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Saiba por que mente possui 84 mil venenos
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Vya Estelar entrevista Lama Tsering
Everest
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Por Angelo Medina
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Nesta entrevista ao Vya Estelar, Lama Tsering
Everest ensina como dominar os venenos da mente, a raiva e alterar carma
negativo em positivo. Ela explica a relação entre carma
e impermanência, um dos principais alicerces da filosofia budista.
Nascida nos EUA, Lama Tsering foi por mais de onze anos, intérprete de S. Ema. Chagdud Rinpoche. Depois de completar em 1995, um retiro de três anos, recebeu a ordenação de Lama, sendo autorizada a dar ensinamentos e iniciações. Neste mesmo ano, foi convidada a dar ensinamentos no Brasil, para onde se mudou logo depois. Reconhecida por seu estilo caloroso e bem-humorado, Lama Tsering foca seus ensinamentos no desenvolvimento da compaixão e na aplicação da filosofia budista na vida diária. |
Vya Estelar - O que são e quais
são os venenos da mente?
Lama Tsering - Os venenos da mente são divididos em três
categorias principais. A primeira é o apego ou desejo, que inclui o
ficar preso física ou mentalmente a pessoas, objetos e fenômenos.
A segunda é a raiva, que significa rejeitar, não querer, afastar
algo de você. O terceiro é a ignorância, que significa
não ter uma noção clara da vida, não compreender
a natureza verdadeira das coisas.
Estes venenos agem de maneira interdependente. O que ocorre é que,
quando não temos uma visão real da vida, acabamos criando desejos
e apegos. E quando não conseguimos o que queremos, criamos aversão
e ficamos com raiva.
Os venenos da mente agem como toxinas, criando energias mentais negativas.
Estas energias são expressas em nossas ações, palavras
e pensamentos, causando um sofrimento cíclico, em cadeia, que se repete
infinitamente.
Vya Estelar - Existem 84.000 venenos na
mente?
Lama Tsering - Sim. Eles são uma combinação dos
três venenos principais, sendo que podemos adicionar a eles o orgulho
e a inveja. Estas combinações vão ficando cada vez mais
sofisticadas e representam as diferentes formas errôneas com que nossa
mente pode atuar.
Vya Estelar - A raiva seria o principal
veneno da mente?
Lama Tsering - A raiva é o veneno mais grosseiro e o que traz
as conseqüências mais terríveis, cruas e diretas. O desejo
é mais sutil e, em nossa sociedade atual, é até mesmo
considerado uma coisa boa, apesar de trazer tanto sofrimento. Mas o veneno
fundamental, realmente, é a ignorância, é o não
reconhecimento da natureza verdadeira dos fenômenos. Não podemos
dizer que a ignorância seja o pior veneno, mas ele é o primeiro,
o que dá origem a todos os outros.
Vya Estelar - Como fazer para eliminar
a raiva ou domá-la?
Lama Tsering - Há várias formas para começar a
lidar com nossos venenos mentais. A primeira coisa a ser feita é reeducar-nos,
no sentido de identificar os venenos em nossa própria mente, suas conseqüências
e o que podemos esperar deles. Parece óbvio dizer que temos que nos
reeducar, mas não é. Por exemplo, achamos que é OK ficar
com raiva quando alguém faz algo errado conosco, nos fere, é
injusto. E não é OK. A raiva é um veneno mental e produz
experiências dolorosas para quem a sente, não importando se o
motivo que a tenha criado seja "aparentemente justificável".
Você tem que ser educado para saber que não deve tomar veneno
de rato, por exemplo. Se você entender isso, vai saber que se tomar
veneno de rato, ainda que o gosto seja doce, sofrerá um dano imenso.
Vya Estelar - Há um senso comum
entre as pessoas de que devemos expressar nossa raiva, "pôr para
fora". O Budismo acredita nisso de alguma forma?
Lama Tsering - Não, o Budismo não acredita nisso, porque
os venenos da mente agem como um bumerangue. Se você atirar sua raiva
adiante, o que você vai receber de volta é mais raiva. Nós
não compreendemos que nossas ações, palavras e pensamentos
são como bumerangues, e não como uma bola, que jogamos em direção
a alguém e lá ela fica. O bumerangue é atirado adiante
e ele volta.
Quando não entendemos essa regra básica, nos tornamos nossas
próprias vítimas e, feridos e ignorantes, jogamos o bumerangue
de volta, causando sofrimento atrás de sofrimento.
O Senhor Buda ensinou que é importante termos paciência, mesmo
quando momentos difíceis acontecem, porque estes momentos são
resultado de bumerangues lançados por nós mesmos, anteriormente.
Se um bumerangue estiver voltando, aceite-o, tenha paciência, deixe
que ele caia. Não atire mais três ou quatro de volta, porque
eles também vão voltar.
Vya Estelar - É melhor "engolir"
a raiva?
Lama Tsering - Melhor engolir do que cuspir de volta. Mas engolir também
não ajuda. Por isso, precisamos nos reeducar. Temos que refletir e
contemplar as conseqüências dos venenos mentais, para começamos
a obter elementos para lidar com eles. No entanto, o que precisamos realmente
é cortar esses venenos. E isso conseguimos fazer através da
meditação.
Mas, enquanto não desenvolvermos estas técnicas de contemplação
e meditação, precisamos evitar a raiva. Se ainda não
tivermos os meios hábeis para lidar com a situação, é
melhor correr do que reagir. Ou talvez você deva segurar sua respiração
por um instante e esperar a raiva passar.
Quando você estiver um pouco mais treinado, talvez não precise
correr nem prender a respiração, e consiga converter a situação
negativa em amor e compaixão.
Talvez consiga transformar a raiva, lembrando-se de que todos querem ser felizes
e as pessoas fazem o que fazem porque acham que aquilo trará felicidade.
Ao lembrar-se disso, pode cultivar a compaixão e ver que você
e aquela pessoa não são diferentes: você já agiu
raivosamente antes porque achava que aquilo o faria feliz. E, compassivo pelo
fato de que aquela pessoa não sabe das conseqüências que
a raiva traz, você converte sua emoção negativa em emoções
positivas, como amor e compaixão. E mais tarde, quando você já
estiver ainda mais treinado, poderá não apenas converter o negativo
em positivo, mas liberar as emoções negativas em sua própria
essência, cuja natureza é a perfeição. Grandes
mestres e praticantes lidam com sua raiva dessa forma. A raiva ocorre, mas
ela é livre, assim como as nuvens, que ocorrem mas dançam livres
no céu.
Vya Estelar - O que é a impermanência?
Lama Tsering - Encare sua vida como se fosse um banco no parque, em
uma tarde de clima ameno. Você vai até lá passar algumas
horas, sentado, aproveitando tudo ao máximo: a brisa fresca, os pássaros
cantando, as borboletas, o sol batendo no rosto. Tudo aquilo dura pouco tempo
e vai chegar ao fim. Por isso, você deve aproveitar o momento e criar
boas condições. Você não deve se apegar ao banco.
Não tente colocar uma etiqueta nele com o seu nome, querendo mantê-lo
para você! Isso vai impedi-lo de sentir o prazer e a liberdade de estar
lá, simplesmente sentado. E se alguém se sentar com você,
seja gentil, tratando-a com amor e compaixão. Não brigue com
esta pessoa. Seu tempo é muito curto. Vocês estão ali
apenas de passagem.
Ao lembrarmos de que tudo na vida é impermanente e chega ao fim, podemos
ser generosos com ela, sabendo que provavelmente ela nunca pensa no fato de
que terá que deixar o banco em breve, assim como você. Todos
nós queremos manter as coisas e não conseguimos. Temos que ter
compaixão por elas, e por nós mesmos. Compreender a impermanência
nos faz ricos: temos tudo neste momento e podemos ser generosos, abertos,
decididos a fazer o que pudermos para beneficiar a todos com o nosso amor,
sem medo de perder.
Vya Estelar - É possível
reduzir o carma?
Lama Tsering - Sim, o carma é purificável através
da educação e da meditação. O carma é algo
criado por nós, e tudo o que é criado pode ser alterado. Só
o que está além da criação - como a natureza absoluta
da nossa mente - não pode ser alterado.
Há duas formas de eliminar o carma negativo: uma delas é experienciar
as situações da vida sem rejeitá-las, e recebê-las
com amor e compaixão, transformando carma negativo em positivo; a outra
forma é purificar o carma negativo antes de vivenciá-lo, e ir
além do carma, não importando se ele é positivo ou negativo.
Esta segunda maneira de abordar a questão é crucial, mas só
pode acontecer depois de treinarmos nossa mente através de avançadas
técnicas de meditação.
De maneira mais imediata, a melhor coisa a ser feita é transformar
carma negativo em carma positivo. Mas precisamos ter em mente que produzir
carma positivo não é uma solução absoluta para
nosso sofrimento. Porque todo carma, positivo ou negativo, é impermanente.
Isso significa que, seja qual for o resultado positivo que você crie,
ele também vai mudar, mais cedo ou mais tarde. É um ciclo: o
que é positivo se transforma em negativo e o que é negativo,
em positivo. A única saída é obter a realização
da iluminação e tirar você e sua mente deste sistema cíclico
de existência.
Enquanto isso não ocorre, faça seu melhor e crie condições
positivas para suas experiências futuras, aceitando o seu carma, vivendo-o
da melhor forma posssível e o purificando.
Vya Estelar - Como fazer para terminar
um relacionamento com alguém com quem não combinamos muito,
sem criar carma negativo e nem sofrimento?
Lama Tsering - Podemos dizer que a principal religião de nossa
sociedade atual é o amor - nossas músicas, nossos filmes e nossos
anseios são todos a respeito de relacionamentos - e, no entanto, nós
nem ao menos sabemos o que é o amor. As pessoas se preocupam muito
com os relacionamentos mas, na verdade, elas se preocupam mesmo é consigo
mesmas. Elas querem ter um amor porque isso fará com que elas se sintam
bem.
E o Budismo traz um novo paradigma a este respeito: amar é querer que
o outro seja feliz. Ao amar, devemos nos preocupamos com o bem-estar do outro
e não em atender aos nossos interesses.
Se você está com uma pessoa, é por causa do carma. Enquanto
estiver com ela, você deve fazê-la o mais feliz possível.
E se você deve terminar ou não o relacionamento, vai depender
se isso vai fazê-la mais feliz ou mais infeliz. Sua preocupação
não deve ter nada a ver com a sua própria felicidade. Se você
tiver isto em mente, é mais provável que tome a decisão
mais correta.
O relacionamento vai acabar de um jeito ou de outro. Lembre-se da impermanência:
você e a outra pessoa não duram para sempre. O próprio
relacionamento é impermanente e vai acabar naturalmente, quando não
houver mais carma entre vocês. Então, aproveite o momento, e
não se esqueça de pensar no bem-estar dos demais, mais do que
no seu próprio. Isso é libertador.
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