína e ninguém era tratado. Não é de se espantar que tantas grávidas faleceram.

Protocolo absurdo

Esse protocolo do Ministério da Saúde era a coisa mais absurda do mundo. Ele preconizava que só após reconhecida a gravidade do caso, o medicamento poderia ser administrado. A questão é que o Tamiflu só possui atividade nos dois primeiros dias de doença. Já os sinais de gravidade em geral aparecem no terceiro ou quarto dia. Assim quando havia a tal indicação, a oportunidade de tratar já havia sido perdida. Essa contradição era tão evidente que os próprios jornalistas começaram a questioná-la nas entrevistas a especialistas. Minha voz também não ficou solitária, alguns profissionais de renome, como o Dr Edmilson Migowsky da UFRJ, veio a público questionar a postura do Ministério da Saúde. Foi só nesse momento, na terceira semana de julho, que caiu a ficha oficial e as autoridades resolveram resolver se mexer. O Ministério mandou o IVB, um laboratório estatal, envasar o seu estoque de oseltamivir – o princípio ativo do Tamiflu. Incrivelmente a epidemia estava no meio e o Governo não havia nem colocado o medicamento nas cápsulas, por isso ele não estava nas unidades de saúde.

Apesar de admirar o ministro Temporão como já disse, acho que foi um equívoco gravíssimo. Num país de primeiro mundo, a cabeça do Ministro da Saúde teria rolado num episódio como esse. E o pior é que a onda de equívocos não terminou aí. O governo decidiu que não ia mais fazer exames na maioria dos pacientes, por causa do aumento do número de casos de um lado e a incapacidade dos laboratórios oficiais dar conta desse aumento de demanda. De novo fui para a mídia questionar essa conduta, pois a pior coisa que pode acontecer é ocorrer uma epidemia e não coletarmos as informações necessárias para melhorar a proteção da população no próximo surto. Minha sugestão foi que trabalhássemos com amostragens de população, dessa forma seria possível extrapolar o resultado para o Brasil como um todo. Outros especialistas da área de epidemiologia fizeram a mesma sugestão, mas vamos ficar mesmo sem muita informação.

A população começou a notar a contradição entre as declarações do governo e o que ocorria na realidade. Com isso se instaurou o clima de pânico que o governo tanto tentou evitar, de maneira errônea. As pessoas, em geral as das classes desassistidas, começaram a lotar as unidades de saúde ao menor sinal de gripe. As unidades de saúde que já são precárias entraram em colapso. Muitas pessoas com problemas respiratórios severos deixaram de ser assistidas. Recebi telefonemas de amigos que me pediram orientação para tratamento de seus empregados e outras pessoas de classe social mais baixa, de seu contato, que estavam sem qualquer suporte médico por falta de atendimento. Devem ter ocorrido muitas tragédias que nunca iremos saber, com grande sofrimento de pessoas que ficaram à sombra da sociedade. Graças a Deus, nessa última semana temos indicativos que a curva de novos casos está mudando de direção e sinalizando com uma redução significativa.

Afinal, como disse ali no começo, esse surto se aproxima do final e só nos resta torcer para que a situação retorne para o controle o mais breve possível e que nenhuma gestante mais venha a perder a vida. Vale notar que na Austrália houve um surto de gripe suína comparável ao nosso em número de casos, mas como o governo montou um grande esquema para diagnosticar e tratar rapidamente os pacientes, a mortalidade foi bem menor que a nossa. Até o dia 15 de agosto foram diagnosticados 30 mil casos de gripe pelo vírus H1N1, sendo que apenas 110 pacientes faleceram. A maior parte dos obtos ocorreu em paciente portadores de múltiplos fatores de risco como imunodeficiência, câncer, diabetes, hipertensão arterial grave, doenças pulmonares crônicas e insuficiência renal.

Muitas escolas decidiram adiar a o início das aulas no segundo semestre, uma decisão acertada, já que os dados epidemiológicos mostram que o ambiente escolar é o mais propício a disseminação do vírus, e a volta as aulas poderia dar novo gás ao surto epidêmico. Entretanto, essa decisão ficou nas costas dos diretores das instituições, pois o governo não foi capaz de formular uma estratégia nacional para o problema. O presidente do sindicato das escolas particulares do Rio de Janeiro fez uma reclamação pública na imprensa criticando essa omissão dos governos federal e estadual, num momento onde deveria haver uma diretriz das autoridades da saúde sobre o problema.

E para terminar a série de equívocos desse lamentável episódio, a Anvisa acabou de proibir a veiculação de propaganda de medicamentos para gripe, na semana passada, sob alegação de que estava estimulando a automedicação. Além de ridícula e sem qualquer benefício prático, essa atitude faz pensar que o governo procura um eventual bode expiatório para encobrir seus equívocos. A pergunta que fica é:

O que teria acontecido se esse vírus fosse mais letal?

Fatalmente, uma tragédia de enormes proporções. Torço que no futuro o governo se capacite para fazer uma gestão inteligente e responsável de eventuais surtos de gripe que fatalmente vão acontecer nos próximos anos.

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Atenção! Esse texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um médico e não se caracterizam como sendo um atendimento

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Alex Botsaris
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