| "Nós mesmos somos capazes
de criar muitos e diferentes cenários para a mesma questão.
O que faz com que criemos e escolhamos alguns cenários e não
outros? O que faz com que escolhamos alguns desses cenários
para orientar nossas ações?" |
Diariamente nos relacionamos com situações,
pessoas, instituições, grupos e, para tal, contamos
com um saber acumulado acerca das melhores formas para lidarmos ou
respondermos às questões. |
A decisão sobre quais são as melhores formas
supõe um cenário a partir do qual julgamos prever possíveis
respostas do outro, formas de pensamento, estruturas generalizadas, modos
comuns de compreensão do mundo e da vida. Em outras palavras, consideramos
respostas esperadas a partir de nossas próprias formas de conceber
o mundo.
Às vezes nos surpreendemos com respostas completamente
diferentes daquilo que esperamos: “não entendo a lógica
dele”; “como é possível que alguém pense
assim!”; “ele não pensa”; “é incompreensível
a atitude dela”...
Nossa surpresa diante de respostas inesperadas delata as
expectativas que criamos acerca dos modos de compreensão, das formas
de pensamento, de como funciona a mente humana, ou ao menos, como funciona
a mente do outro. E a partir de tais expectativas podemos observar muito
mais de nós mesmos do que do outro.
O Leviatã: "lê-te
a ti mesmo"
Thomas Hobbes, na introdução de O Leviatã
afirma que a sabedoria não se encontra nos livros, mas no
estudo do homem. Para o estudo e a compreensão do ser humano, ele
propõe: “lê-te a ti mesmo”. Segundo ele, como
possuímos as mesmas paixões e somos iguais em diversos aspectos,
compreendendo a nós mesmos poderemos compreender a humanidade.
Talvez sejam princípios como este que nos permitem pensar que somos
capazes de ler a mente do outro, de saber o que o outro sabe – e
até o que ele não sabe – sobre si mesmo, a partir
de um profundo estudo acerca de nós mesmos.
Poderíamos nós ter acesso à compreensão de
nossas próprias mentes? De nossas próprias formas de pensamento?
Ou quando fazemos uma leitura acerca de nossos pensamentos o fazemos a
partir de uma estrutura previamente estabelecida, que já compõe
nosso modo de pensar? O que pergunto é se conseguimos identificar
as estruturas a partir das quais pensamos ou se compreendemos o nosso
pensar a partir dessa mesma estrutura e, por este motivo, ela conduz nosso
pensamento sem que percebamos?
Questão antiga, já proposta por vários filósofos.
Kant, na Crítica da Razão Pura faz exatamente um
questionamento sobre os limites da razão, mostrando que temos acesso
a dados da experiência que caibam nas categorias de nosso intelecto,
categorias estas que são as mesmas para todos os humanos, e que
erramos quando tentamos colocar em tais categorias o que não cabe
nelas.
Hobbes e Kant
Tanto a concepção hobbesiana de homem, quanto o sujeito
transcendental kantiano são universais e, por intermédio
do estudo de tais concepções, poderíamos ter acesso
ao que é inerente ao humano, traçando, com isso, possibilidades
concretas de leituras praticamente precisas acerca do mundo que nos cerca,
dentro de nossos limites humanos, é claro. Tais leituras nos serviriam
de referencial para nos posicionarmos no mundo, para lidarmos com o outro,
com as questões que nos são colocadas.
Como há, segundo eles, aspectos universais que nos determinam,
como a razão humana, a igualdade no desejo de poder, entre outros
aspectos, a partir do conhecimento de tais dados estabelecemos um grau
de previsibilidade muito seguro para orientar nossas questões.
São esses dados que utilizamos para compor os cenários de
nossas imagens mentais, cenários futuros baseados no estudo de
dados presentes e, consequentemente, cenários que servirão
de mapas conceituais para orientar nossas ações.
Por outro lado, apesar de sermos seres de uma mesma espécie, alguns
de nós pertencentes a uma mesma cultura, somos capazes de criar
cenários completamente diferentes diante das mesmas situações.
Nós mesmos somos capazes de criar muitos e diferentes cenários
para a mesma questão. O que faz com que criemos e escolhamos alguns
cenários e não outros? O que faz com que escolhamos alguns
desses cenários para orientar nossas ações?
Observe o quanto os cenários que você cria
dirigem sua ação, orientam seu posicionamento diante do
outro e do mundo. Quantas vezes você já foi surpreendido(a)
com cenários completamente diferentes do imaginado? Sua postura
sempre permite a surpresa ou ela determina a resposta do outro? O que
você considera para construir suas imagens mentais acerca das situações
vividas?
Exercitemos com Hobbes: o que você faz quando você pensa,
opina, raciocina, receia, age? Como faz isso? Por que motivos faz? Será
que os outros fazem o mesmo ao pensar, opinar, raciocinar, recear, agir?
O que lhe faz considerar isso? Qual a margem de erro existente no momento
em que aplica suas formas de leitura do mundo e de si mesmo ao outro?
É possível, diante disso, a partir de tais dados, ler as
mentes dos outros?
Referências Bibliográficas:
HOBBES, T. O Leviatã. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril
Cultural, 1973.
KANT, I. Crítica da Razão Pura. Col. Os Pensadores. São
Paulo: Abril Cultural, 1973.
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