| "Síndrome
de Dependência de Opióides (como a Heroína), a utilização
de medicações específicas deve ser realizada, dada
a intensa fissura"
Tenho um amigo que viajou para fora por três anos e voltou
totalmente viciado em heroína. Agora, no Brasil, está sofrendo
muito com a abstinência. O que ele deve fazer ?
| "Cerca de 70% dos usuários
de heroína apresentam co-morbidades com algum outro transtorno
psiquiátrico, freqüentemente depressão, transtornos
de personalidade e abuso/dependência de outras substâncias.
Esses outros problemas podem ser primários ou secundários
ao uso de heroína" |
Resposta:
A heroína é uma das substâncias psicoativas com
maior potencial para induzir quadros de dependência e síndrome
de abstinência. Descoberta em 1874, essa droga logo revelou
seu alto potencial aditivo. Embora muitos usuários ainda façam
uso injetável dessa substância, muitos outros utilizam
essa droga na forma fumada ou mesmo inalada. |
Ação no organismo e speedball
A substância age como um poderoso depressor do sistema nervoso central
e causa efeitos como intensa tranqüilidade, analgesia e prazer, provocando
um estado de sonolência. Esse estado é conhecido entre os
usuários como "cabeceio". Para contrabalançar
os efeitos letárgicos da droga, ela às vezes é misturada
com algum estimulante como, por exemplo, a cocaína, formando então
uma mistura conhecida como “speedball”.
Efeitos
Através do uso da droga, os usuários procuram sensações
de êxtase, bem-estar e conforto que ocorrem quase que imediatamente
após a injeção da droga; as pupilas ficam puntiformes
(bastante contraídas); após algum tempo, o usuário
entra em estado depressivo, buscando novas doses para repetir o efeito
de prazer. A intensidade dessa sensação varia de acordo
com a quantidade da droga que é administrada e a velocidade com
a qual ela atinge o Sistema Nervoso Central e está associada com
a atividade dos receptores opióides específicos.
Intoxicação
O primeiro e um dos mais dramáticos quadros clínicos decorrentes
do uso inadequado de heroína é a intoxicação,
a qual pode ser acidental ou intencional. A tríade miose (pupilas
contraídas), depressão respiratória e coma sugerem
superdosagem (overdose) da droga. Outros sintomas físicos que podem
surgir são edema pulmonar, hipóxia (falta de oxigenação
cerebral), hipotonia e morte. Constitui quadro de emergência médica,
devendo ser abordado em pronto-socorro.
As manifestações clínicas relacionadas ao uso de
heroína são devidas aos efeitos farmacológicos da
droga, complicações relacionadas à via de administração,
e diluentes ou substâncias misturadas à droga.
Cerca de 70% dos usuários de heroína apresentam co-morbidades
com algum outro transtorno psiquiátrico, freqüentemente depressão,
transtornos de personalidade e abuso/dependência de outras substâncias.
Esses outros problemas podem ser primários ou secundários
ao uso de heroína.
Síndrome de abstinência de heroína
A síndrome de abstinência da heroína apresenta as
seguintes fases, didaticamente falando:
1. Antecipatória: ocorre três a quatro horas
após o uso e é caracterizada por medo da falta da droga;
comportamento de busca pela droga, ansiedade e fissura;
2. Inicial: ocorre entre 8 e 10 horas
após o uso, sendo caracterizada, clinicamente, por ansiedade, inquietação,
bocejos, espirros, sudorese, lacrimejamento, rinorréia, obstrução
nasal, náuseas e midríase (dilatação pupilar);
3. Total: de um a três dias após o uso,
caracterizando-se por ansiedade, tremor, inquietação, piloereção,
vômitos, diarréia, espasmo e dor muscular, aumento da pressão
arterial, taquicardia, febre e calafrios;
4. Tardia ou protraída: o dependente, mesmo após
alguns meses sem o consumo da substância, pode apresentar hipotensão,
bradicardia, fadiga, inapetência, insônia e fissura.
Na verdade, a síndrome de abstinência de heroína
(as três primeiras fases acima descritas) é um quadro bastante
dramático e deve ser tratado por médicos altamente especializados
na área e, freqüentemente, em regime de internação.
Tratamento
As principais formas de tratar dependentes químicos são:
psicoterapias, grupos de mútua ajuda (Alcoólicos Anônimos,
Narcóticos Anônimos), tratamento em regime de internação,
tratamento em regime de ambulatório e tratamento psicofarmacológico.
No caso da Síndrome de Dependência de Opióides (como
a Heroína), a utilização de medicações
específicas deve ser realizada, dada a intensa fissura e sintomas
físicos relacionados com a abstinência “aguda”
ou “protraída”.
Abaixo, forneço recomendação de leitura sobre as
formas de manejo da síndrome de dependência de heroína:
Baltieri, D. A., Strain, E. C., Dias, J. C., Scivoletto, S., Malbergier,
A., Nicastri, S., Jeronimo, C., & Andrade, A. G. (2004). [Brazilian
guideline for the treatment of patients with opioids dependence syndrome].
Rev Bras Psiquiatr, 26(4), 259-69.
Atenção!
As respostas do profissional desta coluna não substituem uma
consulta ou acompanhamento de um profissional de psiquiatria e não
se caracterizam como sendo um atendimento
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