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Coluna Reflexões
- Reflexão e entretenimento sobre o cotidiano
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Uso de ironia pode ser eficiente e destrutivo
Por Angelina Garcia
O e-mail veio em resposta ao pedido de Clara.
- Infelizmente não será possível ceder-lhe a sala maior,
pois já foi limpa e arrumada para a recepção restrita que
será oferecida ao bispo.
Clara não titubeia na réplica.
- Entendo. Desculpe-me por ter desconsiderado esta hipótese, pensando
em abrigar melhor as trinta crianças na festinha de Natal.
Perfeito. Clara não só acata a decisão do seu superior,
como ainda se desculpa pelo absurdo da sua solicitação. Poderíamos
parar aí, não fossem as farpas da ironia.
Aquele que detém o poder numa relação, seja ela mais, ou
menos, estreita, pode decidir de um ponto de vista do qual discordamos com dados
que, embora evidentes, ele não vê, ou lhe são pouco convenientes.
A indignação é imediata e não se contém.
Entre a necessidade de esvaziar-se e o fato de estar presa às perdas
a que levariam as atitudes drásticas que com freqüência nos
ocorrem neste tipo de situação, a ironia se materializa como única
opção. É a forma encontrada para dar voz ao que pensa,
sem dizer o que pensa; portanto, não se comprometendo. Como efeito, o
superior percebe o absurdo da sua atitude e volta atrás. Até pode
ser, mas se Clara o considerasse capaz disto não usaria tal ardil, procuraria
resolver a questão com uma conversa franca.
A ironia serve bem à literatura ou à brincadeira entre pessoas
que partilham este tipo de jogo, mas de outro modo pode ser faca de dois gumes.
Mesmo que cause o resultado desejado, e até por isso, provoca no outro
a insatisfação pelo contato que ele não desejava fazer
com as evidências, obrigando-o, muitas vezes, a rever sua atitude e contrariar
seus interesses. Ele se percebe exposto à crítica e ridicularizado.
É como se fosse flagrado num ato escuso. Ninguém gosta. Por outro
lado, passada a urgência da indignação, aquele que ironizou
pode não estar tão certo de que esta foi a melhor conduta, pois
também sabe que ridicularizou o outro e terá que conviver com
o mal-estar que isto provoca em cada um deles e entre eles.
Se estamos interessados em relações mais saudáveis, pensar
a ironia pode ser útil, tanto para que nossa indignação
não atropele a delicadeza, como para observarmos o que em nós
pode impedir o outro de nos dizer, de forma mais transparente, o que pensa.
Artigos:
Raiva chega antes da dor,
como defesa
Como lidar com
a sinceridade perversa
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Angelina
Garcia é professora de português
e Mestre em Artes Cênicas Mais informações - clique aqui |