| “Acho que comecei a me perder
quando estava na adolescência, ou talvez antes, quando tudo que
eu queria fazer ainda criança era interrompido com alguma justificativa
que não estava certo, que eu devia agir de outro modo ao que eu
insistia em fazer. Eram cobranças, comparações, acusações,
sempre alguém me colocando para baixo e eu pensava que deviam estar
certos, afinal sempre estavam. Nada do que eu falava, fazia ou sentia
parecia ser o certo. Assim, sem perceber, fui me moldando ao que esperavam
que eu fosse, quem sabe assim receberia algum elogio ou reconhecimento.
Enquanto eu agradava aos outros, sem ao certo saber sobre meus próprios
sentimentos nem o que agradava a mim mesma, as coisas continuaram tranquilas
para todo mundo por alguns anos, até que, encontrei um rapaz que
pensava ser ideal e fazia ainda mais para agradar a ele. Quem sabe dessa
vez haveria algum reconhecimento de meus valores. Meu noivo me dizia que
eu estava simplesmente louca ou alegre e eu concordava com ele e as coisas
paravam por aí, sem questionamentos. Quando, depois de uns quatro
anos, olhei de frente o nosso relacionamento, percebi que eu era tudo
que ele e outras pessoas queriam que eu fosse e nada do que eu era realmente.
Então, quando comecei a pensar mais profundamente sobre nosso relacionamento,
percebi que estava com raiva porque não estava seguindo minhas
verdadeiras emoções, afinal, eu nem sabia quais eram. Sempre
emotiva e cheia de sentimentos. Não conseguia separá-los
ou identificá-los, sentindo uma angústia constante.
Lembro-me de uma noite em particular que sentia raiva. Sentia raiva porque
queria falar sobre algo, mas não conseguia identificar o que era.
Até que fiquei tão transtornada que fiquei assustada. Chorei
algumas horas e os sentimentos afloraram. Tudo que sei é que saíram
de mim tanta dor e tanta raiva como na realidade não poderia jamais
imaginar que existissem. Parecia que um estranho havia tomado conta de
mim e que eu estava tendo alucinações. Continuei assim,
até que depois de uns dias, estava sentada, pensando, e percebi
que esse estranho era o “eu” que eu estava tentando encontrar.
Intuição, pensamentos, sentimentos e desejos
Rompi esse relacionamento com dificuldades e tentei descobrir onde estavam
os pedaços que havia perdido. Devido à angústia que
sentia comecei a fazer psicoterapia, e aos poucos comecei a descobrir
partes de mim das quais não havia consciência. Descobri que
algumas partes que são muito boas para mim, nem sempre o são
para outras pessoas. Descobri que eu poderia ser eu mesma sem ficar esperando
pelo reconhecimento ou elogio que nunca vinham, e que eu poderia obter
o meu próprio reconhecimento. Aos poucos comecei a me cuidar, me
ouvir, me senti mais confiante e mais segura de mim mesma, pois começava
a ouvir minha própria voz, meus próprios desejos e sentimentos.
A partir daquela noite percebi que eu não era mais estranha de
mim mesma, apesar de parecer aos olhos dos outros. Agora tenho impressão
de que a vida está apenas no início. Nesse momento estou
sozinha, mas não estou assustada, não tenho medo, e não
tenho que estar fazendo algo como esperam que eu faça, como sempre
me cobravam. Gosto de estar comigo mesma e de me tornar amiga de meus
pensamentos e sentimentos. Por causa disso, aprendi a respeitar as outras
pessoas, porque aprendi a respeitar meus próprios sentimentos.
Há um senhor, muito doente, que me faz sentir muito viva. Ele aceita
todos. Disse-me, outro dia, que eu mudei muito. De acordo com ele, eu
comecei a me abrir e a me amar. Penso que sempre amei as pessoas e contei
isso a ele, que me disse: “será que elas percebiam isso?”
Não acredito que expressasse meu amor, talvez expressasse minha
dor, pois parece que recebemos mais atenção quando não
estamos bem.
Entre outras coisas, estou descobrindo que nunca senti tanto respeito
por mim mesma. E agora que estou realmente aprendendo a gostar de mim,
estou finalmente encontrando a paz interior que eu tanto buscava nos outros,
mas que eles nunca poderiam me dar algo que eu só posso encontrar
dentro de mim mesma”.
Muitas pessoas podem se identificar com alguns trechos dessa pequena história.
Apesar de ser difícil enfrentar sentimentos profundos porque sabemos
da dor que esse confronto irá causar, ainda é a maneira
mais eficaz de se libertar dessa dor. Quando conseguimos olhar para dentro
de nós, passamos a aceitar as partes negativas e confiamos que
somos capazes de mudar uma por uma e valorizamos mais as positivas, colocando
um ponto final no sofrimento que dilacera a alma.
Mas como se encontrar? Dando atenção e ouvindo verdadeiramente
seus sentimentos, suas angústias, seus medos, dúvidas, seu
sofrimento; sem fugas, sem atalhos, sem desculpas que apenas fazem com
que permaneça no mesmo lugar. Apenas dando a si mesma: colo, carinho,
respeito, compreensão, e uma vontade imensa de encontrar a parte
perdida de você!
Uma música que reflete sobre isso é “Preciso me encontrar”,
do Cartola, gravada por Marisa Monte. Segue a letra abaixo para sua reflexão:
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar
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